JORNALISTAS LIVRES: O DECLÍNIO DA MÍDIA BRASILEIRA


Os empresários Amilcare Dallevo e Marcelo de Carvalho, donos da Rede TV, têm ocupado seu tempo, nas últimas semanas, em desmentir que estejam conversando com prováveis compradores da emissora. Amargando prejuízos e com a audiência cada dia menor desde que aderiu ao bolsonarismo, o futuro da Rede TV é incerto.

JORNALISTAS LIVRES

Ãngela Carrato* Incerto parece cada dia mais, igualmente, o futuro da grande maioria dos veículos da mídia comercial brasileira que apoiou e participou, com entusiasmo, da derrubada da presidente Dilma Rousseff, em 2016, num golpe travestido de impeachment. Além da piora evidente em todos os índices econômicos e sociais do Brasil e na falta de perspectivas a curto e médio prazos para a maioria da população, os negócios envolvendo a mídia também estão sendo duramente atingidos pelo golpe.

Isso, claro, não é e dificilmente será manchete em jornais, rádios ou emissoras de TV, mas é inegável que o feitiço virou contra muitos feiticeiros.

Especialista em abordar os assuntos segundo a sua conveniência, a mídia comercial brasileira faz silêncio sepulcral sobre a própria situação. Silêncio que pode ser entendido como sinal da preocupação em que vive. E não é para menos.


Não há, na história mundial, nenhum exemplo de país em que a economia foi destruída, a vida da maioria da população piorou incrivelmente, milhares de pessoas morreram sem necessidade devido a uma crise sanitária e a mídia conseguiu se manter nos mesmos patamares econômicos e de confiabilidade de antes.

Raros foram os jornais, por exemplo, que sobreviveram à primeira Guerra Mundial e à Grande Depressão de 1929, seja na Europa ou nos Estados Unidos. Mais raros ainda os que se mantiveram vivos após a Segunda Guerra Mundial, com as populações considerando-se enganadas por eles.

No Brasil, as crises políticas e os golpes de estado têm sido os responsáveis pela destruição e derrocada de grupos tradicionais de mídia, substituídos por novos alinhados aos donos do poder ou abandonados à própria sorte por leitores e telespectadores desiludidos. Tem sido assim desde a proclamação da República e nada indica que venha a ser diferente agora.

DESTINO SELADO No passado, um caso emblemático é o do jornal Correio da Manhã. Com sede no Rio de Janeiro, ele foi um dos principais formadores de opinião no país de 1901 a 1974. Fundado por Edmundo Bittencourt, vangloriava-se por dar ênfase à informação em detrimento da opinião. Caracterizou-se por fazer oposição a quase todos os presidentes brasileiros, razão pela qual enfrentou perseguição e foi fechado em diversas ocasiões, com seus proprietários e dirigentes presos.

Mas foi depois de apoiar o golpe civil-militar de 1964 que o Correio da Manhã teve seu destino selado. Mesmo rapidamente desiludindo-se com a ditadura que ajudara a implantar, o que levou muitos de seus diretores a serem presos, a publicação não conseguiu mais se reerguer e nem recuperar o prestígio que possuía, acabando por ser arrendado por um grupo de empresários, o que equivaleu à sua morte.

Se para o Correio da Manhã bastaram poucas semanas para que a desilusão começasse a ser estampada em suas páginas, nos dias atuais, o processo mostra-se mais lento. Mesmo assim, o desencanto, em formas as mais variadas, também já começa a dar as caras na mídia brasileira.

Os rumores e os desmentidos pouco convincentes em torno de uma possível venda da Rede TV acenderam uma espécie de luz amarela para a TV Bandeirantes. Mesmo sendo de um grupo que possui outros veículos de mídia – rádio, TV paga e jornal -, a família Saad, sua proprietária, vem alternado apoio explícito e críticas ao governo Bolsonaro, mas sem alcançar os objetivos pretendidos.

