DECRETO ALTERA DATA DE EXONERAÇÃO DE WEINTRAUB, APÓS MP QUESTIONAR O TCU SOBRE ATUAÇÃO DO ITAMARATY


O Ministério Público quer saber se o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub se aproveitou da condição de ministro, mesmo não estando mais no governo, para obter um visto especial que autoriza entrada imediada nos EUA. Acuado, o governo do presidente Jair Bolsonaro está cambaleando, tropeçando nas próprias pernas e, pouco a pouco, vai perdendo a blindagem que impedia de ser atingido, inclusive pelas leis. Por isso, nesta terça-feira (23/6), o “Diário Oficial da União” publicou um decreto do presidente, em que altera a data da exoneração do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. A demissão do polêmico ex-ministro foi antecipada para sexta-feira (19/6), um dia antes de Weintraub chegar a Miami, e não mais no sábado (20/6) como havia sido publicado inicialmente. A exoneração foi alterada um dia depois do Ministério Público pedir que o Tribunal de Contas da União (TCU) apure a eventual atuação do Itamaraty na viagem de Weintraub aos EUA.

A gestão de Ernesto Araújo no Itamaraty (foto abaixo) é vista como desastrosa por analistas e estudiosos de todo o mundo. Araújo retirou o Brasil de fóruns regionais como a Unasul e a Celac, fechou sete embaixadas na África e Caribe e submeteu o país aos EUA. Porém, a alteração da data da exoneração de Weintraub coloc Araújo em uma situação, no mínimo, embaraçosa, em função de um decreto do governo norte-americano no qual determina que cidadãos de algumas nações, entre as quais o Brasil, devem fazer quarentena antes de entrar no país. Entre as exceções do decreto norte-americano sobre quarentena para a entrada de brasileiros nos Estados Unidos, estão ministros de Estado.

Weintraub deixou o governo depois de se envolver em uma série de polêmicas e de ofender ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é alvo de duas investigações na Corte: uma apura a ofensa aos ministros e a outra apura suspeita de declarações racistas contra o povo chinês. Weintraub chegou a dizer que, quando saísse do governo, deixaria o país o mais rápido possível.


CREDIBILIDADE DESTRUÍDA


O historiador Carlos Malamud, apontado como um dos 50 intelectuais ibero-americanos mais influentes pela revista espanhola “Esglobal” e hoje pesquisador do Real Instituto Elcano, em Madri, afirmou que o Brasil se encontra no maior isolamento diplomático dos últimos 50 anos. Em matéria publicada pelo site www.brasil247.com, Malamud diz que a boa fama da diplomacia brasileira “está se dilacerando” na Europa e atualmente “seria impensável” ver o Brasil à frente de grandes coalizões de países emergentes em fóruns multilaterais, como ocorreu no passado. A destruição da imagem do Brasil está relacionada ao discurso de Ernesto Araújo sobre a questão ambiental, a subordinação do país ao governo de Donald Trump e a postura de Bolsonaro de desleixo em face da pandemia de Covid-19.  


O distanciamento da atual gestão do Itamaraty de posições anteriormente defendidas pela diplomacia brasileira é tanto, que a Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB) manifestou o temor de que representações do país no exterior e seus profissionais passem a ser alvos de ataques, por conta de atitudes como a promessa de mudança da embaixada em Israel para Jerusalém e do apoio ao ataque americano que matou o general iraniano Qassem Soleimani no Iraque. A reportagem cita a ironia do diplomata aposentado Roberto Abdenur, ex-embaixador em Washington. Ele diz que o Brasil hoje só tem “três países e meio” como amigos: Israel, Hungria e Polônia. “Meio são os Estados Unidos, porque estamos excessivamente alinhados com as ideias do Trump e antagonizamos com a outra metade, os democratas”, afirmou Abdenur, em um seminário virtual da ADB, na semana passada.

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