JORNALISMO INDEPENDENTE PERDE O "NOCAUTE" E O "CONVERSA AFIADA", QUE FECHAM AS PORTAS DEVIDO À CRISE


O jornalismo independente perdeu dois importantes veículos da chamada mídia alternativa. No mesmo dia (sexta-feira, dia 31 de julho), o Nocaute e o Conversa Afiada fecharam as suas portas, como bem ressaltou o jornalista Ricardo Kotscho. “O Nocaute e o Conversa Afiada foram criados na última década por dois consagrados jornalistas da minha geração, Fernando Morais e Paulo Henrique Amorim, respectivamente”, escreveu Kotscho, na sua coluna no UOL, neste sábado (1/8).

CONVERSA AFIADA

A equipe que trabalhava com o Amorim, que morreu no ano passado, manteve o site no ar, com o mesmo espírito polêmico e combativo, enquanto pode. "Dados o profundo respeito e a imensurável consideração por cada um de vocês, amigos navegantes, este texto vai direto ao ponto: o Conversa Afiada encerrou suas atividades em 31/VII/2020. Esse é o fato. Mas, a partir de agora, você está convidado a entender o que isso significa", informou o site em comunicado.


Texto publicado pelo Conversa Afiada explicou que, "em 2019, com a morte de Paulo Henrique Amorim, esta equipe não se permitiu abaixar as bandeiras e abdicar de seu dever perante a democracia. Continuou a defender, dia após dia, os princípios que nortearam o Conversa Afiada desde a sua criação. Os últimos meses, entretanto, foram um desafio duplamente extenuante: além das dificuldades inerentes à luta pela construção de uma imprensa independente e progressista, a equipe teve de lidar 24 horas por dia, 7 dias por semana com o peso de uma ausência irreparável - porque, afinal de contas, há sim pessoas insubstituíveis".

NOCAUTE

Fernando Morais gravou um vídeo para anunciar a decisão de encerrar as atividades do blog Nocaute.”Conseguimos sobreviver mais de três anos, sempre com a corda no pescoço. Temos repetido aqui o bordão de que “Tempos perigosos exigem jornalismo corajoso”. Mas fazer jornalismo e corajoso e independente tem um custo. As contribuições que recebemos regularmente de centenas de amigas e amigos do Brasil e do exterior foram a viga de sustentação do blog, mas as vacas emagreceram para todos. A perda dos poucos anúncios que recebíamos e a queda na arrecadação tornaram impossível organizar um orçamento mínimo”, disse o jornalista.

Morais explicou que nos últimos meses, não sabia se haveria recursos para bancar os gastos do mês seguinte. “As receitas tornaram-se cada dia mais insuficientes. O aluguel da salinha, os impostos, o custo extorsivo da Internet e a esquálida folha de pagamento – a equipe inteira cabe nos dedos de uma das mãos – sugaram tudo”, afirmou. Fernando Morais ressaltou o trabalho realizado pelo Nocaute. “Apesar de navegar contra o vento e a maré, demos furos jornalísticos nacionais e internacionais. Nosso canal no Youtube beira os 110 mil inscritos, com mais de 15 milhões de visualizações. Exibimos quase 2 milhões de horas em programação criada para você”, argumentou, ressaltando que o projeto reuniu um dos mais brilhantes times de colunistas e colaboradores da imprensa.


“Mês a mês nosso blog alcança mais de 400 mil pessoas. Não é pouco, especialmente num país que em os três principais jornais diários, somados, não chegam a 300 mil exemplares. Nenhum de nós jogará a toalha ou abandonará as bandeiras que nos uniram durante quase quatro anos: a luta pela democracia, pelos direitos dos trabalhadores, pela soberania nacional, pela regulação da mídia eletrônica e por uma sociedade em que a riqueza seja de todos, não de uma minoria. Nossa eterna gratidão é a você. Sem cuja colaboração generosa não teríamos chegado tão longe. Mas voltaremos, não tenha dúvidas”, disse Fernando Morais.


Por fim, Fernando Morais se despede dos leitores e internautas de uma forma carinhosa, deixando a esperança de que o Nocaute possa retornar ao mapa do jornalismo independente do Brasil. “Em meu nome e no da equipe, receba o abraço inoxidável deste seu companheiro de sonhos e de esperanças. Até a volta".


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