O grupo Band está longe de conseguir abocanhar uma parcela expressiva das verbas publicitárias do governo federal, ao mesmo tempo em que parte de sua programação policialesca é cada vez mais questionada por setores da opinião pública. Some-se a isso que a família Saad também começa a ser atingida em seus negócios envolvendo a agricultura, pois para servir aos Estados Unidos, Bolsonaro passou a agredir a China, principal parceiro econômico do país e maior comprador das commodities agrícolas brasileiras.

MAIOR PREJUDICADO Principal grupo de mídia do país, o grupo Globo é, sem dúvida, o maior prejudicado pelo golpe que apoiou. Oficialmente, o grupo vem passando por uma “reestruturação”, mas, na prática, encolhe a olhos vistos.

Entre ídolos de novelas e jornalistas conhecidos, o Grupo Globo já demitiu centenas de pessoas nos últimos meses, reduziu setores, fundiu núcleos e acabou com departamentos inteiros. Dezenas de profissionais pediram demissão, atraídos por propostas mais vantajosas de concorrentes como a CNN Brasil e a TV Record, que os Marinho não conseguiram cobrir.

O que antes parecia impossível, agora se tornou normal: a TV Globo e a rede de rádios, CBN, estão perdendo profissionais para os concorrentes e a sangria está longe de acabar.

O motivo é um só: o grupo Globo deixou de ser o principal destinatário das verbas e das benesses oficiais.

Acostumados a mandar e desmandar no Brasil, os irmãos Marinho, depois que foram essenciais para tirar o PT do poder, acreditaram que poderiam voltar a dar as cartas, como sempre fizeram. Tanto que apostaram todas as suas fichas em candidatos neoliberais como Alckmin, Meirelles, Amoedo e Álvaro Dias nas eleições de 2018 e se deram mal.

No segundo turno, entre o candidato do PT, Fernando Haddad, e o do minúsculo PSL, o ex-capitão Bolsonaro, os Marinho hesitaram, mas acabaram indo de Bolsonaro, convencidos que poderiam colocá-lo na coleira. Não deu certo. Bolsonaro passou a ter na TV Record a emissora de sua preferência e transferiu para ela a maior parte das verbas publicitárias oficiais. Dados indicam que se em 2017 e 2018, a Globo encontrava-se isolada na liderança do bolo publicitário, e que as TVs Record e SBT se revezavam em segundo lugar, essa situação alterou-se em 2019. Em primeiro lugar ficou a Record, com R$ 10,3 milhões. Em segundo, veio o SBT, com R$ 7,3 milhões. Em terceiro ficou a Globo, com R$ 7,07 milhões.

A título de comparação, o faturamento da Record junto ao governo no primeiro trimestre de 2019 teve um crescimento de 659%, sem que a emissora tenha feito nada para isso, exceto a declaração de seu dono, Edir Macedo de apoio a Bolsonaro ainda no primeiro turno das eleições de 2018. O faturamento do SBT também cresceu no período: 511%. Enquanto isso, o faturamento do Grupo Globo cresceu apenas 19%, saindo de R$ 5,9 milhões para R$ 7,07 milhões.

Esses números somados à redução no faturamento dos anunciantes tradicionais explicam os problemas que os irmãos Marinho passaram a enfrentar. Problemas acrescidos com a entrada no mercado brasileiro do grupo estadunidense CNN. E mesmo que num primeiro momento a CNN pareça não incomodar com seus parcos índices de audiência, os dirigentes da Globo sabem que ela tem muita bala na agulha e veio para ficar.

A partir de então, os Marinho tiveram que dar tratos à bola para combater Bolsonaro sem, contudo, criticar a agenda econômica de seu governo, que, não só apoiam, como defendem com unhas e dentes. Foi essa agenda, radicalmente oposta a que o PT colocou em prática nos anos em que esteve no poder, que animou a classe dominante brasileira a golpear Dilma e prender, sem provas, o ex-presidente Lula, a fim de impedir que disputasse as eleições de 2018.

