O PODER DA LINGUAGEM


por Nora Prado (*)

Tenho assistido entre incrédula e atônita aos últimos feminicídios divulgados pela mídia no final de 2020 e no início de 2021. Os crimes chocam pela violência e perversidade de seus cruéis assassinos que, não satisfeitos em eliminar suas ex-companheiras, a executaram na frente dos próprios filhos gerando um trauma, ainda pior, e arruinando a vida de seus descendentes para sempre.


O que choca em vários desses feminicídios é que seus algozes, em diversos casos, são homens formados em nível superior e com carreira profissional estável. Em princípio os julgaríamos com algum discernimento, razoável poder de reflexão e capazes de dialogar com as suas ex-mulheres ao término de suas relações conjugais. Mas ao contrário a realidade mostra que o feminicídio é o pico da curva ascendente de um ciclo anterior de perseguições e violências motivados pela frustração e não aceitação da realidade. No caso da juíza assassinada, com mais de dezesseis facadas na frente das filhas, o grau de violência chegou no ponto em que a vítima precisou de escolta policial, uma vez que as medidas protetivas de afastamento não foram suficientes para barrar o agressor. E ela só afrouxou esse dispositivo de segurança a pedido das filhas que imaginavam que o seu pai não seria capaz de nada mais perigoso. Ledo engano, pois o ex-marido premeditou o assassinato e concluiu o horrendo crime para nossa tristeza.

O que eu observo nestes últimos anos, principalmente com a ascensão do bolsonarismo e a naturalização da violência, é a mensagem subliminar que aparece com o incentivo ao uso das armas de fogo e a apologia de armar a população. E ela diz claramente: “Faça a justiça com as próprias mãos.”


Ora, no instante em que o Estado se exime da responsabilidade de usar o aparato da lei e da justiça e a transfere para o cidadão a responsabilidade de interceder nos conflitos pessoais, não mais garantindo a segurança e integridade física das pessoas, além dos processos legais de justiça, o que se estabelece é a anarquia no pior sentido da palavra. Uma quebra na hierarquia social e política numa ruptura civilizatória desastrosa. Um presidente que enaltece essa visão distorcida da realidade age como um criminoso e lembra que foi expulso do exército por incitar atos terroristas, além de ter declarado sua admiração pelo maior torturador dos tempos horrendos da ditadura militar brasileira, o comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra.


Num país com desigualdades econômicas e socioculturais abismais, como o Brasil, não é de admirar que esse discurso deplorável ganhe força nas populações mais pobres, nas comunidades onde as igrejas evangélicas, retrógadas, imperam e aplaudem esse comportamento selvagem.


Mas esse fenômeno também denuncia outro aspecto que vem caindo em franca decadência na última década, talvez, que é a articulação da linguagem. Me refiro particularmente à linguagem falada, ao processo de diálogo no qual podemos divergir da opinião alheia, mas ainda assim, sermos capazes de escutar e argumentar a favor ou contra o nosso interlocutor. O processo da linguagem é uma aventura deslumbrante e conta muito sobre o quanto as sociedades primitivas evoluíram no uso da força física para dirimir desavenças e conflitos até alcançarem o requinte do diálogo, na construção da civilização. A capacidade da escuta e da interpretação do discurso é uma ferramenta preciosa para o entendimento entre as pessoas e para o avanço econômico, político, social e cultural da raça humana sobre a terra. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, por exemplo, é obra de destaque conquistada pelo empenho humano em favor de uma utópica harmonia global, numa possibilidade de igualdade e justiça social como um bem para todos, independente de gênero, credo ou cor e reflete o longo caminho percorrido pelo homem das cavernas até hoje.


A democracia, como um dos mais saudáveis alicerces políticos para a saúde das nações, é obra da evolução da linguagem e da capacidade humana em aprofundar suas relações pessoais, sua empatia e compreensão dos fenômenos sociais. A literatura com seus expoentes máximos, presentes em todas as culturas, reflete os valores que constituem os bens imateriais sobre os quais se assenta a cultura de cada povo. É através da linguagem que nos diferenciamos dos outros animais e, por meio dela, atingimos feitos notáveis em todos os campos do conhecimento humano. A linguagem, portanto, é o amálgama que nos une enquanto espécie e possibilita toda a sorte de interatividade.


