MEMÓRIA DA RESISTÊNCIA CHILENA AO GOLPE DE ESTADO DE 11 DE SETEMBRO DE 1973

 

Há 46 anos, numa manhã de 11 de setembro, a artilharia aérea desabou sobre o Palácio Presidencial do Governo Chileno. Ao largo do país, projéteis de todo tipo ceifaram a democracia chilena, mutilaram seu povo, abortaram uma tentativa de libertação nacional. Usadas indevidamente, as forças armadas e de segurança foram instrumentadas para o crime político, para a tortura sobre mentes e corpos, para violar a Constituição republicana.

 

Seu corolário foram as delegacias abarrotadas, os campos de detenção e concentração, as salas de tortura, o bombardeio de bairros, a fim de carreiras profissionais, as perseguições a militares legalistas, a relegação de opositores, os crimes sexuais, o exilio de milhares de cidadãos, o desmanche de famílias, os fuzilamentos sumários e os quase 5000 mortos e desaparecidos listados até o presente.

 

Emulando os crimes de lesa-humanidade praticados até então na Bolívia, no Brasil e Uruguai, o regime ilegal chileno antecipou a barbárie que seria logo depois praticada na Argentina, com o beneplácito e reconhecimento oficiais dos governos norte-americanos. Por detrás do espanto que provocaram, estas violências foram a estrada aplainada para novos projetos econômicos, batizados de neoliberais, que renovaram a espoliação do trabalho e da natureza na América Latina, centenária vítima da associação de suas castas predadoras com poderes exteriores. As fardas realizaram o serviço sujo para o enriquecimento dos enfatiotados poderosos de turno.

 

Um total ainda impreciso cifra entre 120 e 150 o número dos cidadãos brasileiros sequestrados naquele setembro transandino, em campos de detenção que se espalharam da nortista Arica à Temuco sulina, com maiores concentrações em Concepción e na capital Santiago. Submetidos a diversos tipos de tortura, ombrearam com bolivianos, uruguaios, argentinos e diversas outras nacionalidades na resistência e energia solidária, mantendo no alto o nome da cada uma dessas nações, ante o delito orgânico e planejado, que incluía interrogatórios e sevicias dirigidos por repressores de seus próprios países.

 

Em seu trabalho de Memória, Verdade e Justiça, o Comitê Carlos de Ré tem contribuído para plasmar a memória do exílio dos cerca de 6000 brasileiros no Chile, assim como sua resistência e solidariedade, pondo acento constante na comovedora solidariedade com que foram acolhidos ao refugiar-se ali. Produzindo atos públicos, emitindo boletins, realizando pesquisas acadêmicas, entrevistas com exilados, busca em acervos jornalísticos e pessoais, oferecendo entrevistas a meios de comunicação, produzindo filmes para redes sociais, cruzando dados dispersos, disponibilizando material audiovisual para uso público, publicando livros, participando de eventos no Chile, tem procurado manter viva a ideia de solidariedade entre nossos povos.

 

Os mais significativos destes materiais têm como destino os acervos do Museo Nacional de la Memória y Derechos Humanos, o Memorial del Estadio Nacional, e a Casa de Memória José Domingo Cañas (ex casa de Theotonio). Fruto desta comunhão de laços de amizade, o Comitê é referido nas alocuções oficiais de 2015 e 2017 no Estádio e no Museu, pela voz de seus diretores Sra. Wally Kunstmann e Francisco Estevez.

 

No Estádio Nacional do Chile, cerca de 120 brasileiras e brasileiros padeceram sob o tacão do opróbio. Já o número de vítimas fatais em todo o país alcança a 8 cidadãos brasileiros, num período que vai desde antes do golpe de estado até muitos meses depois, incluindo duas vítimas raptadas no exterior do Chile pela Operação Condor. No audiovisual pode assistir-se biografias de Nilton Rosa da Silva, Wanio José de Mattos, Jane Vanini, Tulio Quintiliano Cardoso, Nelson de Souza Kohl, Luiz Carlos de Almeida, Maria Regina Marcondes Pinto e Jorge Alberto Basso. Estes compatriotas nossos deixaram seu sangue e vida no Chile, por isto comungam a honra e o direito de participar dos memoriais em que o Chile democrático e humanista celebra seus mártires.

 

Neste dia em que se rememora a brutalidade mas se faz com muito maior empenho o elogio da resistência e solidariedade, dizemos: Nunca Mais!

 

Porto Alegre, 10 de setembro de 2019.

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