PANDEMIA DE SOLIDARIEDADE - 5

CONTRADIÇÕES HUMANAS: SOLIDARIEDADE E EGOÍSMO

Dados divulgados hoje, sexta-feira (3/4), revelam que mais de 53 mil pessoas morreram no mundo e mais de 1 milhão já foram infectados pelo coronavírus. Os números são resultado de uma pesquisa realizada pela Universidade Johns Hopkins (EUA). A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) prevê que as perdas na economia global podem passar de 1 trilhão de dólares. Por outro lado, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou que a pandemia pode acabar com até 24,7 milhões de empregos em todo o mundo. Perplexa, a humanidade assiste o sistema capitalista ruir e o caos, que rapidamente se aproxima, desafia a sobrevivência e o próprio futuro de todos nós.


A pandemia, que já matou milhares e infecta outros milhões de pessoas no mundo inteiro, colocou a economia de joelhos diante de um cenário catastrófico. O isolamento social, medida preconizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que inicialmente gerou polêmicas, é comprovadamente a solução mais eficiente para reduzir o número de mortes e de contaminados. Diante das consequências e da velocidade com que o vírus se propaga pelo mundo, a tese de que é preciso salvar a economia para depois salvar as pessoas caiu por terra e perdeu o sentido.


Além dos mortos e dos infectados, a pandemia atinge pobres e ricos, patrões e empregados e aos poucos vai dizimando o mercado, quebrando grandes e pequenas empresas e aumentando o desemprego no mundo. Isso sem falar no colapso dos sistemas de saúde que atinge países ricos e pobres e na incapacidade do mercado mundial suprir a demanda crescente de equipamentos de saúde. Paralelo à guerra contra o coronavírus, países atingidos pelo Covid-19 travam verdadeiras batalhas no submundo do mercado dos insumos. A corrida mundial e os leilões pelos equipamentos necessários para o tratamento do coronavírus demonstram a crueldade de um sistema nefasto e perverso.

GENEROSIDADE E GANÂNCIA

Em tempos de pandemia, a solidariedade e o egoísmo expõem duas faces opostas do ser humano. Diante de um cenário caótico causado por um inimigo invisível, o mundo se depara com inúmeras contradições, impondo a todos, de forma urgente, reflexões incômodas e dolorosas.



Podemos lembrar de alguns fatos que demonstram como o egoísmo prejudica a coletividade. Quando o Brasil iniciou o isolamento social e adotou medidas preventivas para evitar a propagação do coronavírus, como a suspensão de atividades públicas, esportivas e culturais, milhares de pessoas invadiram os supermercados gerando um princípio de dasabastecimento. Naquele momento, pessoas com maior poder aquisitivo tentavam estocar alimentos, mesmo sabendo que a corrida desenfreada poderia prejudicar os mais pobres.

VERGONHA

A rapidez com que produtos como álcool em gel e máscaras hospitalares sumiram das prateleiras e se tornaram artigos de luxo, vendidos por um preço até cinco vezes mais elevado, mostra a ganância de uma sociedade cada vez mais individualista. Quando foram divulgados alguns resultados sobre pesquisa realizada nos EUA com hidroxicloroquina, remédio que se mostrava eficiente para combater o coronavírus, a procura pelo medicamento foi tão grande que colocou em risco a vida de pacientes que necessitam da droga, usada contra alguns tipos de malária e doenças reumatológicas.

Um dos fatos que vem causando revolta entre o brasileiros tem sido o posicionamento de empresários diante do isolamento social adotado em praticamente todo país. Comandados pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, uma fatia do empresariado passou a defender que o dano à economia brasileira será muito maior do que o causado na saúde pública. Diversas carreatas foram realizadas de norte a sul do país, insuflados pela propaganda governamental cujo slogan é “O Brasil não pode parar”.

O empresário Junior Durski, dono da rede de hamburguerias Madero, foi um dos primeiros a postar um vídeo nas redes sociais, reclamando sobre as limitações de trabalho impostas aos restaurantes. Na visão do empresário, o país não poderia parar por conta da morte de cinco mil ou sete mil pessoas. “As consequências que nós vamos ter economicamente, no futuro, serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com coronavírus” afirmou. Após forte repercussão do vídeo, com consumidores prometendo boicote à rede Madero, Durski teve que se retratar, pedindo desculpas caso tenha sido “mal interpretado”. Na mesma linha, se manifestou, em um vídeo, Alexandre Guerra um dos sócios do restaurante Giraffas."Você que é funcionário, que talvez esteja em casa numa boa, numa tranquilidade, curtindo um pouco esse home office, esse descanso forçado, você já se deu conta de que, ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, você deveria também estar com medo de perder o emprego?", disse. O vídeo gerou forte repercussão negativa e desagradou também a Carlos Guerra, pai dele e CEO do grupo, que tirou Alexandre da função.


A rede de restaurantes Madero demitiu 600 funcionários nesta quarta-feira, 1º de abril, nove dias depois de o proprietário Junior Durski prometer a manutenção de todos os empregos durante a crise econômica mundial causada pela pandemia do novo coronavírus.


