OS ESCÂNDALOS AMIGOS DO MERCADO E O FASCISMO EM ASCENSÃO

No seu clássico “O Escândalo Político – Poder e Visibilidade na Era da Mídia” (Ed.Vozes 2002), John B.Thompson aponta  as três condições que favoreceram “o desenvolvimento do escândalo midiático”, que passaram a ter grande -às vezes decisiva- importância nas contendas políticas a partir do século passado. São mudanças que interferem hoje, nesta nova crise democrática em todos os cantos do mundo, de forma avassaladora, em que estamos chegando num ponto quase dramático: a política é a própria crise; e a crise é o tornar público pela comunicação organizada pelos grupos privados de interesse.

Lava Jato: “aparências” passam a ser tratadas como “fatos reais”, segundo as necessidades da luta política em curso. (Foto José Cruz/EBC)


Tarso Genro (*)

Interessa-nos aqui, não os aspectos específicos do jornalismo e da comunicação, sobre os quais não temos autoridade para avaliar, mas o entorno social -moral e político da vida democrática- que foi se modificando ao longo do século passado, depois das duas Grandes Guerras, e que hoje se encontra numa fase crítica. Este “entorno”  foi transformado, como esfera política, num grande Júri sem regras e sem papéis definidos de antemão, onde a capacidade de defender-se nos escândalos, reais ou imaginários, transformou-se no passaporte da sobrevivência moral, no qual o público e o privado se convertem um no outro, de maneira frenética.


Thompson aponta “o crescimento e a circulação da imprensa de circulação de massa”, o “surgimento do jornalismo investigativo” e a “difusão das novas tecnologias de informação e comunicação”, como condições que proporcionaram que o escândalo político passasse a influenciar os processos eleitorais. A designação de candidatos e dirigentes, pelos partidos políticos, bem como a seleção feita pelos cidadãos para escolher ou substituir suas referências públicas na vida democrática estão premidas de forma decisiva pelos escândalos.


É pura verdade que estas três condições criaram um antídoto ao totalitarismo e ajudaram a fulminar ditaduras, o que foi o grande papel da imprensa na democracia contemporânea, inclusive para a moldagem posterior do Estado Social. Ao constatar, todavia, como estão hoje as democracias no mundo, é necessário verificar também as consequências da  velocidade usada para difusão de verdades, quando esta faz circular falsidades e mentiras interessadas.


À medida que a informação -falsa ou verdadeira- vai se tornando mais veloz e descartável, os valores que guiavam as pessoas na sociedade (que antes se transformavam lentamente) tornam-se voláteis e colocam em disponibilidade a consciência da maioria para aderir à irracionalidade e ao engodo, como ocorre hoje com fraude negacionista e criminosa de Bolsonaro.


Assim, a sociedade pode ser manipulada em ritmos alarmantes e inéditos, pois o que valia ontem  na vida comum – solidariedade, ciência, fraternidade, educação – com inspiração nos valores na sociedade de Estado Social é substituído rapidamente pela irracionalidade do “um contra o outro ou de todos contra um” . Como disse Hobsbawn (“Tempo de Rupturas”, Ed.Planeta 2013) são períodos em que a própria arte muda, as formas de apreender a realidade se alteram, com profundas transgressões das suas medidas  “do bem e do mal” como portadoras dos “valores da verdade, beleza e catarse”.


Refiro-me diretamente à questão da arte porque esta é a expressão mais profunda do autoconhecimento do gênero humano, cuja permanência histórica -mais do que das leis ou dos costumes- indica os elementos estruturais de uma civilização: um juízo sobre o valor estético da “Maja Desnuda” de Goya, sobre o “Enterro do Conde Orgaz”  de El Greco, ou do “Guernica” de Picasso, diz quase tudo sobre quem olha a sua época e sobre quem produziu essa arte para e os seus contemporâneos.


Para que não naveguemos demasiado no passado, verifiquemos hoje o que acontece com Moro, Dallagnol e Aras. A pedagogia política e o conteúdo moral dos seu procedimentos públicos mudam, rapidamente, em cada episódio político, segundo o ritmo e a velocidade da informação sobre os seus procedimentos: suas “aparências” passam a ser tratadas como “fatos reais”, segundo as necessidades da luta política em curso.


As disputas eleitorais futuras e a “necessidade” das reformas orientam o fornecimento da “verdade da hora” -não a verdade como”processo”- pois os papéis concretos vinculados ao papel institucional de cada um -nos seus devidos tempos- é deixado em terceiro ou quarto plano: o contingente se torna o principal, o principal se torna o supérfluo para orientar a opinião pública, segundo os interesses dos emissores das mensagens escandalosas. Parece-me que estes estes elementos não contingentes da luta política é que deveriam guiar o combate oposicionista, não avaliação da “possível” nobreza de comportamento de Aras na crítica do lavajatismo.


Mas o jogo das contingências e aparências é outro. Moro ter feito escutas ilegais da Presidenta Dilma, o que em qualquer país de decência democrática mínima lhe teria levado ao cárcere ou a perda do cargo (depois de um processo legal) simplesmente desapareceu da sua trajetória. O que tem importância momentânea é o seu suposto heroísmo no combate à corrupção que, do ponto de vista formal é um dever elementar de qualquer Magistrado.


Dallagnol, que agora aparece não só como um raquítico “jurista”, mas também como um adolescente abandonado pela Madrasta Rede Globo (que deveria ser lembrado pelo famoso e insano “Power Point”) ficou na estrada da vida sem atenção e sem mimos, depois de tentar açambarcar recursos da lava-jato para – segundo um Ministro do STF – fazer um partido da República de Curitiba.


Quanto a Aras, o “escândalo” permanente que ora flui, não informa que ele está correto, quanto ao conteúdo técnico das suas posições, embora a questão política e moral que esteja no entorno das suas iniciativas, possa ser ilusória. Ele pode estar se aproximando dos da Constituição Garantista para tentar neutralizar aquela parte “profissional” da Procuradoria Federal, que quer ajustar contas com o comportamento genocida do Chefe de Estado na Pandemia. E mais: chegar perto para saber da proximidade dos seus familiares com as milícias das rachadinhas e com a produção industrial de “fake news”.


Ninguém joga limpo neste jogo, e não jogam pela República. Todos montaram o Golpe contra Dilma e todos são adoradores de quem o conduz -com a corda de Hayek- o bezerro de ouro do capital financeiro. E seu jogo central não gira em torno da moral, da ética e do combate à corrupção, mas de como ajustar o protofascismo bolsonárico ao movimento das reformas ultraliberais. Com ou sem escândalos, com ou sem democracia, com ou sem Bolsonaro, que é a sua ponte para o incerto, o seu Messias do caos e da desordem.


Hayek disse que o “mercado é o instrumento de alimentação em uma espécie de computador central (…) para destinar recursos de uma forma melhor do que em qualquer outro lugar.” Hayek foi um técnico do mercado, não o seu Profeta. Foi um ignorante em relação aos processos políticos e sociais que moldaram a gestão absoluta dos mercados pelas agências globais do capital financeiro, ora estruturados como poder mundial.


Estas agências transformaram o mercado num jogo de cartas marcadas, não na inteligência da humanidade para construir uma sociedade de mais solidariedade e mais democracia. Não é de graça que ele disse com honestidade que preferia uma ditadura militar com liberdade de mercado do que uma democracia social com o mercado socialmente  controlado. Hayek avança, mas vamos resistir.


(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.