LOCKDOWN OU MORTE: O DILEMA DA PANDEMIA DE CORONAVÍRUS E OS EFEITOS DA CEPA P1 COM MAIOR CARGA VIRAL


A pandemia de coronavírus levou o sistema de saúde do Brasil ao colapso e a realidade impõe ao país um dilema: lockdown ou morte. Para Miguel Nicolelis, médico, neurocientista e professor catedrático da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, o agravamento da pandemia da covid-19 vem levando os sistemas hospitalares de diversos estados ao colapso. Neste sábado (27/2), o país registrou a pior média móvel de óbitos por covid-19 em toda a pandemia. Segundo dados divulgados pelo consórcio de veículos de imprensa, 1.180 brasileiros morreram, em média, nos últimos sete dias. Na quarta-feira desta semana (24/2), o país ultrapassou a marca de 250 mil mortes em função do vírus. O maior índice de óbitos tinha sido registrado na quinta-feira (25/2), quando a média móvel foi de 1.150 óbitos.


Em entrevista ao jornal O Globo, Miguel Nicolelis defendeu a necessidade de um lockdown nacional por 21 dias. "Só isso pode evitar o colapso simultâneo da saúde (e depois funerário) em praticamente todo o país. A população precisa acordar para a dimensão da nossa tragédia”, afirmou. O neurocientista explicou que, diferentemente da primeira onda, quando foi cada estado em um tempo, surgiram efeitos sincronizadores como eleição, festas de fim de ano e carnaval. "Agora, tudo está explodindo ao mesmo tempo e isso significa que não há medicação, intubação nem transferência de uma cidade para outra", adverte.


VARIANTE TEM MAIOR CARGA VIRAL Não bastasse isso, um estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia constatou que a carga viral de pacientes contaminados pela cepa P.1 de coronavírus, uma variante provavelmente desenvolvida no Amazonas, é bem maior do que em pacientes com outras cepas que circulam naquele estado. O artigo que divulga os dados da pesquisa, realizada entre março de 2020 e janeiro deste ano, foi assinado por 29 especialistas, mas ainda falta ser oficialmente publicado. O texto está disponível na plataforma Research Square, que permite que artigos sejam debatidos por especialistas antes da publicação em uma revista científica.


PORTO ALEGRE E RIO GRANDE DO SUL

Neste sábado, pela primeira vez, as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) da capital gaúcha estão com a ocupação acima de 100%. No total, são 451 pessoas internadas, 68 acima do limite. Todas as regiões do Rio Grande do Sul estão com bandeira preta e três regiões do estado apresentam mais de 100% de esgotamento dos leitos de UTIs: Lajeado, no Vale do Taquari; Novo Hamburgo, no Vale do Sinos; e Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo.


Na região de Lajeado, que conta com 19 hospitais, o índice de internados é alto tanto no SUS quanto na rede privada. No SUS, o percentual de ocupação bateu a marca de 126,3% e, nos estabelecimentos pagos, atingiu 125%. Embora o cenário tenha se mantido o mesmo em relação a sexta, a taxa de respiradores em utilização passou de 100% para 107,7%, e o uso de leitos para covid-19 fora de UTIs também cresceu, de 94,2% para 96,5%.

Em Novo Hamburgo e entorno, onde há 10 casas de saúde, a porcentagem de camas de UTI destinadas a maiores de 18 anos que estão em uso saltou de 114,2% na sexta-feira para 124,8% neste sábado. Também se elevaram outros indicadores, tanto em relação às vagas fora de UTIs (ocupação de 98,2% para 99,5%) quanto ao uso de respiradores (o uso passou de 81,4% para 88,5%).


Quanto à área de Santa Cruz do Sul, contemplada com nove hospitais, a lotação nas UTIs direcionadas a pacientes adultos passou de 105% na sexta para 106,7% neste sábado. Houve piora, ainda, na procura por respiradores. A taxa subiu de 76,7% para 83,3%.


RISCO DE CATÁSTROFE HUMANITÁRIA

Um movimento de médicos que atuam em hospitais públicos e privados, dirigentes de hospitais, pesquisadores e profissionais da área de saúde do Rio Grande do Sul lançaram um manifesto, na sexta-feira (26/2), alertando para o risco de uma catástrofe humanitária. O grupo “Unidos pela Saúde, Contra o Colapso” pretende mostrar a realidade sem filtros para impedir que mais pessoas morram por falta de atendimento.


MANIFESTO

“Somos médicos, lideranças da saúde e profissionais de diversas áreas, atentos e preocupados com o que acontece nesse momento em nosso país, especialmente no nosso estado, Rio Grande do Sul. Estamos à beira da maior catástrofe humanitária da nossa história.


As notícias convencionais e as redes sociais não conseguem mostrar o que está acontecendo de fato nas UTIs, Emergências e em todos os estabelecimentos de saúde espalhados pelo RS.


Por isso criamos esse grupo para mobilizar, apresentar a realidade como ela é, levar a você informação verdadeira, com credibilidade e tocar cada um dos brasileiros para que ajude a evitar uma tragédia ainda maior tomando as medidas de proteção, evitando aglomerações e protegendo a si e a quem se ama. É hora de irmos além dos números.


Enquanto não houver uma grande expansão da vacinação, qualquer pessoa pode morrer, sem chance de tratamento, porque simplesmente não vai ter onde ser tratada. Isso afeta a todos que precisem de hospitalização e não apenas quem tem COVID-19. Vamos mostrar um pouco dessa realidade.


Cada um de nós deve se tornar um protagonista da virada, cuidando-se, usando máscara, não participando de nenhuma aglomeração e ficando tão distanciado socialmente quanto possível. Esse manifesto é um chamado a este protagonismo e uma mobilização para uma luta que é de todos nós! Convidamos você a participar: Unidos pela a Saúde, Contra o Colapso!"