FAMÍLIAS DO ACAMPAMENTO QUILOMBO GRANDE, EM CAMPO MEIO (MG), FORAM DESPEJADAS EM PLENA PANDEMIA


O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra postou no twitter um vídeo em que é possível perceber a tensão vivida pelos moradores do Acampamento do Quilombo Grande, no município de Campo Meio, em Minas Gerais. As famílias fizeram barricadas para proteger suas casas em função de uma reintegração de posse. No dia 20 de julho, os moradores já haviam passado pela mesma situação. Mesmo com decreto de calamidade pública em função da pandemia de coronavírus, o juiz determinou o cumprimento imediato de despejo. Na madrugada desta quarta-feira (12/8), centenas de viaturas e policiais cercaram a cidade para despejar famílias trabalhadoras que viviam no acampamento, em uma área no entorno da sede da antiga Usina Ariadnópolis e na Escola Popular Eduardo Galeano. Desta vez a ação foi realizada sem mandado judicial.

Várias viaturas e drones atormentam as famílias acampadas, desde o dia 30 de julho, quando a polícia invadiu casas e levou um Sem Terra preso. Na área, estava em construção um polo de conhecimento e tecnologia em agroecologia.Sem amparo do governo Romeu Zema (Partido Novo), as famílias foram abrigadas pelo MST em um assentamento próximo ao local. A dirigente estadual do MST, Tuira Tule, alertou que essa é a realidade dos trabalhadores que vivem no campo e lutam pela terra em um período de pandemia, quando se elege um governo fascista no país, como o atual. “Mesmo sendo de conhecimento de todos a manobra corrupta feita com o juizeco local, nenhum órgão público conseguiu interceder para que as famílias ficassem em suas casas, mesmo no meio da pandemia. Mas nós aprendemos sempre a voltar mais fortes. Essa terra é nossa por direito e não abrimos mão de nenhuma centímetro dela”, alerta a dirigente.

O MST denunciou o objetivo de coagir e incriminar os trabalhadores, o que foi confirmado com a soltura de Celso Augusto no mesmo dia, e a nota publicada pela polícia civil. “Um facão e fogos de artifícios foram apreendidos no local, e um indivíduo preso por resistência”, dizia. Os dias seguiram tumultuados, com a intensificação da denúncia do despejo iminente, a busca de saídas jurídicas junto ao Ministério Público e a organização do acampamento para a resistência. Em meio à corrida contra o tempo, circularam dezenas de áudios das famílias denunciando as ações autoritárias, as rondas de viaturas aceleradas, as blitz nas estradas de acesso à pequena cidade.

Em contraponto, também foram recebidos dezenas de vídeos em apoio. Manifestações em cartas enviadas ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais e na moção on-line envolveram representantes de 24 países (Brasil, Grécia, Estados Unidos, Reino Unido, Colômbia, Austrália, Alemanha, Espanha, Nova Zelândia, Irlanda, Nigéria, Noruega, Itália, Hungria, França, Venezuela, Suíça, Uruguai, Emirados Árabes Unidos, Nicarágua, México, Africa do Sul, Israel, Bélgica) e de 32 entidades internacionais e nacionais, 98 coletivos e representações acadêmicas.

O Conselho Estadual de Direitos Humanos (CONEDH), a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM), a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil/Seção Minas Gerais, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e a Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDESE) alertaram, sem obter respostas, o Tribunal de Justiça para os riscos diante da pandemia. O documento afirma que “diante da iminência de uma lesão irreparável e grave aos Direitos Humanos e ao direito à saúde, solicita-se a suspensão da ordem de cumprimento da liminar possessória para desocupação do imóvel”.


São 22 anos de conflito e resistência no território, lidando com pistoleiros, a mando de Jovane de Souza Moreira. Após enfrentar cinco despejos, em diferentes áreas, as famílias do MST conhecem o caminho para retornar com mais força e conquistar a terra.As famílias que estão sendo retiradas do local são produtoras do Café Guaií, produção orgânica, fruto de mais de 20 anos de resistência e luta pela terra. escola e da vila de moradores do acampamento. Na última semana, a mesa de diálogo sobre conflitos de terra se reuniu e apontou que as famílias deveriam permanecer no local, pelo menos durante o isolamento social.

Débora Mendes, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, alerta para as consequências de uma ação policial neste momento, que pode colocar em risco a saúde de toda a população da cidade de Campo do Meio. “A vinda de policiais militares agora representa uma dupla ameaça para nós, já que além da truculência, a vinda deles para o município poderá trazer o vírus também. Isso só deixa mais claro que os governos fascistas, como o governo Zema, não estão nem um pouco preocupados com a vida dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras”. Vale ressaltar que Campo do Meio ainda não possui casos registrados da COVID-19.

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