USO DE MÁSCARA REDUZ EM 87% A CHANCE DE CONTRAIR COVID-19, DIZ ESTUDO DE UNIVERSIDADES DO RS


A matéria de Luís Eduardo Gomes, publicada nesta sexta-feira (5/3), no Sul21, traz informações importantes sobre o uso das máscaras. As informações são baseadas em um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (SMS).


De acordo com a pesquisa, o uso de máscaras reduz em 87% a chance de ser infectado pelo coronavírus (SARS-CoV-2). Além disso, aponta que a adesão ao distanciamento social de forma moderada a intensa reduz em 59% e 75% as chances de contrair o vírus. O artigo está em fase preprint, isto é, ainda não foi revisado por pares.


Marcelo Rodrigues Gonçalves, professor da Faculdade de Medicina e do programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFRGS, explica que os pesquisadores vinham analisando os estudos sobre o distanciamento social e o uso de máscara e perceberam que a maioria deles era relacionado a pandemias passadas, especialmente a da H1N1, ou a estudos já relacionados à covid-19, mas com caráter populacional, que não estudavam diretamente o comportamento dos indivíduos.


Os pesquisadores decidiram então partir da Epicovid-19, capitaneado pelo professor Pedro Hallal da UFPel e que deu suporte para políticas do governo estadual, e avaliar o comportamento de pessoas que haviam testado negativo neste estudo, que já havia feito diversas perguntas sobre distanciamento social e uso de máscaras. Graças à parceria com a SMS, também tiveram acesso ao sistema de notificação de Porto Alegre e conseguiram, por meio de contato telefônico, entrevistar pessoas que foram infectadas pela covid-19 e aplicar o mesmo questionário que havia sido aplicado na Epicovid, com perguntas sobre uso de máscaras, grau de adesão ao distanciamento social e frequência de atividades fora de casa.


Os pesquisadores partiram de uma lista de 3.437 pacientes positivos para covid-19 fornecida pela SMS. Após a triagem, em que foram excluídos, por exemplo, profissionais de saúde, aplicaram o questionário a 271 pacientes que foram infectados. Já em relação aos dados da Epicovid, foram analisados os resultados de 1.396 questionários respondidos de pessoas que testaram negativo.


“É um estudo que chamamos de caso-controle. Nós temos os casos, que são as pessoas que tiverem infecção, e os controles, que são as pessoas que não tiveram infecção. A partir desse desfecho, ter ou não ter a infecção, a gente pergunta para trás, o que aconteceu. Nós tivemos o cuidado de pegar pessoas dos mesmos períodos das ondas de Epicovid, que foi entre abril e junho do ano passado, o que deu um total de 271 casos e 1.386 controles”, explica.


Marcelo diz que foram comparados o período da pandemia, a idade das pessoas, se eram homens ou mulheres e outras variáveis usadas para descartar a possibilidade de o resultado ter sido uma aleatoriedade estatística, isto é, de não ser possível precisar que as pessoas estudadas não contraíram a infecção pelo uso da máscara, mas por outro motivo. “São variáveis que colocamos para ver se não teve essa interferência. Porque, quando tu começa a colocar essas variáveis, quando vê, tu tens uma interferência que tira todo o poder estatístico. Mas, mesmo fazendo o que nós chamamos de ajuste de modelo estatístico, que é uma espécie de calibragem, manteve-se uma significância importante essa diferença entre os grupos”, diz.


A partir desse cruzamento, os pesquisadores puderam concluir que as medidas de proteção têm papel importante na prevenção ao vírus. “A gente viu que aquelas pessoas que tiveram uma maior adesão às medidas de distanciamento social, considerando adesão moderada ou alta, elas tinham um risco de infecção menor que as outras de 59% a 75%. E, quando pegamos a amostra do uso de máscaras, que foi uma amostra menor, porque não tinha essas perguntas nas primeiras ondas da pesquisa Epicovid, vimos que as pessoas que utilizaram máscara tinham 87% menos chance do que as outras de ter a doença. Quer dizer, o uso de máscara, nessa avaliação desse estudo, mostrou que a proteção é enorme”, afirma.


Com base no estudo, que ainda será revisado por pares, os cientistas reforçam a orientação do Comitê Científico de Apoio ao Enfrentamento à Pandemia do Governo do Estado de que a população precisa manter o distanciamento social e o uso de máscaras em todas as situações, especialmente enquanto a vacina não avança.


Em um documento divulgado em 20 de fevereiro, os integrantes do comitê ressaltam: “Algumas opções são duas máscaras de pano, uma máscara cirúrgica com máscara de pano por cima, ou uma máscara do tipo PFF2 com selo do Inmetro. O importante é que ela seja bem colocada, tapando o nariz e a boca e não deixando vazar ar. Para caminhar ao ar livre, em locais sem aglomeração, pode ser usada uma máscara simples”. O comitê também recomenda manter distanciamento mínimo de dois metros e dar preferência a ambientes ao ar livre ou bem ventilados.


Além de Marcelo, participaram do estudo os pesquisadores Rodrigo Citton Padilha dos Reis (UFRGS), Rodrigo Pedroso Tólio (UFRGS), Lucia Campos Pellanda (UFCSPA), Maria Inês Schmidt (UFRGS), Natan Katz (UFRGS), Sotero Serrate Mengue (UFRGS), Pedro Hallal (UFPEL), Bernardo Lessa Horta (UFPEL), Mariangela Freitas Silveira (UFPEL), Roberto Nunes Umpierre (Hospital de Clínicas de Porto Alegre), Cynthia Goulart Bastos-Molina (UFRGS), Rodolfo Souza da Silva (UFRGS) e Bruce Bartholow Duncan (UFRGS).


Confira o estudo em https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3731445.