MORADORES CRITICAM FECHAMENTO DE UNIDADE DE SAÚDE DA TRONCO: QUEM ABANDONOU O POSTO FOI A PREFEITURA

SUL21 - A Secretaria Municipal de Saúde de prefeitura de Porto Alegre anunciou na última sexta-feira (12) a transferência dos atendimentos da Unidade de Saúde Tronco para a Unidade de Saúde Moab Caldas, ambas localizadas na chamada Grande Cruzeiro, na zona sul da Capital. A decisão, segundo a Prefeitura, foi motivada pela falta de condições sanitárias da unidade da Tronco, mas moradores e trabalhadores da região têm se mobilizado contra a mudança, alegando que aumenta as dificuldades de acesso ao atendimento e até mesmo coloca em risco a vida de moradores, uma vez que a mudança envolve duas regiões marcadas por conflitos territoriais.


por Luís Eduardo Gomes

“O motivo é a segurança sanitária dos pacientes, além de garantir atendimento adequado para a população. A estrutura ocupada pela Unidade Tronco possui ventilação deficiente e é impossível reformas para adaptações, uma vez que o serviço ocupa a parte de subsolo do prédio de uma escola. Segundo avaliação técnica do órgão municipal, em momento de pandemia em que a circulação de ar nos ambientes é essencial para o controle da transmissão do vírus para outras pessoas, esta falta de ventilação torna o ambiente propício para a propagação de doenças como a COVID 19 e a tuberculose, por exemplo. Como responsável pela segurança sanitária dos pacientes, bem como, da gestão dos serviços, a secretaria não pode manter o serviço funcionando no prédio”, diz nota divulgada pela Secretaria Municipal de Saúde.

A Prefeitura alega que a mudança não dificulta o acesso dos moradores, uma vez que a Unidade Moab Caldas está localizada a 800 metros do posto da Tronco e destaca ainda que, o novo local, que é gerido de forma terceirizada pelo Hospital Divina Providência, permite atendimento sem necessidade de agendamento, com seis médicos no local, dentistas e coleta de exames e medicamentos.

Ana Flávia da Silva Castro, agente comunitária de saúde e representante da comissão de saúde da comunidade da Tronco, diz que os moradores da região foram pegos de surpresa com o anúncio da transferência e que esperavam ser envolvidos nas negociações sobre a transferência, mas não foi o que aconteceu.

Como funcionária do posto da Tronco e moradora da região, ela diz não vê a mudança como algo positivo, porque a comunidade já tem vínculos com as equipes que atuam no posto e acompanham os períodos de vacinação, exames, o trabalho de prevenção de gravidez indesejada, entre outras ações. Para destacar a importância deste vínculo, ela afirma que, quando a comunidade precisou buscar medicamentos no posto Moab Caldas, muitas jovens acabaram deixando de fazer uso de anticoncepcionais. “Isso aconteceu da mesma forma com pessoas diabéticas, hipertensas, que deixaram de tomar a sua medicação porque não tinha ninguém que fosse buscá-la no local que a Prefeitura quer colocar o nosso posto de saúde”, diz.

Um dos principais motivos alegados por moradores da região para a contrariedade da mudança é que há uma disputa territorial entre facções do tráfico de drogas da Vila Nossa Senhora do Brasil, onde está localizado o posto da Tronco, e a Vila Postão/Cruzeiro, onde está localizada a unidade Moab Caldas, que é anexa ao Postão da Cruzeiro.

“Esse posto que eles querem fechar é bem no pé da comunidade da [Nossa Senhora do] Brasil. Eles querem juntar com o outro posto, mas não sabem que aqui tem a questão territorial. O pessoal da Brasil não se dá com os caras do Postão, são rivais. Como é que o pessoal vai ir no Postão se tem essa questão do território?”, diz Lídio Santos, liderança comunitária da Cruzeiro.

A disputa territorial também á ressaltada pela agente da saúde Adélia Maciel, moradora da comunidade e funcionária do Moab Caldas. “O pessoal da Nossa Senhora do Brasil não se dá com o pessoal da Tronco/Postão e não pode passar de um lado para o outro porque vai dar guerra. Eu não sei como vai ficar essa história para as pessoas virem ser atendidas aqui, por causa dessa violência. Porque eles matam mesmo”, diz.

Além disso, Adélia questiona o argumento de que os moradores da Tronco seriam melhor atendidos no Moab Caldas, que, segundo ela, não teria estrutura para atender a comunidade inteira. “Vai ser muito difícil, porque com os nossos, e já tem muita gente aqui, já estamos meio apertados, imagine com o pessoal da Tronco junto”, avalia.

Ana Flávia também questiona o argumento de que o Posto da Tronco está fechando por estar em condições muito precárias e pelo risco de contaminação por covid-19. “Eles disseram que, devido à pandemia, não existe ventilação adequada, mas o nosso posto de saúde é o único que não teve nenhum funcionário com covid-19, sendo que tem espaços que têm excelente estrutura e têm funcionários com covid-19. E, além disso, tem outros postos de saúde que tem uma estrutura muito mais precária que a nossa”, afirma.

Para ela, a mudança é, na verdade, um “jogo de interesse” para aumentar o número de atendimentos na unidade Moab Caldas. “O Hospital Divina é responsável pela terceirização do Moab Caldas e não estão acontecendo os atendimentos contratados, porque a própria comunidade não aderiu ao posto de saúde sem os funcionários com quem eles já tinham vínculos, que existia todo um afeto, um carinho, um atendimento especial, e a comunidade não está dando os números que eles precisavam. Então, precisam justificar porque colocaram seis equipes lá com uma equipe terceirizada, por isso querem levar os nossos 6, 7 mil pacientes para lá”, diz Ana Flávia, acrescentando ainda que os atuais trabalhadores do posto da Tronco são ligados ao Instituto Municipal de Estratégia de Saúde da Família (Imesf), que estão sob ameaça de demissão pela Prefeitura desde o final do ano passado.

Ana Flávia ainda destaca que, apesar de os postos estarem há menos de um quilômetro de distância, muitos moradores atendidos na Tronco moram a mais de dois quilômetros do Moab Caldas e o deslocamento entre as unidades está prejudicado pela redução de linhas de ônibus durante a pandemia.

Lídio também considera que o posto tem atendido bem os moradores da tronco e que a Prefeitura está, na verdade, buscando não se responsabilizar por qualificar a unidade da Tronco. “Quem abandonou o posto foi a própria Prefeitura, quem deixa precário é a própria Prefeitura, não dá estrutura, não dá manutenção, não renova as coisas que tem que renovar. Eles vão deixando estragar as coisas para depois falar que não tem condições”, diz.

Desde que a notícia da transferência do posto foi divulgada, moradores têm organizado manifestações e se mobilizado por meio de panfletagens e abaixo-assinados contra a mudança. Contudo, ressaltam que a gestão do prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) não tem voltado atrás em medidas do tipo. “A gente não tá aceitando. Estamos com as mobilizações para que não aconteça isso, mas o desmonte do Marchezan tá muito grande. O desmonte atinge todos os postos, o da Tronco é mais um”, diz Adélia. “Se fechar, e óbvio que vai fechar, porque toda vez que a Prefeitura ameaça ela cumpre, muita gente vai ficar sem atendimento. Então, a comunidade vê isso com muito pavor”, complementa Lídio.

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