ENTREVISTA DE MÁRCIA TIBURI AO BRASIL DE FATO-RS: "A PANDEMIA NÃO VAI PASSAR SE BOLSONARO CONTINUAR"

O www.esquinademocratica.com compartilha aqui a entrevista das jornalistas Fabiana Reinholz e Stela Pastore, do jornal Brasil de Fato / RS com a filósofa Márcia Tiburi, publicada na última sexta-feira, dia 26 de junho. Márcia Tiburi vive fora do Brasil há um ano e meio, após sofrer perseguição e ameaças de morte. Candidata a governadora do Rio de Janeiro pelo PT em 2018, Márcia fala do milicianato no poder, do elogio à violência, ao militarismo e à força bruta, do ódio nacional fabricado por empresas de comunicação, internet, igrejas de mercado e políticos a serviço de interesses econômicos. Para ela, a crise sanitária não teria essa escala não fosse pelo despreparo político: “O vírus virou arma do governo contra o povo”. A decomposição da imagem do Brasil no mundo, o egoísmo na pandemia e a escalada de violência doméstica no confinamento são alguns dos temas da entrevista com a gaúcha nascida em Vacaria, que se projetou nacionalmente como filósofa e escritora. As previsões de Márcia Tiburi não são nada otimistas para o Brasil. “A pandemia é o de menos perto do fascismo bolsonarista.

Foto: Alexandre Costa


Confira a íntegra da entrevista. Brasil de Fato RS – Que vida, que país virá pós-pandemia? Márcia Tiburi – A pandemia é o de menos perto do fascismo bolsonarista. Vários países atravessaram relativamente bem esse momento, tais como Alemanha, Nova Zelândia entre outros. O que acontece no Brasil é catastrófico. A pandemia não vai passar se Bolsonaro continuar. Essa é a questão que temos que enfrentar.

BdFRS – Podemos analisar a pandemia do ponto de vista filosófico? Márcia – Isso significa pensar como se entrelaçam os aspectos políticos, éticos, estéticos, existenciais e linguísticos considerando que, em cada país, ou continente, são colocados problemas diferentes devido às diferentes condições geopolíticas nas quais a pandemia se dá. No Brasil, não é possível pensar a pandemia como um problema que não seja sobretudo político. O país passa por um dos seus piores momentos históricos. Talvez as pessoas que ainda não sabem disso aprendam que é preciso fazer um país capaz de suportar reveses tais como uma crise sanitária. Que só é crise devido ao despreparo dos poderes responsáveis. 


BdFRS – Pode haver um recuo das políticas neoliberais, da necropolítica após a pandemia? Márcia – Apenas naquelas sociedades que tenham menos desigualdade e a densidade democrática seja mais alta. Não é o caso do Brasil onde o vírus virou arma de guerra do governo contra o povo. Creio que no Brasil continuará a matança que já é imensa e que isso não acabará tão cedo. Nós sabemos que com Bolsonaro no governo a perspectiva para a população é de morte, mais cedo ou mais tarde.  BdFRS – Perante a recomendação de distanciamento e isolamento social, que leitura podemos fazer das liberdades individuais, uma vez que uma parcela o pratica enquanto outra ignora? Márcia – Vemos uma falta de senso de alteridade. A cidadania já não existe. A percepção do egoísmo, da estupidez está clara para todos. Mas há de fato quem simplesmente não tenha o menor interesse em preservar a saúde e a vida do outro. Mas isso jamais deve ser visto como uma questão individual, senão em casos isolados. É um fato que o governo é que tem que propor políticas de isolamento. A possibilidade da “escolha” nesse caso não tem sido democrática. E esse é um paradoxo terrível nesse momento.

BdFRS – As falas e atitudes de Bolsonaro têm contribuído para desvelar uma outra Nação ao exibir uma imagem diferente do brasileiro, mostrando o inconsciente coletivo – racista, misógino, violento, grosseiro, tirano – que até então era pouco perceptível para muita gente? Márcia – Há uma parte da população que percebe isso. Há outra que concorda. É assustador para quem tinha uma imagem de um Brasil de bons afetos. Mas o fascismo é isso, ele implica algo de recalcado que vem à luz do dia. Ao mesmo tempo, esses afetos ou preconceitos não devem ser naturalizados. O ódio foi implantado e manipulado no Brasil. O pré-golpe contra Dilma Rousseff e o PT foi um trabalho do ódio que teve sucesso. O neofascismo ou nazifascismo se tornou uma fábrica e um mercado no qual o ódio é o capital. Quem administra o ódio nacional? Empresas de comunicação, internet, igrejas do mercado e políticos do mercado.