CRÍTICAS E ELOGIOS O resultado dessa esdrúxula situação é que os veículos do Grupo Globo vem alternando críticas a Bolsonaro, especialmente no que diz respeito à sua postura em relação à pandemia, ao mesmo tempo em que elogiam e cobram maior celeridade do ministro da Economia, Paulo Guedes, nas reformas econômicas e na agenda de privatizações. Leia-se: entregar, o mais rápido possível, o patrimônio brasileiro a preço de banana para grupos econômicos internacionais.

E se a crise brasileira já era grave, devido às medidas de redução do investimento público e de retirada de direitos da maioria da população, a pandemia veio agravar ainda mais esse quadro. E o resultado acabou atingindo também os anunciantes.

É visível, por exemplo, a redução no número de grandes anunciantes nos intervalos comerciais do chamado “horário nobre” da TV Globo – das 18 às 24 horas. No Jornal Nacional, principal telejornal da emissora, esses intervalos passaram a ser povoados por institucionais da própria emissora.

Nas duas últimas semanas, o quadro melhorou um pouquinho em função do Natal, mas as previsões não são nada boas. Os canais do SportTV, do grupo Globo, põe em teste a paciência de seus telespectadores com uma mesma – e chata – propaganda dos postos Ipiranga repetida em praticamente todos os intervalos.

Com o Carnaval no Rio de Janeiro, um dos eventos mais lucrativos para a TV Globo, suspenso em função da pandemia e sem data definida para acontecer, janeiro e fevereiro de 2021 prometem ser meses magros. Some-se a isso que a TV Globo perdeu o direito para transmitir a Copa Libertadores da América e o Campeonato de Fórmula-1 de 2021, que agora é do SBT, e quase perdeu também a hegemonia nas transmissões do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Alegando que atendia a uma reivindicação do Flamengo, cansado de ter aborrecimentos com a TV Globo, Bolsonaro enviou ao Congresso Nacional uma medida provisória que garantia ao time que tivesse mando de campo a decisão sobre as transmissões da partida. Se aprovada, a MP do Futebol acabaria com o poder da Globo no setor, com terríveis repercussões econômicas para a emissora, pois esses patrocínios constituem uma de suas principais fontes de recursos.

O governo não fez nenhum esforço para que a MP fosse discutida e ela acabou perdendo validade sem ser apreciada. Mas o recado que interessava a Bolsonaro foi dado aos Marinho: eles podem perder muito nessa disputa.

AFAGO AOS ANUNCIANTES As investidas de Bolsonaro contra a Globo não param aí e estão longe de terminarem. Depois de ameaçar cassar a concessão da emissora, agredir repórteres e usar setores da Justiça carioca para intimidar os apresentadores do Jornal Nacional, William Bonner e Renata Vasconcellos, a depor por suposto descumprimento de decisão legal que proibia divulgar qualquer notícia envolvendo o processo das “rachadinhas” do filho Eduardo Bolsonaro, o governo agora aposta no aumento da pressão econômica e no isolamento político dos irmãos Marinho.

A pressão econômica pode ser traduzida pela redução ao mínimo possível das verbas publicitárias para a emissora, uma vez que o Palácio do Planalto decidiu – e ficou por isso mesmo – que não se pautaria pelo critério de mídia técnica, instituído nos governos petistas. A mídia técnica levava em conta a audiência das emissoras de rádio e de TV na hora de programar as divulgações oficiais. Vale dizer: pela primeira vez no país tinha-se um critério para distribuição dessas verbas.

Já o isolamento político é uma operação bem mais complexa e envolve derrotar a direita que apoia e tem o apoio do Grupo Globo. Vale dizer: derrotar os tucanos e seus aliados, em especial a turma que gravita em torno do atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aquele que mesmo criticando Bolsonaro da boca para fora, ficou sentado sobre 51 pedidos de impeachment, que poderiam ter colocado ponto final no governo do ex-capitão.

