O JUIZ, O GENERAL E O MILICIANO: QUEM ELEGEU DANIEL?



por Jorge Branco (*)

Em 1968, durante o Congresso da União Democrática Cristã, frente às câmaras de TV de uma nação dividida quanto à expiação de seu passado, o então primeiro-ministro da República Federal da Alemanha, Kurt Georg Kiesinger, recebeu da ativista antinazista Beate Klarsfeld [1] um forte tapa no rosto.


A jovem, da geração de maio de 68, queria expressar a luta pelo rompimento com o passado nazifascista que ainda, 90 anos após a chegada de Adolf Hitler ao governo alemão, sobrevive intacto no mundo. O estampido de sua palma aberta contra o rosto do antigo nazista, repaginado como democrata, ecoou alto pelo mundo.


Ela tinha razão. O silêncio sobre o passado nazista era a evidência de sua sobrevivência como lembrança e nostalgia das promessas sobre um mundo novo daquela elite suprema. Somente em dezembro de 1970, mais de 25 anos após a demolição do regime nazista, um primeiro-ministro alemão pediu desculpas públicas sobre o genocídio e sobre o holocausto. Foi Willy Brant, ao visitar a capital da Polônia e se ajoelhar diante do monumento à memória do levante do Gueto de Varsóvia, ocorrido em 1943.


Essa nostalgia preservada é a base para a reconstrução do mito fascista no mundo. A profunda crise da sociedade capitalista, que gera miséria e desalento, emoldura as condições para a emergência desse neofascismo, agora totalmente convertido à defesa do neoliberalismo.


A existência desta memória positiva sobre o fascismo, sobre o escravismo, sobre o autoritarismo, está na base da extensão do apoio que têm tido as operações antidemocráticas em curso no Brasil desde 2015. Essa onda de remissão e indulgência sobre valores anti-humanistas, como tortura e violência, resultaram na eleição de inúmeros deputados desconhecidos, tanto federais quanto estaduais sem nada a oferecer de interesse público, afora um presidente alheio aos limites e imposições da Constituição Federal e à ideia de República.


Foi exatamente esta reflexão que me surgiu ao assistir o vídeo onde o deputado federal Daniel Silveira defere ameaças aos ministros do Supremo Tribunal Federal, à Constituição Federal, à democracia e à esquerda, para responder a uma pergunta que começa a tomar volume e que o jornal O Dia, do Rio de Janeiro, estampa em sua capa: afinal quem elegeu Daniel?


Podemos identificar um conjunto expressivo de responsáveis pela eleição dessa tipologia de ativista.


O primeiro desses responsáveis foi a Operação Lava Jato que, a partir do conluio criminoso entre o juiz, o promotor, a espionagem estadunidense, as petroleiras estrangeiras e o apoio da Rede Globo, constituiu um processo fraudulento, de conspirações, combinações e ilegalidades formadoras de uma opinião pública assentada na ideia do ódio à esquerda, à política e aos governos democráticos.


O segundo responsável foi o reaparecimento político dos generais de extrema direita que, assim como os nazistas fazem até hoje nas florestas dos Alpes austríacos, parecem ter reaparecido para “honrar o legado de Sílvio Frota”. As movimentações reveladas no livro de memórias do general Villas Bôas, tornam explícita a politização das Forças Armadas e o endosso do Alto Comando, na ativa, à candidatura neofascista de Bolsonaro. A senha para esse movimento de tropas, que deixaram o catre do passado para assombrar o presente, parece ter sido o “em memória do coronel Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff”, verbalizado pelo então obscuro, tal como Daniel Silveira, deputado Jair Bolsonaro.


O terceiro responsável é o surgimento do culto ao “policialismo’ a partir da atuação de grupos paramilitares milicianos, do sentimento de ódio aos pobres, negros e moradores de favelas urbanas, ao armamento de grupos neofascistas e neonazistas a auxiliados pela liberação das armas, simbolizado na prática de cultuar o assassinato da vereadora Marielle Franco e na imagem

A infeliz convergência desses fatores resultou não somente na eleição do Daniel Silveira mas de um grande número de deputados, com o mesmo perfil antidemocrático e contrário aos direitos humanos, subordinados aos ricos, como pudemos notar na votação de 130 deputados, entre fascistas e outros que aceitam flertar com eles, contra a manutenção da prisão preventiva do neofascista.


Quiçá a reação do STF ao episódio das ameaças golpistas e a manutenção da prisão preventiva do fascista venha a tomar a dimensão do tapa no rosto desferido pela destemida Beate Klarsfeld frente ao nazista. E que venham a ter o efeito do arrependimento que impingiu Paulo Brossard e Teotônio Villela a se oporem à ditadura erguida pelo golpe de 1964 que apoiaram.


(*) Jorge Branco é Sociólogo, Mestre em Ciência Política. Diretor Executivo do Democracia e Direitos Fundamentais

direitosfundamentais.org.br

[1] Tania Crasnianski, Filhos de nazistas: os impressionantes retratos de família da elite do nazismo. São Paulo: Vestígio, 2018.