DEVAGAR COM O ANDOR QUE O SANTO É DE BARRO

por Nora Prado (*)


Navegando ao acaso pelo facebok, nesta semana, me deparei com uma postagem que, particularmente, considerei bizarra. Na manchete “Erica Malunguinho (PSOL) propõe a remoção de todas as estátuas de escravocratas de São Paulo.” Em princípio sempre respeitei e admirei a jovem vereadora e devo dizer que também admiro o partido ao qual ela pertence, sempre trabalhando em favor das causas sociais e em benefício das classes mais pobres e oprimidas. Portanto, acho natural e muito bem vindas todas as manifestações e projetos que visam reparar as injustiças e desigualdades sociais, em especial, as questões relacionadas ao racismo e o preconceito de cor e gênero, problemas sistêmicos em nosso país. Erica Malunguinho é uma jovem negra do Recife que veio para São Paulo onde se descobriu uma mulher trans e cursou mestrado em estética e história da arte, trabalhando como professora e arte educadora. Em 2018, aos trinta e seis anos, Erica se tornou a primeira mulher trans eleita para uma assembleia legislativa no Brasil. Suas pautas têm sido sempre em favor das comunidades LGBTQ, dos sem-teto, mulheres e as comunidades negras.


Com todo o seu histórico pessoal, particularmente, no que diz respeito ao seu conhecimento das artes plásticas e o papel fundamental dos monumentos urbanos e o patrimônio cultural que representam, nunca imaginei que um absurdo desses viesse em forma de projeto de lei, visando a sua anulação, justamente por parte quem deveria defendê-los. Concordo plenamente com o fato das motivações colonialistas, racistas e machistas presentes em grande parte de monumentos, bustos, esculturas e parte do acervo imagético brasileiro. Assim como acontece no mundo inteiro, é preciso ressignificar e contextualizar muitas destas obras de arte cuja motivação, não raro, celebra vultos e personagens histórico de caráter duvidoso e comportamento opressor contra os povos indígenas, negros, mulheres e as populações mais pobres, assim como distorce acontecimentos e fatos, revelando a versão do opressor sobre o oprimido.

O Brasil foi fundado à ferro e fogo pela usurpação territorial dos povos indígenas pelos conquistadores portugueses, na sua imensa maioria, que além de exterminá-los como nações e se apropriarem das suas mulheres e exterminar sua cultura e religião, também os escravizaram sem dó nem piedade durante o extenso período colonial. Posteriormente a coroa portuguesa passou a importar escravos africanos, trazidos para cá aprisionados em viagens horrendas nos navios negreiros, num tráfico escravagista desumano e cruel tão bem narrado no poema de Castro Alves, Navio Negreiro. Esse contingente gigantesco de negros africanos, subjugado aos mandos dos brancos portugueses, foram a força de trabalho que construiu o Brasil Colônia dando a forma futura econômica e sócio cultural do país, e cujo sangue, suor e lágrimas jamais serão devidamente reparados.


O trabalho insano de seus braços e corpos, explorados até a exaustão e morte, extraíram as riquezas brasileiras do pau Brasil, o ouro e as pedras preciosas, a borracha e, na sequência, plantaram e cortaram a cana de açúcar, assim como o café que ajudaram a semear nas imensas fazendas paulistas, mineiras e cariocas. A formação do povo brasileiro se sustenta nesse padrão predatório e extrativista que moldou, até hoje, indelevelmente a nossa economia, política, sociedade e cultura, impregnando de tal forma em nosso comportamento, recalcado e oprimido por séculos, o nosso complexo de inferioridade e originando o que, atualmente, chamamos de “racismo estrutural brasileiro”. Com consequências gravíssimas para o nosso atraso e subdesenvolvimento endêmico. Com uma dívida incalculável para com todos os descendentes negros e indígenas, e pior, sem nenhuma vontade política por parte da elite nem da maioria da classe política para reparar esse crime histórico.


Nunca será demais lembrar que o Brasil foi o último país a proclamar a libertação dos escravos do jugo obstinado e perverso dos portugueses. A abolição da escravatura é uma chaga viva e permanente, que atirou à própria sorte, da noite para o dia, milhões de negros que sem terra, dinheiro nem trabalho que , subitamente, viram-se obrigados a permanecer nas casas dos antigos patrões trabalhando sem salário e em troca de casa e comida ou explorados em funções braçais, de toda a ordem, em troca de baixíssima remuneração. Muitos tiveram que fugir para longe dos centros urbanos criando os próprios quilombos onde viviam em comunidades para sobreviverem como seres humanos, se fortalecerem enquanto etnia de raiz africana e, apesar do horror, se constituírem como sobreviventes dignos de uma cultura própria com língua, religião e valores legítimos.