Me estendo, um pouco, somente para ressaltar que há um empobrecimento retumbante na linguagem em nossos dias. Isso é um problema mundial, mas, no Brasil, isso é especialmente preocupante pois implica num fenômeno social de largas dimensões, com consequências trágicas como assistimos diariamente. Desde as expressões grosseiras do presidente ofendendo diariamente os professores, aposentados, jornalistas e estudantes, as asneiras do Ministro das Relações Exteriores, os absurdos da Ministra da Família, as abordagens truculentas dos policiais para com a população preta e pobre, os altos índices de analfabetismo funcional e o alarmante crescimento do feminicídio.


As pessoas estão desaprendendo a falar, a dialogar, a ouvir umas às outras e, sobretudo, entender o que escutam. Logo não são capazes de argumentar em favor de seus pontos de vista e sua visão da realidade. Não é uma mera coincidência que a compreensão e interpretação de texto é uma capacidade que vem decaindo, assustadoramente, nas avaliações escolares. Estamos retrocedendo socialmente e abreviando a comunicação interpessoal pelas redes sociais de modo pobre e repetitivo.


Não é de admirar, então, que também diminuímos a nossa capacidade de administrar conflitos através do diálogo. Primeiro porque para dialogar com alguém você precisa considerar que o outro pode não concordar com você, segundo, porque você tem que considerar que precisa expor os seus argumentos e que o outro também tem o mesmo direito, terceiro é que precisarão entrar em algum acordo ou ponto final da discussão e, finalmente, tenho que me conformar com a vitória alheia, caso os argumentos do meu oponente sejam melhores e mais bem colocados que os meus. Aceitar a derrota ou a vitória é sinônimo de maturidade e saúde emocional. Pressupõe um comportamento civilizado baseado na razão e na discussão com um mínimo de respeito e educação para com o seu semelhante.


As crianças amadurecem e se tornam mais capazes e auto confiantes através da aquisição da linguagem. Ao invés de chorar de fome podem simplesmente expressar o seu desejo de comer para a mãe ou o pai, que assim, lhe atendem prontamente. Ao invés de arrancar os cabelos do coleguinha que pegou seu brinquedo preferido, pode negociar com ele, pedindo o brinquedo de volta. Nomear o que vemos e o que sentimos é uma das experiências mais ricas com as quais podemos crescer. Entender que sinto vergonha, medo, saudades, amor, raiva, ansiedade ou desejo é fundamental para eu lidar com esses sentimentos, pois me permite escolher de qual modo eu me coloco diante do mundo. E isso é fundamental para minha relação com as outras pessoas.


A psicanálise com todo o legado colossal de Freud e Jung, corroborado por todos os que vieram depois deles, identificaram o valor da palavra falada como a ponte do consciente com o inconsciente, possibilitando que o paciente reconheça dores, recalques, e traumas ao longo da própria história numa terapia baseada na palavra. A palavra pode nomear praticamente tudo o que existe em nosso campo físico e concreto, assim como no mundo subjetivo dos sentimentos. A linguagem, portanto, é de suma importância para o nosso equilíbrio psicofísico constantemente desafiado desde o nascimento até a morte.


O luto da separação conjugal é um dos sentimentos mais difíceis de suportar, sobretudo, quando somos a parte dispensada na relação. Tristeza, dor, saudades, medo, ciúmes, raiva, ódio são sentimentos pertinentes na frágil circunstância em que se encontram homem e mulher, ainda mais se possuem filhos. É muito comum que as pessoas busquem apoio emocional na terapia depois de uma separação. Uma prática de comprovada eficácia e que ajuda muitos a superarem o trauma sobrevivendo e se reerguendo como ser humano, normalmente muito melhore, mais fortes e íntegros do que antes.


Concluindo, além da perda da linguagem e da capacidade do diálogo, o brasileiro médio está doente emocionalmente, pois é incapaz de reconhecer a própria fragilidade e desamparo, respondendo à dor, frustração e ódio em decorrência de uma separação, através da força bruta, da facada ou tiro a queima roupa para terminar com o seu próprio sofrimento. O que o assassino desconhece é que, resolver a questão na bala o na facada só aumentará o seu tormento e o da família inteira.


Espero que o amparo da saúde emocional social ou a sua falta, inerente no combate e prevenção ao feminicídio crescente brasileiro, seja uma pauta a ser levada seriamente em consideração pelos especialistas na área na saúde pública e os partidos de esquerda unidos, pois esta barbaridade se tornou um problema crônico.


Nunca a palavra foi tão desvalorizada quanto agora, sua valorização e retomada será sinal de saúde e representa a possibilidade de um Brasil melhor e menos violento.


Porto Alegre, 4 de janeiro de 2021.


* Nora Prado é atriz, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.