PANDEMIA DE SOLIDARIEDADE – 4

Atualizado: Abr 7

MUNDO QUESTIONA A DESIGUALDADE E A CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZAS


Durante uma reunião das moradoras da Casa de Referência Mulheres Mirabal, uma das integrantes do grupo, a diarista Lilian de Oliveira, de 36 anos, relatou ter perdido todas as faxinas agendadas para o mês, por conta do isolamento social adotado pelo país como forma de frear a expansão do coronavírus. Naquele momento, ainda não havia sido registrada em Porto Alegre, nenhuma morte pelo COVID-19. Mas o relato de Lilian fez com que soasse um alerta para todas aquelas mulheres presentes na reunião do Movimento de Mulheres Olga Benário, localizado na Rua Souza Reis.


Assim as mulheres da Casa Mirabal deram início a mais uma entre as tantas guerras já enfrentadas por elas em suas vidas. Nascia ali a campanha para criação de um fundo solidário. No início, o objetivo era garantir alimentação para as mulheres da própria Casa e depois a ação foi ampliada. A iniciativa teve ótima aceitação na sociedade, em função do trabalho sério e responsável desenvolvido pelo Movimento que abriga na Casa Mirabal mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos, dando a elas assistência para inserção no mercado de trabalho e auxiliando-as na recuperação em virtude das agressões, tanto físicas quanto psicológicas.


Outro fator determinante para mobilizar as mulheres do Movimento foi uma notícia que expõe a crueldade da luta de classes, evidenciando que os trabalhadores são mais vulneráveis também em tempos de coronavírus. A primeira pessoa a morrer por causa do Covid-19 no estado do Rio de Janeiro foi uma trabalhadora doméstica que não foi dispensada pela sua empregadora, que estava com a doença, sendo inclusive notificada como caso confirmado. A conduta dessa senhora que contaminou a empregada não é diferente de outros tantos casos de “patrões” cujos testes para coronavírus deram positivo e, mesmo assim, não liberaram seus funcionários. A situação escancara o quanto os trabalhadores estão vulneráveis à pandemia e demonstra como a desigualdade social pode influenciar na vida e na morte das pessoas.

Nataniele Amada, de 27 anos, é estudante de Políticas Públicas e coordenadora da Casa, desde a ocupação do prédio na Duque de Caxias, no Centro de Porto Alegre. Ela participa do Movimento há 4 anos e explica como funciona o fundo. “Criamos um fundo solidário das diaristas e divulgamos a campanha online, por meio de uma vaquinha. A partir dessa iniciativa, surgiram outras mulheres pedindo apoio. Hoje temos mais de 200 famílias cadastradas e já fizemos entrega de mais de 50 cestas básicas”, explicou Nati, como é carinhosamente chamada no movimento. Ela ressaltou que muitas dessas mulheres que estão cadastradas já sobreviviam com enormes dificuldades antes mesmo da pandemia. “Estamos atuando junto com Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que é um movimento de luta pela moradia, e também está arrecadando recursos e alimentos para estas famílias”, informou.

Nataniele explica que a ideia é ajudar essas pessoas que estão em situação de vulnerabilidade durante três ou quatro meses e que o Movimento faz um acompanhamento da situação. “Acompanhamos a situação dessas pessoas por grupos de WhatsApp e promovemos debates e trocamos informações sobre conjuntura política”, argumenta. A coordenadora da Casa Mirabal explica que existem duas formas de colaborar com essas famílias. “Nós temos uma conta da Mirabal e temos a campanha do "Apoia-se", no qual vamos receber os recursos só após atingirmos as metas. Como pertencemos a um movimento nacional, fizemos essa campanha em todo o Brasil. Em São Paulo temos a Casa Elenira Preta, em Minas Gerais a Tina Martins e trabalhamos de forma conjunta. Mas há pessoas que estão colocando o dinheiro diretamente na nossa conta e isso está nos permitindo comprar os alimentos antecipadamente.

O dinheiro será usado para ajudar as pessoas acolhidas pela casa (não é divulgado o número de moradores por medida de segurança), na compra de alimentos e medicamentos”, diz. Nati explica ainda que a campanha, em nível nacional, tem três metas. “Já batemos a primeira meta que era arrecadar R$ 5mil. Mas temos ainda a segunda, que é de R$10mil; e a terceira, de R$20mil”, salienta, lembrando que há ainda a possibilidade das pessoas doarem mensalmente.


Diante da pandemia do coronavírus, a estudante de Políticas Públicas e coordenadora da Casa Mirabal se deparou com inúmeras contradições sociais e que o coronavírus pode contagiar qualquer pessoa, mas certamente as pessoas mais pobres estão mais expostas. “A pandemia nos coloca diante de uma outra possibilidade de mundo e o sistema capitalista acaba evidenciando as desigualdades. Por incrível que pareça, pessoas que têm pouco conseguem ser mais solidárias neste momento. O mundo está em transformação. Estamos todos no mesmo barco e temos que lutar contra a desigualdade, o desemprego e contra a concentração da riqueza", analisa Nataniele.


Uma das preocupações das Mulheres Mirabal tem sido a demora do governo Federal na liberação do auxílio emergencial, iniciativa aprovada na segunda-feira (30/3) pelo Senado Federal e que garante R$ 600 para trabalhadores informais de baixa renda. O governo federal publicou a lei nesta quinta-feira (2/4), em edição extra do Diário Oficial da União. O auxílio será concedido por três meses.


EPISÓDIO 1 - PANDEMIA DE SOLIDARIEDADE AJUDA A COMBATER A FOME E AMENIZA A INEFICIÊNCIA DO PODER PÚBLICO

EPISÓDIO 2 - O VÍRUS DA FOME É INVISÍVEL E SILENCIOSO

EPISÓDIO 3 - SOLIDARIEDADE EM FAMÍLIA NA CONFECÇÃO DE MÁSCARAS DE PROTEÇÃO PARA TRABALHADORES DA SAÚDE

EPISÓDIO 4 - MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO EXPÕE AS DESIGUALDADES E QUESTIONA A CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZAS

EPISÓDIO 5 - CONTRADIÇÕES HUMANAS: SOLIDARIEDADE E EGOÍSMO

EPISÓDIO 6 - NADA SERÁ COMO JÁ FOI UM DIA

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