ESPANTOSO O SILÊNCIO


Por José Antônio Silva (*)

Espantoso o silêncio dos repórteres presentes. Espantoso o silêncio, depois, das associações profissionais de jornalistas, como a ABI, a Fenaj, etc. Espantoso o silêncio (ou o pouco espaço) nos editoriais dos jornalões brasileiros, das TVs, das rádios e de seus comentaristas...


Tão espantoso, ou mais, do que a audácia e o autoritarismo emanados – com voz de ira profunda – da garganta e do gestual ameaçador do general-ministro da Saúde (ou da falta de Saúde e de Vacina), Eduardo Pazuello, sobre os jornalistas que esperavam suas informações em Brasília, no último dia 7, a respeito das estratégias de enfrentamento ao coronavírus.


Como uma comporta de raiva concentrada que arrebenta, o ministro-milico, que nada entende de Saúde pública, lançou perdigotos de ódio sobre os jornalistas que aguardavam a relação de medidas esperadas, da parte do governo, para viabilizar a vacina à população brasileira o quanto antes.


Nem a máscara que usava conteve o jorro autoritário que de Pazuello emanou, lembrando os piores momentos da Ditadura Militar (1964-1985), tempos em que se torturavam/matavam, nos porões das delegacias de polícia e quarteis os oposicionistas. Mesmo quem apenas revelava verdades inconvenientes.


- “Não queremos a interpretação do fato, dos senhores!! Não queremos tendência ideológica ou de bandeira!! Eu quero assistir a televisão e ver o fato, a notícia!!”, decretou, em altos brados.


Ignorante como demonstra ser em termos de providências básicas de saúde da população, ele não sabe – ou detesta ter que admitir – que o Jornalismo não se compõe apenas do relato dos fatos.


Também a interpretação, a análise de números e dados, a revelação do que não é dito e por vezes é até escondido pelas autoridades, a amostragem da incompetência e de falhas brutais de planejamento e logística (área em que o general é tido como especialista)... - tudo isso faz parte do Jornalismo.


Apenas a apresentação de números frios e declarações oficiais do tipo “tudo bem”, “vamos providenciar”, sem contextualização, objetividade nem contraponto, não esclarece ninguém, muito menos a maioria da população.


Para tanto, existem outros tipos de profissionais de comunicação, como os publicitários e RPs, que procuram fazer seu trabalho da melhor forma possível.


Não se espere Jornalismo deles. Nem o contrário, apesar dos pesares.


A raiva e a nostalgia da censura dos tempos ditatoriais, que transparece nos esguichos do general da Saúde e do capitão a quem Pazuello bate continência, têm neste caso uma razão muito clara. Eles não admitem que sua gestão mostrou-se absolutamente despreparada para enfrentar uma pandemia como esta.


Todos nós sabemos disso, pelo menos desde o momento em que – desprezando as informações preocupantes do mundo inteiro – Bolsonaro declarava ao povo que o cercava, enquanto passeava nas vizinhanças de Brasília, sem máscara ou cuidados, que a Covid-19 não era mais que uma “gripezinha”.


A recente crise de ódio ao jornalismo deve nos deixar alertas. E o silêncio dos jornalistas neste caso, não pode ser substituído apenas pelos muxoxos de Bonner ou pela ironia de Lo Prete.


(*) José Antônio Silva é jornalista e escritor, em Porto Alegre.