TEATRA

por Juçara Gaspar (*)

Escrever é uma forma de conjurar uma outra visão. No ensaio "Pensamentos de paz durante um ataque aéreo",Virginia Woolf, em seu refúgio durante a segunda guerra, enquanto passava os olhos pela sua máscara de gás, cuidadosamente posta à mão para qualquer emergência, evocava mais uma vez as mulheres à escrita. Se queremos um mundo sem guerras é preciso que escrevamos sobre esse mundo, a paz precisa ser trazida à existência pelo pensamento, ela diz. Esse é só um dos impulsos que deixo sempre na fervura do caldeirão: se queremos um mundo com equidade e justiça de gênero, de raça, e verdadeira liberdade para todes, é preciso conjurar esse mundo. Trazê-lo à tona pela força do pensamento.


Depois de navegar por mares de guerras, de torturas, assédios, violência e castigos - não só nos índices criminais cotidianos, mas também na literatura e na dramaturgia e em todas as áreas do pensamento, vem esse dar-se conta de como o femicídio é parte das estratégias de manutenção da honra e do pátrio poder, e no teatro não foi diferente, utilizado muitas vezes como ferramenta disciplinadora, desde Antígona até hoje. Venho conjurar com esta escritura uma arte que não mais nos cale ou castigue. Dramaturgias onde não morramos em cena, mas ficamos vivas para variar. Por isso tenho me debruçado a investigar sobre a teatra - expressão forjada em meios teatrais informais - que vem problematizar e impulsionar discussões variadas, como combate à perpetuação das ferramentas forjadas pelo patriarcado ao longo da história, em todas as áreas de expressão humana.


Esse estranhamento inicial à palavra no feminino só dura o tempo de compreensão do que ela vem reivindicar, luta justa, honesta e imprescindível. A teatra além de outras caracteristicas, é desveladora de uma linhagem numerosa e variada de mulheres trabalhadoras das artes da cena, que sofreram e sofrem total apagamento, inclusive hoje, no teatro vigente, onde só há espaço para estudar os cânones e clássicos que “não podem deixar de ser conhecidos por qualquer fazedor de teatro” é o que ouvimos, esses, hegemonicamente homens, cis, brancos.


A Teatra é esse outro espaço da história, lugar da memória, onde trabalhadoras das artes da cena, dramaturgas, diretoras, pesquisadoras, técnicas, atrizes e as suas vivências e produções, são investigadas e suas biografias e teorias trazidas à tona. Antes de nós existiram muitas outras, buscando abrir brechas no sistema hostil que permanece em todos os âmbitos da humanidade, inclusive nas artes, inclusive no teatro. Este escrito é uma ode e também uma reivindicação: por uma teatra para todes.


Praxilla, Robin Morgan, Josephina Álvares de Azevedo, Narcisa Amália, Julia Lopes de Almeida, Revocata e Julieta de Melo, Edith Craig, Júnia Pereira, Rossandra Cabreira, Arami Marschner, Karla Neves, Santa Terezinha de Lisieux, Luciana Lyra, Joana Darc, Santa Teresa D'Ávila, Karla Martins, Ana Cecília Costa, Peta Tate, Dodi Leal, Lúcia Romano, Lígia Tourinho, Augustine, Didi Huberman, Elaine Showalter, Mayra Robertson, Rita Segatto, Dayana Roberta, Abigail Campos Leal, Gisele Vasconcelos, Maria Aragão, Gabriele Colette, Mary Germain, Drica Santos, Louise Michel, Margareth Rago, são algumas das mulheres que encontrei na grande ciranda tecida pela professora Maria Brígida de Miranda na disciplina Seminário de Introdução ao Teatro Feminista. O formato on LINE fez com que o debate das aulas se estendesse para as outras pessoas da família, ampliando olhares e compreensão de meus filhos e companheiro da minha própria pesquisa. Participaram atentos das minhas escrituras, trabalhos e descobertas, inspirados pela generosidade da professora Brígida e pela minha emoção por estar acessando essas

informações das quais tinha e tenho tanta sede.


Escrevo aqui sobre esse compêndio de mulheres encontradas no semestre primeiro do mestrado, enquanto vou abrindo espaço para outras que vão chegar no próximo período letivo. Escrevo aqui sobre a minha visão pessoal do semestre, com base nas minhas próprias indagações. Mesmo nesses tempos de relações mediadas pelas telas, me senti abraçada nessa roda de saberes, nessa mandala de artistas, trabalhadoras da cena. Descobri-las e as suas vivências teve em mim um poder de representatividade quase eufórica, é mágico ter acesso a essas experiências, a esses fazeres artísticos, saber que há uma mitologia longa que abriu e abre caminhos. À elas tenho recorrido sempre que me sinto angustiada com a pandemia, quanto ao futuro das artes, quanto as minhas dúvidas profissionais. Acendo velas para as que estão vivas e para as que iluminam nossas vidas desde o plano mítico da memória. Conjuro suas potências, essa mitologia composta de peças encontradas e outras que estão por serem descobertas. E agradeço.


(*) Juçara Gaspar é atriz e professora de teatro.


Referências:

WOOLF, Virgínia. O valor do riso e outros ensaios. Cosac Naify, 2014.