MATÉRIA DA CARTA CAPITAL MOSTRA A LUTA DA COMUNIDADE LGBTQI+, EM CUBA, CONTRA A IGREJA EVANGÉLICA

22/11/2019

 

Quem vem a Cuba pode se surpreender com as conquistas e a evolução do movimento LGBTQI+ nos últimos anos. Pelas ruas, membros desta comunidade circulam tranquilamente vestindo camisetas estampadas com a bandeira do arco-íris, pessoas trans se misturam ao povo, sem olhares ou julgamentos explícitos. Casos de violência física são raros, já os verbais nem tanto. Mas se a questão evoluiu muito nos últimos anos – especialmente com a recente abertura do governo – o movimento LGBTQI+ tem atualmente um grande inimigo: o braço mais conservador da Igreja Evangélica cubana, que conseguiu impedir, neste ano, que o casamento entre pessoas do mesmo sexo entrasse na nova Constituição do país.

 

A psicóloga Dachelys Valdés Moreno, de 33 anos, abre a porta de sua casa com o pequeno Pablito, de seis meses, nos braços. Ela e a companheira, Hope, americana, realizaram uma inseminação artificial nos Estados Unidos para poder dar início à família que jamais cogitou em deixar Cuba diante das dificuldades enfrentadas. Hope é pesquisadora e seu campo de investigação é justamente o país. “E também gostamos mais daqui”, explica a americana.

 

Essa família homoparental faz parte das tantas contradições de Cuba, que se moderniza nessa nova gestão, do presidente Miguel Díaz-Canel, eleito em 2018. As duas jovens vivem juntas, têm um filho, se apresentam como esposas, mas não podem se casar por falta de uma lei que permita o matrimônio para todos. No país onde o aborto e a mudança de sexo são procedimentos gratuitos e garantidos pelo governo, mulheres solteiras, por exemplo, não têm direito de realizar inseminação artificial. A filiação de crianças de famílias formadas por pessoas do mesmo sexo também é dificultada pela ausência de lei sobre a questão.

 

Outra contradição é a ausência de organizações de defesa dos direitos LGBTQI+, não por interferência do governo, mas, segundo Dachelys, “porque a comunidade é desunida e desarticulada”. “O que mais despertou o movimento em Cuba foi a proposta da nova Constituição, no ano passado, cujo projeto inicialmente previa o casamento para todos. Foi a partir daí que os LGBTQI+ começaram a se reunir em prol de uma mesma causa, participando das reuniões para discutir as novas leis”, afirma.

 

Ao mesmo tempo, a psicóloga também percebeu que esse período importante da comunidade foi “um momento de ruptura, especialmente quando o célebre artigo 68, sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, não entrou no texto final da Constituição”. Segundo ela, por dois motivos: a culpabilização dos próprios militantes pela falta de organização e as desavenças entre as pessoas LGBTQI+ e o Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), órgão cubano que promove políticas e pesquisas em prol da educação sexual da população, com diversos projetos para a inclusão de pessoas LGBTQI+. Muitos militantes acusam o centro de não ter dado apoio suficiente à proposta do casamento para todos, diante da pressão extrema e da campanha de desinformação realizada pelo braço mais conservador da Igreja Evangélica em Cuba.

 

O Cenesex, fundado em 1989, é presidido por Mariela Castro – filha do ex-presidente cubano Raul Castro – ela própria bissexual. Integrante do Ministério da Saúde, o centro é reconhecido pela comunidade LGBTQI+ e boa parte das questões relacionadas aos direitos desta minoria evoluíram graças ao trabalho deste organismo. Ele lida, por exemplo, com questões de gênero e bullying nas escolas, promove jornadas contra a homofobia e transfobia, e tem até mesmo sua própria Parada Gay. Também trata de outras questões relacionadas à evolução da sexualidade na sociedade cubana e dos direitos das mulheres.

 

“Com certeza o trabalho do Cenesex é muito positivo. O problema é que esse é um país onde durante tantos anos a comunidade LGBTQI+ não teve tantos direitos nem o protagonismo que tem hoje. Então se exige deste organismo cada vez mais mudanças e mudanças cada vez mais rápidas. Afinal, o Cenesex é visto como uma ponte entre nós e o Estado”, enfatiza Dachelys.

 

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