MORRENDO ABRAÇADOS, MAS SEM TUBO

por Nora Prado (*)

O Carnaval de 2021 será lembrado como o da inexistência de blocos e desfiles de escolas de samba nas avenidas e sambódromos vazios, mas das aglomerações em praias e festas clandestinas. Em meio a segunda e terceira ondas da pandemia de covid-19 o Brasil segue com o seu negacionismo básico e o seu egoísmo estrutural gerando notícia, vergonha nacional e apreensão mundial. Do litoral do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte assistimos as imagens chocantes de praias lotadas com gente irresponsável e sem noção. Sem máscaras, sem distanciamento e sem respeito pelo próximo. “Isso aqui ô,ô é um pouquinho de Brasiliá, iá!”


Sob uma óptica psicanalítica, ouso arriscar que seria o caso de uma vingança coletiva à frustração de um Carnaval proibido, uma verdadeira pirraça de proporções continentais para mostrar a contrariedade da classe média revoltada por ter sido privada de seus privilégios recreativos numa das datas mais queridas do ano. Medidas preventivas e necessárias frente à realidade fatal do vírus. Por mais que todos eles tenham esperneado e brincado o Carnaval, fingindo que não estávamos em quarentena, o fato é que brincaram como fogo, ou melhor, com o vírus. Essa conta sairá cara demais para o país inteiro pagar. Sim, porque o tiro vai sair pela culatra, em breve, com um aumento substancial no nível de contágio, internações e mortes.


Como se não bastasse o colapso do sistema de saúde do Amazonas e do de outros estados que agonizam, como o Rio de Janeiro, enfrentaremos uma cepa ainda mais resistente e contagiante que as anteriores, num momento em que já faltam vacinas em diversos estados, sem um plano de vacinação em massa consistente e eficiente e com equipes médicas exauridas com centenas de baixas por morte, stress ou esgotamento físico e emocional.


Os números dessa morte coletiva anunciada, desde as hordas humanas refesteladas nas areias escaldantes durante o Carnaval, serão dignas de um filme de Glauber Rocha, mas com desfecho ainda mais alucinante, pois não haverá ambulâncias, leitos, respiradores, enfermeiros, médicos, oxigênio nem tubos suficientes para todos. A demanda exigida pelo sistema de saúde brasileiro foi de tal ordem que já faltam insumos básicos como luvas e material de EPI para as equipes médicas, que dirá para os internos?


O plano de Pazuello, Bolsonaro e companhia está dando certo e em breve ultrapassaremos a marca de 250 mil mortos pela pandemia. Um plano genocida de um governo autoritário onde as arbitrariedades se acumulam, diariamente, fazendo um estrago pavoroso em todas as áreas.


Uma das imagens mais patéticas, dentre tantas deste Carnaval nefasto, foi a de uma megafesta num triplex à beira do Morro do Vidigal com os seus três andares abarrotados de gente dançando praticamente nua e sem máscara numa euforia descomunal. Diversas destas festas clandestinas foram interditadas sem que os participantes se arrependessem de sua insanidade. O pior é que essa gente levará o vírus para as suas casas contaminando familiares, amigos e desconhecidos como eu ou tantos que seguem cumprindo a quarentena à risca, o que significa uma injustiça.


O ano recém começou, mas desgraça pouca é bobagem. Os milicianos estão começando a se armar num golpe escancarado com o decreto que libera, ainda mais, a compra e porte de armas. Ao invés de garantir vacina em massa o presidente garante armas e munição para uma tragédia, mais do que anunciada, de um golpe militar em meio ao caos da pandemia. Espero que a prisão do deputado Daniel Silveira, cuja convocação em vídeo incentivando a ruptura institucional com o apoio dos seus seguidores, seja mantida pelos seus pares no Congresso Nacional pois, essa afronta ao Estado Democrático de Direito não pode seguir impune. A cassação do seu mandato também deve ser outra medida para barrar o fascismo que se instaura a passos largos no país.


Fico a imaginar que bom pano de fundo para a tragédia o país sendo tomado de assalto pelos milicianos enquanto o povo, sem saúde nem resistência, segue agonizando dentro de ambulâncias estacionadas em fila indiana nas imediações dos hospitais lotados e sem condições de atender um contingente que vai se depositando, como sacos de batatas, pelos corredores hospitalares numa visão apocalíptica e horrenda. Nesse momento sombrio desejo que os moribundos se lembrem das marchinhas carnavalescas para entoarem num grande coro e se abracem conformados, pois certamente morrerão sem tubo nem internação.


Mas como já dizia um velho ditado:” O Brasil não é para iniciantes”, espero que pelo menos a vacinação, em ritmo de tartaruga, consiga chegar na minha faixa etária para que uma mobilização popular aconteça se opondo a essa desgraça que cresce como um câncer maligno em nossa pátria desolada.


Que todos os Orixás e Deuses nos protejam!


Porto Alegre, 18 de fevereiro de 2021. (*) Nora Prado é atriz, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.