E SE PAPAI NOEL FOSSE NEGRO?

por Gleidson Renato Martins Dias



E se Papai Noel fosse negro?


Sim, já pensou? Como negro? Ora! Porque branco?


Mas respondo: o Papai Noel é meu não é? Então eu o imagino do jeito que eu quiser, do jeito que eu sou, a isto chamamos de identidade, e é extremamente relevante nos sentirmos representados, identificados. Coisa que a branconormatividade impede.

Em meados de 1999 (acho), Talvez no Natal do ano 2000, por ai, tirei uma foto no Shopping Iguatemi com “Papais-Noéis”. Um branco, um indígena e um negro. Foi criado pelo grande e saudoso Joãozinho Trinta. Para mim, este fazer pensar, é tão “revolucionário” como sua grande obra “Ratos e Urubus Rasguem minha Fantasia”.


Mas o negócio é o seguinte se o Noel fosse negro o bicho ia pegar. Mas quando digo negro não é esses ai tá... só por fora. Tipo dos que acreditam em Estado mínimo. A negrura do meu Noel não só somente epitelial, é epistemológica. É ancestral! É Ubuntu!


Meu velho!? O bagulho ia fica doido. Já pensou?


Para começar o cara não iria rir assim sem graça: “Ho Ho Ho! Fala sério. Seria risada de negão. Aquelas altas. Gargalhadas mesmo. Tipo Axel Foley no filme “Um Tira da Pesada”. Lembro que assisti uma palestra do Munanga falando sobre nossas risadas e algo tipo “europeização” do rir. Aquela obrigação de ser “contido/a”... foi foda.


E as roupas mano? Bah! Fala sério. Nunca.... Simplesmente nunca um preto iria sair por ai assim. Logo num dia tão especial. Logo no momento de dar presentes para adultos e crianças. Sem chances! Nunca! Jamais!


Já tô imaginando... Um Blazer da hora, sapato envernizado, todo perfumado... Show! O chapéu Panamá ou boina são opcionais. Lógico que seria estiloso pra caralho. Também poderia estar “bonito” ao invés de “elegante”. Como na música do MC Markinhos e Dollores “Qual a diferença entre o Charme e o Funk?”. No bonito iria estilo “Rapper” Ah sim, não podemos esquecer dos pretos que escolheriam algo mais ligado à tradição de Matriz Africana. Mas com certeza, jamais essa roupa sem graça.


E as músicas natalinas? “Noite Feliz... Noite Feliz....” Assim? Nunca. Nem to falando da letra não (melhor nem entrarmos nisso) Mas to falando do ritmo. Bota uma batida aí fera ou uma boa levada no cavaco. Ah pera aí. Um “Charme” vai bem... Algo tipo “Nobody” de Keith Sweat. Sem falar no ritmo do Atabaque, do N’Goma! Aí Sim! Só na levada do “cabula”, do “barravento”.


E os presentes? Bah! Seria outra coisa. Já disse o cara seria preto raiz. O bagulho é “sou porque somos”. Não teria e nem poderia ter a conotação que tem hoje. Seria algo tipo... fortalecimento do SUS, escolas inclusivas, terra para agricultura familiar, casas decentes para os necessitados. É sério! Traria consciência social, respeito à diversidade, Ia ser bonito de ver. Roupas? Bens? Sim, lógico. Não me venha com socialização da miséria. Iria socializar a riqueza. Até algo como... “O Alquimista” então aprenderíamos a dar outro valor ao ouro, não o sentido capitalista, individualista vigente.


Branconormatividade é foda. A gente não se vê. É tipo não existirmos. Os caras embranquecem tudo, Jesus, Cleópatra, Machado de Assis. A branconormatividade é um tipo de genocídio. Pensando bem, algo tipo a “machonormatividade”. Porque Papai Noél? Já pensou se fosse mulher? E se fosse negra? Ai fodeu mano!


Se fosse Mamãe Noel e negra seria igual a minha mãe. Imaginou? É simples tudo isso que falei seria multiplicado por mil. Mulheres negras tem uma força e conexão com o todo que é inexplicável.


É... Se tivéssemos uma Mamãe Noel Negra tudo seria diferente.


Neste difícil ano de 2020 desejo a você, seus familiares, e as pessoas que você ama um ótimo Natal. Um ótimo Natal dentro destas possibilidades em tempos de pandemia e tantas outras crises.


Se perdeu alguém próximo que a Mamãe Noel Negra possa acalantar tua alma e teu coração.


Se perdeu emprego que a Mamãe Noel Negra possa te trazer o equilíbrio necessário para não pirar e que possa pedir por você a Exú para que ele abra teus caminhos para o pronto restabelecimento financeiro.


Se estiver enferma que nossa Mamãe Noel Negra possa interceder por ti junto à Omulú.


Que neste Natal você possa receber o que precisa para se sentir melhor. Para se fortalecer e enfrentar as centenas, ou melhor, milhares, milhões de lutas diárias, diuturnas e sistemáticas.


Se você for um homem ou mulher branca, que nossa Mamãe Noel possa lhe trazer a consciência da sua branquidade, de sua brancura para combater em si mesmo/a a branquitude.


Que se você, como eu, for homem, que a Mamãe Noel lhe ensine outras masculinidades. Que você possa se desconstruir enquanto macho para se reconstruir enquanto homem.


Que a negrura e negritude desta Mamãe Noel seja em você as energias das nossas guerreiras como Luíza Bairros, Dandara, Luíza Mahim, modificando o seu pensar e o seu atuar em prol de algo mais justo não só para você e os seus, mas para todas e todos nós. * Gleidson Renato Martins Dias é especialista em Direito Público, mestrando em Direito, dirigente Nacional do MNU e Assessor Especial do TCE-RS.