VIOLÊNCIA CONTRA "LANCEIROS NEGROS" COMPLETA 3 ANOS DA AÇÃO COVARDE E DESUMANA DO GOVERNO-RS E DA BM



O sexto episódio do especial A CERTEZA NA FRENTE E A HISTÓRIA NA MÃO traz à tona um dos mais tristes e desumanos episódios da história recente de Porto Alegre. Neste domingo (14/6), um grupo de remanescentes da ocupação Lanceiros Negros fez um ato para marcar os três anos da desocupação de um prédio localizado na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro da cidade. Na quela noite fria do dia 14 de junho de 2017, o estado do Rio Grande do Sul, representado pelo então governador José Sartori (PMDB), promoveu uma das ações mais vergonhosas aos olhos do povo gaúcho. A ação covarde protagonizada pela tropa de choque da Brigada Militar, durante a desocupação de um prédio localizado na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro da cidade, foi uma demonstração da crueldade e do descaso do Estado, justamente com que mais necessita de iniciativas e de políticas públicas. No início da tarde ensolarada do último domingo, o jornalista Alexandre Costa acompanhou o ato realizado em frente ao prédio, que desde a desocupação está vazio e abandonado, e fez duas transmissões ao vivo, pela página do Esquina Democrática no facebook. Também vamos disponibilizar um especial produzido após a ação violenta que retirou a moradia de 70 famílias, prendeu de forma autoritária e truculenta o deputado estadual Jeferson Fernandes (PT) e resultou em uma série de atos e manifestações de apoio aos Lanceiros Negros.


A ação que resultou na desocupação do prédio, que estava abandonado há cerca de 10 anos antes de ser ocupado, foi a quinta reintegração de posse autorizada pela Justiça. Nas quatro vezes anteriores, os advogados da ocupação conseguiram reverter a decisão. Na mais dramática delas, em maio de 2016, a Brigada Militar chegou a montar uma grande operação, isolando todos os acessos ao prédio durante a noite com a expectativa de remover os moradores pela manhã. Foram horas de tensão em que as famílias da Lanceiros permaneceram divididas entre quem conseguiu chegar em casa antes do bloqueio e aqueles que voltavam do trabalho quando a BM já havia isolado o perímetro. Ao amanhecer, porém, todos receberam a notícia de que uma liminar obtida na Justiça obrigava o Estado a suspender a ação. Mas a quinta ação, proferida pela juíza Aline Santos Guaranha, da 7a. Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre, teve a determinação de que o despacho fosse realizado em caráter de urgência e com a recomendação de ter "o cumprimento da ordem aos feriados e finais de semana e fora do horário de expediente, se necessário, evitando o máximo possível o transtorno ao trânsito de veículos e funcionamento habitual da cidade”. Seguindo o despacho da magistrada, a Brigada Militar decidiu realizar a reintegração de posse na véspera da data do Corpus Christi, um feriado nacional para “celebrar a partilha do corpo de Cristo”.


Na noite de 14 de junho, enquanto era realizada uma audiência pública da comissão de cidadania e direitos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, justamente para tentar reverter a decisão de reintegração de posse iminente, alguns moradores da ocupação perceberam a movimentação da Brigada Militar próximo ao prédio. Percebendo a tensão, o deputado Jeferson Fernandes resolveu transferir a audiência para a frente da ocupação Lanceiros Negros. Mas quando os integrantes da comissão chegaram ao local se depararam com o efetivos da tropa de choque, BM, POE.


As tropas de choque cercaram as ruas do entorno da ocupação. Um pelotão foi instalado na esquina da Riachuelo com a General Câmara e outro na esquina da Ladeira com a Andrade Neves, onde dezenas de pessoas permaneciam em vigília, em solidariedade aos Lanceiros Negros. Em seguida, surgiram caminhões da Emater (empresa de assistência técnica e extensão rural), que são usados nestas ocasiões para transportar os pertenças das famílias. A informação que corria extra-oficialmente é de que os moradores seriam transferidos para o Vida Centro Humanístico, uma espécie de centro de assistência social do estado, localizado no bairro Sarandi.


