MULHERES À FRENTE DA TROPA NESTE ABRIL DE 2021

por Silvana Conti (*)


A escrita e a voz convertem-se em um ato político.


Trago nesta escrita, vozes de diversas mulheres que estão vivendo nos territórios de Porto Alegre, e gritam por: Vida, Dignidade, Pão, Vacina, Saúde e Educação!


As falas destas mulheres da cidade traduzem a dura realidade de uma Porto Alegre onde o poder público não prioriza a vida e sim a cogestão, para troca de bandeira e a flexibilização do isolamento social. Portanto, infelizmente, neste momento de grande crise sanitária, temos um prefeito que se parece muito com o presidente negacionista Bolsonaro. Priorizar a economia e não a vida é um erro grave que ficará marcado na história da nossa capital.


O futuro vai mostrar de que lado da história quem não coloca a vida em primeiro lugar estará e de que lado estaremos nós, que estivemos, estamos e estaremos sempre a favor da vida, da justiça social, dos direitos humanos e dos direitos da classe trabalhadora.


Trago algumas falas de mulheres que, sem dúvidas, representam outras tantas mulheres que estão na lida diária pela sobrevivência de suas famílias.


A música Mulheres à frente da tropa, do compositor Edgard Sgardurra, cantada pelo grupo Ira, nos impulsiona, nos emociona, nos mobiliza, nos potencializa, nos aponta um caminho de construção coletiva, com respeito às que vieram antes de nós e muita confiança e amor na juventude.


Muitas Marias, Joanas, Carlas, Vanessas, Carmens e tantas outras afirmam que:

“Estamos desempregadas.” “Não temos nem máscara e nem álcool em gel.” “Só tem água na madrugada.” “Não queremos gatos na luz.” “Onde estão os direitos humanos? Nós somos humanas". “Os ônibus estão lotados, como evitar a aglomeração?” “No inverno é muito mais triste". “Quem mora no fundão não tem acesso a nada". “Nossas crianças não têm creche. As vagas são poucas, e aí como se faz para trabalhar"? “Aqui não entra nada, nem taxi, nem ônibus, nem nada". “Somos discriminados(as) porque moramos na vila". “Somos gente de bem". ”Meu filho morreu na porta do hospital”.


O drama social que a crise do coronavírus torna visível acende um alerta: As desigualdades sociais cresceram ainda mais, a Oxfam mostra que os muito ricos levaram apenas nove meses para recuperar a sua riqueza de antes da pandemia, enquanto os mais pobres devem levar 14 anos para ter o mesmo poder aquisitivo de março de 2020.


O levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que 114 milhões de pessoas perderam o emprego no ano de 2020. E, pior ainda, 81 milhões dessas trabalhadoras e trabalhadores deixaram o mercado de trabalho por não conseguirem trabalhar devido ao isolamento social causado pela pandemia ou porque desistiram de procurar trabalho por falta de perspectivas. Isso significa que US$ 3,7 trilhões, 4,4 % do Produto Interno Bruto mundial, viraram fumaça.


De acordo com informações da Associação Brasileira do Trabalho Temporário, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, mais de 2 milhões das contratações de 2020 foram contratos temporários, quase 35% a mais do que em 2019 e sem nenhum direito trabalhista. Estes dados refletem as consequências da reforma trabalhista e do alto índice de desemprego que está em quase 15% da população economicamente ativa.


De acordo com a OIT, as mulheres e a juventude são os(as) mais atingidos(as) pelo desemprego. Com 5% das mulheres ficando sem trabalho, índice superior aos 3,9% dos homens. Já 8,7% dos jovens de 15 a 24 anos perderam o emprego na pandemia. Mais que o dobro da população adulta, que ficou em 3,7%. Isso fez “aumentar avassaladoramente o número de trabalhadores(as) informais no mercado de trabalho, principalmente o de entregadores(as) de aplicativos.


É urgente repensar a concepção herdada do século passado sobre o trabalho. Precisamos entender que, a definição de todo o trabalho que não é valorizado como tal, a exemplo do que acontece com as tarefas domésticas, indica os termos de uma atualização das formas de exploração. Isso significa que a forma da desvalorização e invisibilização do trabalho, assim como a forma da opressão contra as mulheres, transborda para o restante da sociedade.


Vivemos em uma quadra política de avanço do conservadorismo e de perda de direitos sociais e trabalhistas historicamente conquistados, os dias de chumbo da ditadura militar de 1964 nos lembram o período que estamos vivendo nos dias atuais.


Estamos atravessando uma crise política, institucional, midiática, jurídica e civilizatória que acentua o acirramento da luta de classes, concentrando mais ainda a riqueza em prejuízo da classe trabalhadora.


A crise do capitalismo nos últimos 10 anos mostra que a saída dos governos neoliberais, do capital financeiro e especulativo, tem sido o arrocho e o aperto para cima dos(as) trabalhadores(as). A consequência é nítida: aumento da fome, pobreza, de guerras e conflitos em diversas partes do mundo.


Nossos punhos estão cerrados, nossa cabeça está erguida, nossa espinha está ereta, há muito tempo digo com firmeza que a tentativa de tirar liberdade e direitos, de tirar a possibilidade de futuro, não cabe em Porto Alegre e não cabe no Brasil.


Não vamos retroceder!


Não voltaremos para a cozinha, não voltaremos para o armário, o Brasil não vai voltar a ser colônia!


Tenho convicção que temos muito que avançar para superarmos os rótulos, as caixas, as regras, as normas, as convenções que sem dúvida só servem para inviabilizar as felicidades, os sonhos, as vidas de quem ousa viver com autonomia, liberdade, construindo no dia a dia com ações concretas a solidariedade e movimentos coletivos de emancipação, rumo ao socialismo.


É hora de unidade. Está em risco o futuro, o Brasil. Não é hora de protagonismos individuais, vaidades, disputas pequenas.


Precisamos unir a esquerda, os movimentos sociais e populares, o movimento sindical, unir para além de nós, todos(as) os(as) que querem superar essa fase obscura, triste, de tantas mortes e tanta dor.


É o momento da frente ampla. Que se levantem as mulheres e homens, negras e negros, a juventude, LGBTs, quem é mais velho(a), os(as) democratas, para que, na fase seguinte, possamos superar o que nos oprime, que é o capitalismo.


Seguiremos resistindo, lutando e gritando:

Fora Bolsonaro!


Em defesa da vida! Em defesa do SUS, Vacina já para todas e todos, auxílio emergencial de $600,00, e construir ações de solidariedade são nossas bandeiras comuns, nestes dias que infelizmente a morte faz parte do nosso cotidiano.


Não vão nos calar e seguiremos em alto e bom som gritando: Enquanto eles gritam morte, nós gritamos vida. Enquanto eles gritam ódio, a gente grita amor.


(*) Silvana Conti é vice–presidenta da CTB/RS, pertence à Direção Nacional da UBM e é mestranda em Políticas Sociais UFRGS/RS.