EXEMPLO

Se por um lado a ganância torna os dias de isolamento social ainda mais tristes, por outro a generosidade vem, muitas vezes, de quem muito pouco tem a dar. Os camponeses do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul, que este ano enfrentaram uma das piores secas do estado, fizeram questão de doar 12 toneladas de arroz orgânico. O arroz será usado para compor cestas básicas destinadas a famílias gaúchas em situação de vulnerabilidade.


Ao contrário de quem está preocupado tão somente com seus lucros, existem empresários preocupados em erguer a economia e garantir que a fome não seja mais um motivo de sofrimento para os brasileiros, durante a guerra contra o coronavírus. Grupos como a Ambev, Gerdau, Itaú, Burguer King Brasil, Vale, JBS e outras tantas empresas dão esperanças ao país para continuar lutando contra a pandemia.


ELOS DE SOLIDARIEDADE

Em Porto Alegre, a sexta-feira (3/4) foi um dia especial para a Associação Mães & Pais pela Democracia que lançou a campanha ELO de Ação – Fundo Emergencial, destinada a arrecadar recursos para pessoas mais necessitadas. O objetivo é reduzir o impacto da pandemia e apostar na união de redes de apoio já existentes na cidade, ampliando de forma significativa as iniciativas de solidariedade e potencializando o alcance das doações, capazes de atender demandas urgentes e diferenciadas.



As doações poderão ser feitas por esse link: vakinha.com.br/vaquinha/elo-de-acao-fundo-emergencial

Os agentes-parceiros que participam da iniciativa e seus núcleos para recebimento do apoio são:

1. Associação de Mães e Pais pela Democracia Associação de Mães e Pais voltada para a luta por uma educação de indivíduos livres, capazes de pensar, decidir e agir sobre o mundo que os envolve. Quem se beneficia: indígenas Kaingang de Nonoai e Guarani Mbya da Ponta do Arado, residentes do Grupo Hospitalar Conceição. 2. Instituto Fidedigna Centro de pesquisa social aplicada voltado às políticas públicas de segurança, educação e habitação. Trabalha com causas e com advocacy desde 2007. Quem se beneficia: comunidade da Lomba do Pinheiro, do Morro da Cruz e da Mário Quintana. 3. Práticas Urbanas Emergentes Grupo de Extensão Práticas Urbanas Emergentes sediado na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, com uma proposta de educação crítica, participativa, solidária e cidadã. Quem se beneficia: comunidades da zona norte de Porto Alegre, incluindo a Vila Nazaré. 4. Translab Urb Laboratório de Inovação social urbana com foco na Cidade, partindo de um entendimento do Urbanismo enquanto cultura coletiva, cruzando com conhecimentos transdisciplinares e empíricos dos agentes transformadores da vida urbana. Acredita na criação, manutenção e ampliação de redes distribuídas, com ações locais e conexões globais. Quem se beneficia: população de rua através da EPA, ocupações do Centro histórico e entidades das Ilhas através do Museu, Colônia de Pescadores Z5 e CAR-Ilhas

5. Vila Flores Comunidade de práticas colaborativas formada por artistas, empreendedores criativos e sociais e produtores culturais localizada em um complexo arquitetônico de valor histórico em Porto Alegre. Quem se beneficia: Vila Santa Teresinha, Mulher em Construção e Cooperativa 20 de novembro.

Foram criadas opções hipotéticas para o valor das doações: 1.R$25,00 (20l de água mineral + 12 barras de sabão). 2.R$75,00 (60l de água mineral + 25 barras de sabão). 3.R$100,00 (100 unidades Máscaras descartáveis ou 1 cesta básica de alimentos com 29 itens) 4.R$300,00 (1 cesta básica de alimentos, higiene e limpeza com 52 itens) 5.R$500,00 (1 cesta básica de alimentos, higiene e limpeza com 73 itens)

O ELO de ação conjunta também conta com uma rede responsável por criar e fazer a curadoria de conteúdo informativo para distribuir entre os beneficiados. Esta rede está formada por: B2F Arquitetura, Cartografias da Hospitalidade, Latina Arquitetura, R.U.A refletir urbanidades na ação e SauerMartins Arquitetura.


Independente de clichês, a epidemia não separa ricos de pobres, senhores de escravos ou reis de plebeus. Coloca todos no mesmo barco e diante das mesmas angústias e temores. Neste momento, não há espaço para demagogia ou politização da tragédia. Aos poucos, a humanidade percebe que o egoísmo não é bem-vindo a esse novo mundo, mais solidário e coletivo.


EPISÓDIO 1 - PANDEMIA DE SOLIDARIEDADE AJUDA A COMBATER A FOME E AMENIZA A INEFICIÊNCIA DO PODER PÚBLICO

EPISÓDIO 2 - O VÍRUS DA FOME É INVISÍVEL E SILENCIOSO


EPISÓDIO 3 - SOLIDARIEDADE EM FAMÍLIA NA CONFECÇÃO DE MÁSCARAS DE PROTEÇÃO PARA TRABALHADORES DA SAÚDE


EPISÓDIO 4 - MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO EXPÕE AS DESIGUALDADES E QUESTIONA A CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZAS

EPISÓDIO 5 - CONTRADIÇÕES HUMANAS: SOLIDARIEDADE E EGOÍSMO


EPISÓDIO 6 - NADA SERÁ COMO JÁ FOI UM DIA

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