SALVE-SE QUEM PUDER

por Márcia Martins (*)


E começamos o ano de 2021 com perspectivas nada animadoras para Porto Alegre vindas do novo prefeito, Sebastião Melo, que recém assumiu o comando do Paço Municipal. No primeiro dia útil de seu governo, cumprindo o que afirmou na campanha eleitoral (o aviso foi dado), o prefeito baixou um decreto liberando e flexibilizando várias atividades. No twitter, alguns jornalistas denominaram o decreto do mais verdadeiro PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do Coronavírus. Eu, em isolamento rigoroso, amplo e irrevogável, não quero pegar “ranço” desde o início, mas como estamos falando de vidas, classifico tal medida como “salve-se quem puder”.


Pois, em 4 de janeiro deste novo ano, data do calendário em que eu assinalei meu 295° dia de confinamento total, sem esta palhaçada de distanciamento controlado, ignorando o alto índice de contaminação do Coronavírus na cidade, o prefeito tornou as regras menos rígidas. Bares, restaurantes e lanchonetes, até as localizadas em shoppings, têm horário de funcionamento liberado, e não é preciso mais respeitar a ocupação máxima de 50% de público no comércio de rua. Bancos e lotéricas agora podem ignorar a regra de um cliente para cada funcionário. Assim como medidas bem flexíveis – que seguramente favorecem a propagação da Covid-19 – passam a valer para outros tipos de comércio.


Sob o argumento – seguidas vezes falado durante a sua campanha, ninguém pode negar – de que é preciso manter os empregos da cidade, Sebastião Melo parece ignorar que para girar a economia é preciso ter consumo e demanda. E que para isto ocorrer, é necessário que o consumidor esteja vivo. Pode parecer clichê, mas CPF morto não consome e não movimenta os cofres do CNPJ. É uma regra básica. Até provem o contrário, morto é morto.


Mas alguns negacionistas não entendem que estamos falando de vidas. Que desde a primeira vítima de Covid-19 no Brasil, em 12 de março, os números assustam e aconselham cada vez mais a se seguir o isolamento, o confinamento e o distanciamento. Nas últimas 24 horas, o Brasil registrou 56.648 novos casos de Coronavírus e 1.171 mortes. O número de óbitos pela doença foi o segundo maior desde o início de setembro (perdeu apenas para 30 de dezembro, quando houve o registro de 1.194 falecimentos por Covid). E o Rio Grande do Sul voltou a ter mais de 100 mortes pela Covid-19 nas últimas 24 horas (26 somente na capital).


Na Porto Alegre do “Salve-se quem puder”, infelizmente, a tendência é que estes números subam violentamente nos próximos dias, como reflexo imediato do descontrole nas festas de final de ano, e a partir de 15 de janeiro, como resultado direto do decreto de flexibilização irresponsável do prefeito. Assim se desenha o destino infeliz de uma cidade. Assim se destroem famílias. Assim se matam vidas.

*Márcia Martins é jornalista, presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre e diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio Grande do Sul (SINDJORS).


Obs: os dados são de terça-feira, 5 de janeiro de 2021.