A PRIMEIRA SEGUNDA-FEIRA DE 2021 NOS MOSTRA A DIGNIDADE HUMANA NOS HORIZONTES DA VIDA

Por Alexandre Costa (*)

A primeira segunda-feira de 2021 é uma demonstração de que o ano será de muitas cizânias, desavenças, discórdias e discussões incandescentes. Este 4 de janeiro é o prelúdio das inúmeras contradições, controvérsias e polêmicas que ainda virão.


O Brasil contabiliza cerca de 200 mil mortes pela Covid-19 e, mesmo assim, parte da população teme a vacina, demonstrando que a ignorância se sobrepõe à ciência. Influenciado pela religião e por sonhos divinos, o rebanho agoniza sem perceber que vem sendo ameaçado pelo vírus, pelo desemprego e pela miséria. O bordão “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” se transformou em um slogan macabro e cruel.


Enquanto isso, o governo do presidente Jair Bolsonaro tropeça no tempo e escorrega na sua própria incompetência. Por trás da falta de iniciativas, nesta verdadeira corrida pela vacina do coronavírus, se escondem interesses difusos.


O atraso do governo Bolsonaro tem como objetivo beneficiar economicamente grupos que trarão a salvação para o Brasil. Ao retardar ao máximo a compra da vacina, de seringas e de agulhas, Bolsonaro abre espaço para a iniciativa privada lucrar a partir da tragédia que atinge o seu povo e o seu país.


Talvez por isso o governo não tenha um calendário e tampouco critérios definidos para a vacinação. Ou seja, quem tem dinheiro paga; quem não tem, espera. Seja como for, essa já é a lógica deste mundo cruel que divide pobres e ricos.


Mas o silêncio que calou os brasileiros em 2020 parece transbordar pelos poros e está mesmo com os dias contados. Todos sabem que existem motivos de sobra para fazer de 2021 um ano de luta, de resistência e de embates.


Tudo leva a crer que todos os gritos de protestos que estão engasgados em função da pandemia vão se libertar a partir de agora.


A passividade imposta pela Covid-19 dará lugar à efervescência que arde e pulsa em busca de direitos e de dignidade. É preciso ressaltar que 2020 deixou uma herança que cresce e se fortalece a cada dia. Um bom exemplo é o “Vidas Negras Importam”, um grito que rompeu as fronteiras do mundo em busca de justiça.

E há tanta justiça por fazer neste país tão rico e com tantos miseráveis. Porém, os brasileiros já estão cansados. As esperanças escorregam dos sonhos e teimam em voltar para esse chão árido, seco e espinhoso chamado realidade. Não é por menos, a política brasileira parece um beco sem saída, uma espécie de labirinto repleto de minotauros sedentos de arbítrio e aquartelados em busca de poder.


Por isso, é preciso ter olhos para o amanhã. É como citou o Emicida, no documentário AmarElo: "Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje. Neste sentido, o exemplo da bancada negra que se negou a cantar o hino racista do Rio Grande do Sul é extremamente importante e valioso. O racismo estrutural tornou invisível o verso que diz: “povo que não tem virtude acaba por ser escravo’.


A palavra dos negros, silenciada e oprimida por anos, se transforma na voz de todos aqueles que enxergam a dignidade humana nos horizontes da vida.


Alexandre Costa é jornalista.