BdFRS – Como conversar com um bolsonarista? Márcia – Essa é uma pergunta irônica que eu só posso responder com certa ironia: tentando não se transformar em um deles. Mas de fato, o que vem sendo chamado de “bolsonarismo” é uma forma de fascismo à brasileira marcado pelo milicianato no poder, pelo elogio histórico à violência e ao militarismo e pela apologia e crença na força bruta. Talvez não seja possível conversar com quem não conhece formas básicas de linguagem e utiliza palavras e frases feitas apenas como armas da violência. O que estamos vivendo é muito grave.

BdFRS – Como o mundo percebe o Brasil a partir das atitudes do Bolsonaro? Márcia – Bolsonaro vem sendo visto como um personagem desumano. Creio que muitos já se deram conta de que o fascismo chegou ao Brasil. Muitos já passaram da fase de perplexidade. Os americanos, que sofrem sob Trump, são especialmente solidários, bem como os países que já passaram pelo fascismo, como a França onde eu estou.

BdFRS – Você está no exílio, assim como Jean Wyllys e outros que não mais se sentiram seguros de viver no Brasil. Como está sendo? Márcia – Não se sentir seguro já é algo muito ruim, mas infelizmente foi pior que isso. As ameaças foram concretas e era preciso tomar providências. Eu fui perseguida e ameaçada de morte inúmeras vezes, mas não só pelas redes e por telefone. Os eventos dos quais participei durante todo o ano de 2018 para lançar um livro chamado “Feminismo em comum” (nome que eu menciono porque o livro sobre o fascismo, odiado pela extrema-direita, era de 2015 e eu já era vilipendiada por causa dele desde 2015), foram invadidos diversas vezes, a ponto de eu ter que andar com seguranças. Vários eventos foram cancelados. Mas eu não levava isso à imprensa e evitava falar. Eu tinha esperança de que passasse porque ainda não havia percebido que se tratava de grupos pagos para cometer esse tipo de crime. Havia é claro, muitos voluntários. Alguns apareciam com camisetas do MBL. Mas o pior foi quando houve ameaças aos espectadores que participavam dos eventos nos quais eu compareceria. Elas não eram banais. Houve pessoas espancadas nos eventos literários dos quais participei.

Se eu não saísse do Brasil, eu poderia colocar em risco a vida de outras pessoas. E mesmo se eu me trancasse em casa e nunca mais saísse não era seguro, pois minha casa sofreu uma estranha invasão em um dia que eu não estava lá. Quando eu cheguei, a porta estava aberta e todas as portas de todos os armários abertas como se alguém estivesse procurando algo. Nada havia sido levado. Meu computador não estava lá e nem meus documentos. Não era seguro morar mais no Brasil.  BdFRS – Com o confinamento houve aumento da violência doméstica. O que fazer? Márcia – Esse é outro imenso problema que vem à tona. Infelizmente também desconsiderado pelo governo nazifascista do momento. A violência dos homens contra as mulheres e crianças é um problema que precisa ser transformado em escala política, cultural e educacional. Mas não há vontade para isso no patriarcado onde ela é incentivada. Precisamos derrubar o patriarcado e, para isso, precisamos eleger feministas, ou seja, pessoas comprometidas com os direitos de todas, todos e “todes”. Eu acredito que esse é um caminho para a produção de hegemonia democrática contra o autoritarismo. Mas também comprometidas com a questão do cuidado e com uma perspectiva ecológica.

BdFRS – O confinamento sobrecarregou ainda mais as mulheres nas tarefas domésticas. Como isso pode ser útil para promover divisão mais igualitária das atividades da casa? Márcia – A consciência feminista avança. Mas o jogo do patriarcado é muito antigo e arraigado. O machismo só produz devastação e destruição, sofrimento e dor, aos poucos mulheres se dão conta disso e buscam emancipação. Enquanto isso, muitas sofrem e morrem sem ter tempo de mudar, ou sem ter chance de mudar, pois muitas mulheres feministas também são mortas por homens vis. O problema é que a desigualdade do trabalho doméstico é apenas um elemento tratado como normal no sistema de opressão. No dia em que as mulheres se derem conta disso, provavelmente não se casarão mais com homens folgados e abusadores. Sequer se casarão. Talvez abandonem também a maternidade, um mito que pesa demais sobre os corpos e mentes femininos.

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