Mesmo com a vigília e com um novo pedido de liminar que já estava prestes a ser despachado, por volta da meia-noite, a BM deu início ao espetáculo de horrores. Bombas e mais bombas foram jogadas indiscriminadamente contra os apoiadores que atiravam pedras contra o efetivo da BM. Mesmo diante do presidente da comissão de cidadania e direitos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a tropa de choque agrediu o deputado Jeferson Fernandes. Na época ele relatou o fato à imprensa. Ele contou que depois da operação já ter iniciado, apareceram dois oficiais de justiça e que ele exigiu que fossem respeitados protocolos mínimos, respeitando os direitos das pessoas que estavam sendo despejadas. “Mal me mostraram o mandado e disseram que eu tinha que sair da frente. Como afirmei que não sairia enquanto todo um protocolo civilizado de respeito às mulheres e às crianças fosse apresentado, o oficial deu sinal para a ação da BM. Me atropelaram, me arrastaram pelas pernas, torceram o meu braço, me deram uma gravata, me algemaram, torceram minhas mãos, meus dedos, fui xingado, cassetete na cabeça. Depois, me colocaram dentro de uma viatura e andaram comigo nas imediações, nas ruas do Centro, fazendo movimentos bruscos com o veículo para me intimidar. Eu e mais duas mulheres estávamos dentro da gaiola da viatura. Estacionaram o veículo e permaneceram cerca de 20 minutos na frente do Palácio Piratini. Acredito que, em virtude da repercussão que as mídias devem ter dado, as mídias sociais, eles resolveram então me levar até a frente do Theatro São Pedro e lá me soltaram. Simplesmente me soltaram. O procedimento correto seria de me levar para a delegacia, como levaram os demais. Mas me soltaram em frente ao Theatro São Pedro”. Depois de liberado, o deputado Jeferson Fernandes foi para o Palácio da Polícia e registrou o ocorrido e foi fazer um exame de corpo de delito. Ele solicitou que todas as pessoas presas durante a reintegração, ao menos oito, fossem encaminhadas para o local. As duas mulheres que estavam ao lado dele no camburão não haviam sido liberadas ainda. “Não há nenhuma vírgula fora do que eu estou falando. Tudo está comprovado, tudo gravado”, afirmou o deputado. O deputado Jeferson foi acusado de ter questionado a decisão judicial e ter incitado o movimento a resistir. O deputado Fernandes rebateu a acusação, afirmando que em nenhum momento questionou a decisão judicial ou incitou o movimento: "O que o governo fez através da força da brigada militar, respaldado pelos oficiais de justiça que ali estavam, é característico de um período de exceção".

UMA NOITE FRIA E TRISTE EM PORTO ALEGRE PELAS LENTES DE GUILHERME SANTOS, DO SUL21

Guilherme Santos é um dos mais talentosos fotógrafos do Rio Grande do Sul. Em meio às bombas de gás e diante da ação truculenta da Brigada Militar, registrou com precisão todos os momentos daquela noite fria e triste em Porto Alegre. As imagens foram publicadas no Sul21, um dos mais expressivos veículos independes do sul do país, que em 2020 completa 10 anos de jornalismo, com qualidade e credibilidade.



Os primeiros dois vídeos foram realizados neste final de semana durante um ato em frente ao prédio da ocupação Lanceiros Negros.


Os próximos vídeos integram uma série especial produzida na época pelo jornalista Alexandre Costa.

Selecionamos alguns outros vídeos produzidos por canais de mídia independente.

Os dois primeiros são verdadeiras obras primas elaborados pelo Coletivo Catarse.

Vídeo publicado pelo Correio do Povo, na noite da desocupação e da ação violenta da BM.


CLIQUE AQUI E CONFIRA O ESPECIAL A CERTEZA NA FRENTE E A HISTÓRIA NA MÃO


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