NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA

por Nora Prado (*)

Meu filho Aramis, de 15 anos, costuma assistir ao noticiário da Record e do SBT desde que passou algumas tardes na casa da minha tia, no início do ano passado, repetindo em casa o hábito do qual gostou. Seu senso de justiça se compraz em ver ladrões e assassinos perseguidos e, eventualmente, condenados e presos nestes noticiários sensacionalistas de ideologia duvidosa, ainda mais sendo conceções públicas. Mas vivemos no Brasil e estas anomalias estruturais fazem parte da miséria humana e política reinante. Meu filho tem lisencefalia, uma síndrome que deixou sequelas no seu desenvolvimento motor e cognitivo. Ele adora ouvir histórias e assistir desenhos animados na televisão. Atualmente se interessa, principalmente, por mitologias de heróis gregos, celtas e os modernos super-heróis da Marvel. Eu e meu marido resolvemos, então, não o proibir de assistir esses programas de notícias, mas temos o cuidado de fazer o contraponto crítico para que o Aramis não fique bitolado nesta galeria de horrores no que se transformaram esses programas apelativos. Se por um lado é louvável que o Aramis demonstre sua curiosidade e interesse pelo mundo real, também é certo que uma visão parcial e binária é prejudicial para o seu julgamento mais amplo da realidade. E assim, vou conhecendo melhor o circo oferecido ao povo pelas redes de televisão que apoiam o tenente miliciano desde que ajudaram a elegê-lo. Neste cenário medíocre, para dizer o mínimo, meu filho se interessou por uma novela que estreou ontem e cuja propaganda, cheia de apelos visuais, capturou a sua atenção: Gênesis.


Em mais uma produção milionário a emissora do Bispo Edir Macedo se vale, mais uma vez, da adaptação de histórias da Bíblia para fazer sua apologia à ideologia retrógada e moralista em consonância com a moral fascista pregada pelo presidente, que tem em Damares Alves, sua figura mais patética e reacionária do seu vasto ministério de hipócritas e oportunistas tendenciosos. Evidente que, de agora em diante, serei obrigada a assistir ao folhetim diário para proteger o meu filho dessa verdadeira lavagem cerebral.


Assistindo ao primeiro capítulo no qual eles mostram os primeiros dias da criação do mundo até chegar no fim do sétimo dia quando Deus pode, finalmente descansar, depois de criar Adão e da sua costela criou Eva.


Além de cenários de beleza exuberante retratando o paraíso utópico onde convivem as espécies mais diferentes em harmonia com Adão e Eva, Deus recomenda aos seus filhos que aproveitem as delícias do jardim, mas que jamais provem do fruto da árvore do conhecimento, uma frondosa árvore de caule, galhos, ramos e folhas brancas cujos frutos azuis pendem abundantes e convidativos. O jovem casal humano, feito à imagem e semelhança divina, passeia pelos bosques, refresca-se nas cachoeiras, come caquis e dorme neste mundo deslumbrante e acolhedor. Girafas, pássaros, zebras, leões e coelhos convivem lado a lado numa mítica natureza onde os instintos parecem estar contidos e obedientes a uma narrativa castradora e fantasiosa.


Em meio a essa equilibrada vida, aparece um ser humano cujas feições contrastam com a dos jovens heróis. Feio, careca, com cicatrizes e uma expressão malvada essa espécie de diabo, talvez Lúcifer, o anjo caído. O vilão espreita o casal denunciando uma ameaça próxima de pôr em risco essa felicidade. Não fica claro se esse demônio se transforma numa lagarta amarela gigante que conversa com Eva quando ela se aproxima da árvore do conhecimento. A lagarta que tinha recusado um fruto que Eva lhe oferecera, lhe diz que gostaria de provar o fruto azul, proibido por Deus. Mesmo assim Eva vai até a árvore e apanha um dos frutos que prova sem que nada de mal lhe aconteça. Um tempo depois, Adão que procurava por Eva, a encontra com o fruto proibido nas mãos. Ele a recrimina, mas Eva lhe diz que foi a lagarta quem a incentivou. Eva encoraja Adão a experimentar o fruto também. Adão come. E logo a lagarta se transforma em serpente que se esconde pela árvore. Adão e Eva fogem, mas Deus lhes pergunta o que fizeram e Adão admite que comeram do fruto proibido. Deus, furioso, os expulsa do Paraíso, e, imediatamente eles se dão conta da própria nudez. Envergonhados, cada um produz uma vestimenta de folhas e raízes para cobrir as suas “vergonhas”.


E assim, Adão e Eva são impedidos por dois anjos sentinelas de retornarem ao Jardim do Édem, tendo que lidar com a fome e o cansaço depois de percorrerem enormes distâncias. Adão recrimina Eva o tempo inteiro pela desobediência às ordens de Deus, imputando-lhe a culpa pelo castigo recebido. E aí tudo o que já era frágil, do ponto de vista do roteiro e do texto, desaba numa sucessão de clichês machistas e misóginos, mostrando uma Eva humilhada, chorona e chata, sempre insegura e dependente, ao extremo, do seu macho alfa.


Numa condição de extrema fome, Adão come umas raízes venenosas de uma cachoeira e passa mal. Com febre, doente e incapaz de se levantar, Eva precisa lidar com a situação. Ela então lhe administra chás e reza a Deus para que o seu amado resista e melhore. Tempos depois ele se cura e ambos passam a lidar com sua nova condição de exilados numa terra árdua e inóspita. Eles passam a cultivar a terra, fazem uma cabana de galhos cobertas de folhas e dominam o fogo. Tempos depois Eva fica grávida de Adão. A novela interrompeu a narrativa nesse ponto, confirmando a vocação da emissora para seguir na contramão da história.


Eu e Gabriel, meu marido, ficamos horrorizados com o tratamento submisso da mulher e dos preconceitos explícitos, mas o que esperar de uma obra que ambiciona cultuar o mito criacionista para explicar a origem da humanidade? Claro que contemporizamos com o Aramis, lembrando-o que a humanidade se originou de um tronco evolutivo do ramo dos macacos e que graças a teoria evolutiva, de Darwin, a ciência pode comprovar a sua teoria da seleção natural e o aperfeiçoamento das espécies.


A Bíblia é uma história escrita e reescrita em diferentes momentos históricos por muitos homens que pretendiam unificar os povos ao redor de uma crença religiosa cristã. Em seu nome perseguiram e mataram indiscriminadamente, sempre manipulando a verdade conforme os seus interesses e a interpretação de suas passagens. Nela há muitas fábulas e mitologias para explicar o comportamento humano, mas não devemos interpretá-la literalmente. Antes usufruir das suas metáforas como possibilidades de autoconhecimento, mas jamais acreditar piamente em suas supostas verdades e dogmas autoritários. Sob pena de ficarmos cegos e fanáticos, como pretendem os seguidores do bispo Macedo e do Jair Messias.


Ambos falsos profetas que se beneficiam da exploração da fé e da ignorância que pretendem perpetrar, agora, através de uma releitura bíblica tosca e pobre de filosofia. Aliás, eles fogem de medo desta palavra como o Diabo da Cruz! Nada pode ser mais perturbador para um bando de fascistas inescrupulosos do que uma das máximas do filósofo grego Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo, por ti mesmo.”


Porto Alegre, 20 de janeiro de 2021.


* Nora Prado é atriz, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.