Estudar o lado B da História do Brasil, revelando os seus verdadeiros heróis negros e indígenas, é tarefa hercúlea para os historiadores, pesquisadores, professores, antropólogos, filósofos e artistas que se debruçam sobre os documentos disponíveis aqui, em Portugal, África e outros países e continentes para restaurar a narrativa através do enfoque do oprimido. Restituindo o papel de cada um numa narrativa menos tendenciosa e mais próxima da realidade.


Essa tarefa recém começou e, com grande felicidade, saúdo todas as medidas que enaltecem essa nova perspectiva para que aos cidadãos brasileiros lhes sejam restituídas a sua ampla, rica e própria narrativa. Equilibrando, assim, o protagonismo de índios e negros numa nova versão atualizada da história oficial brasileira.


Nesse caminho de desconstrução das falsas narrativas e dos inúmeros equívocos históricos, sem dúvida, precisamos corrigir essas deformações, mas tendo o cuidado de não impor à força a própria versão, na base da anulação sumária e, como os antigos opressores portugueses, apagando, igualmente, à ferro e fogo os resquícios desta dominação. Sob pena de sermos tão autoritários quanto aqueles a quem condenamos no passado.


Quando começa a faltar o bom senso, eu começo a me preocupar. Pois, caso eu concordasse com os argumentos da deputada Erica, de que todas as obras públicas de monumentos, bustos e esculturas cuja configuração enaltece, erroneamente, um fato ou personagem histórico, fosse condenado a ser destruído, imaginem quantas obras de arte colossais nós perderíamos? Pensem na grandeza escultórica e a beleza magistral do Monumento das Bandeiras, erigido pelo talentoso Victor Brecheret, um dos maiores escultores brasileiros, que dentro desta lógica, obliterada, seria demolido da noite para o dia? Perderíamos um dos mais belos patrimônios do país. Esse gigantesco monumento esculpido em pedra é de uma beleza e força incontestes, que merece respeito e conhecimento, antes de tudo. Preservar o patrimônio histórico brasileiro é um dever do Estado Democrático de Direito, no qual vivemos, ainda que neste período obtuso até pareça o contrário, mas sobretudo, da classe política do poder legislativo brasileiro; que se ocupam das leis em benefício da sociedade que, antes de tudo, deveriam estudar, minimamente, a história da arte brasileira ao invés de sugerir o seu cancelamento ou destruição sumária.


Se há equívocos de cunho político e histórico neste monumento, como de fato há nas motivações para celebrar os Bandeirantes com suas torpes e cruéis conquistas no território paulista, ou em qualquer outro, é preciso contextualizar e chamar atenção para isso, mas jamais propor destruí-los. Talvez a deputada que, até então, sempre teve minha admiração e respeito, pudesse se ocupar em conhecer mais a respeito dos artistas envolvidos nas obras, antes de sair por aí propondo absurdos desta natureza. Ainda mais se cursou História da Arte e Estética. Aliás, uma ótima proposta em relação à essa, incômoda e ambígua questão, seria algo de cunho didático e educativo. Sugiro uma análise formal, estética e histórica apontando os paradoxos, verdades e mentiras sobre cada fato e vulto histórico a partir de cada uma destas obras. Além de convocar artistas e historiadores para aprofundarem e contextualizarem cada aspecto conflitante entre os fatos históricos retratados e presentes em cada obra, esse levantamento minucioso e amplo, resultaria numa cartilha para o ensino médio com direito a um filme com igual conteúdo. Esse material, posteriormente, seria integrado ao currículo nacional de educação, e faria parte dos conteúdos de história, geografia e artes. Uma ótima oportunidade de ampliar o debate sobre a formação do povo brasileiro através da arte. Acredito que prestaria um enorme serviço à cultura nacional, além de revisar os erros históricos. Antes que, seguindo essa lógica maniqueísta e simplista, além de subtrair de toda a obra de Monteiro Lobato algumas passagens racistas, também pretendam queimar a sua obra significativa e monumental.


Num país sem memória, como o nosso, talvez seja mais producente formatar uma lei que permita e garanta um “direito de resposta artística” para cada escultura, busto ou escultura que deturpe a história, tenha uma outra escultura, busto ou monumento, erigido por um artista brasileiro e contemporâneo, para contestar a sua visão de acordo com os fatos. No fim das contas todos nós ganharíamos, pois, além de revelar novos artistas e oportunizar a visibilidade da arte em locais públicos, como praças e parques, as novas obras dialogariam com a história sendo motivo de interesse e vontade de saber mais a respeito do nosso passado.


Antes de jogar fora a água suja da bacia, certifique-se sempre de que ela está vazia, para não correr o risco de jogar fora o bebê junto com a água.

Aos incautos e precipitados, movidos apenas pela cegueira da paixão reativa, eu alerto: “Devagar com o andor que o santo é de barro.”


Porto Alegre, 6 de janeiro de 2021.


* Nora Prado é atriz, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.