Aliás, uma prova do morde e assopra do Grupo Globo em relação a Bolsonaro é que Maia, mesmo sempre apresentado como uma espécie de contraponto ao ex-capitão, nunca foi cobrado nesse quesito. Sem o poder e o prestígio de antes, jornalistas do grupo Globo têm tido o dissabor de serem os últimos a saber sobre fatos que os concorrentes dão em primeira mão. Some-se a isso que o Ministério das Comunicações que, durante décadas, manteve em seus cargos chave pessoas indicadas pelo patriarca Roberto Marinho – a exemplo de Antônio Carlos Magalhães e de Rômulo Villar Furtado -, agora está nas mãos do deputado Fábio Faria (PSD-RN), genro de um concorrente, Sílvio Santos, dono do SBT.

Mais ainda. Desde que a pandemia de covid-19 teve início e a crise econômica aprofundou-se ainda mais, o Jornal Nacional colocou no ar um quadro cujo objetivo, para quem conhece um mínimo de marketing e relações públicas, era afagar velhos anunciantes e buscar novos patrocinadores.

O quadro tinha o sugestivo nome de “Solidariedade SA” e visava destacar ações positivas de empresas brasileiras no combate ao covid-19. Acabou tão rápido quanto começou, seja porque o número de ações solidárias era mínimo, seja porque a maioria das empresas destacadas possuía histórico de corrupção e exploração de seus funcionários.

A tentativa de obter novos anunciantes revelou-se uma frustração.

Diante dessa situação, o temor dos Marinho se justifica ainda mais, especialmente quando se observa o que aconteceu com a outrora poderosa Editora Abril. Tendo na revista Veja um dos carros-chefes da campanha contra Lula, Dilma e o PT, ela naufragou e levou junto a editora. Um empresário fora do ramo assumiu o controle do grupo, numa transação que marca a troca de guarda cada vez mais comum na mídia tradicional – das famílias que a construíram para os outsiders que aproveitam as oportunidades.

Na prática, a editora Abril pertence agora a um grupo de banqueiros, com os Civita deixando um rombo milionário na praça, inclusive em termos de obrigações trabalhistas.

Também o destino de outro veículo tradicional da mídia comercial brasileira, o jornal Estado de S. Paulo, preocupa os Marinho. Fundado pela família Mesquita, que o controlou por mais de um século, a publicação agora também pertence a um grupo de investidores. O nome dos Mesquita figura apenas num cargo honorifico em seu conselho de direção. O Estado de S. Paulo também se notabilizou pelo apoio ao golpe contra Dilma e agora, meio sem norte, oscila entre a crítica a Bolsonaro e o temor do que pode acontecer com o Brasil no futuro. Temor que parece esconder o medo ao seu próprio futuro. Em outras palavras, Editora Abril e o Estado de S. Paulo são exemplos de empresas que acabaram sendo devoradas pelos monstros que elas mesmas ajudaram a criar.

Por tudo isso, o momento para a mídia comercial brasileira não poderia ser dos mais delicados. Se ela tivesse um mínimo de sintonia com o Brasil e com os interesses da maioria dos brasileiros, deveria estar cobrindo o que realmente acontece e mostrando as atrocidades que o atual governo tem feito. Mais ainda: deveria estar em campanha pelo impeachment de Bolsonaro, da mesma forma que fez campanha, mesmo que sem motivos válidos, pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Mas dificilmente isso acontecerá. A mídia brasileira, que é parte da classe dominante ou, como prefere dizer o sociólogo Jessé Souza, integra a “elite do atraso”, dá mostras de que vai com o golpe e os golpistas até o fim. O máximo que seus donos admitem é o apoio a um candidato de “centro”, eufemismo que utilizam para designar a direita brasileira. Se depender dessa mídia, o próximo presidente do Brasil será João Dória, Rodrigo Maia ou até mesmo o empregado dos Marinho, Luciano Huck. A mídia comercial brasileira, pelo visto, prefere se agarrar aos golpistas a rever suas posições. Por isso, está escrevendo o começo do seu fim.

(*) Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG