30 ANOS DA I MOSTRA DE TEATRO DE RUA DE PORTO ALEGRE- UMA ORGANIZAÇÃO DA CULTURA POPULAR - 1991-2021

Hamilton Leite (*)

Faz algum tempo que penso que seria necessário para a história do teatro de Porto Alegre e Rio Grande do Sul, escrever, e se deter sobre uma prática que sumiu das ruas durante a ditadura civil-militar, o teatro de rua e sua organização na redemocratização de nosso país, em especial em nossa cidade Porto Alegre.


Em 1984 me transferi para a Escola Estadual Júlio de Castilhos, que ficou marcada neste ano como o maior levante secundarista dos últimos anos, greves estudantis e confrontos com a polícia pelas Diretas Já. Nesse e nos anos que se seguiram comecei a ver as passeatas e manifestações teatrais de rua, pontuais com o Ói Nóis Aqui Traveiz.


A efervescência cultural que já aparecia no Bom Fim, Cidade Baixa, na UFRGS com o Unimúsica, Unicena, Unifilme, Unidança e 12:30, os shows no Araújo Viana, o antigo Teatro do Museu do Trabalho, começou a tomar conta das ruas.


Perdemos as diretas já...Um dos argumentos fortes na época foi que o povo não sabia votar. Ironicamente, por mais de duas décadas foi proibido votar e realizar atos democráticos. Mas já se respirava no ar democracia e rebeldia e após sair do ensino secundarista e conviver com muitas manifestações fui em direção à Casa de Cultura Mário Quintana, que começou a ter um Núcleo de Artes Cênicas, mas veja bem, antes de ser a CCMQ de hoje, era o Hotel Majestic, fechado e em estado de ocupação, isso já em 1986. Ali comecei minha trajetória teatral há 35 anos atrás.


Em 1988 Porto Alegre “pegou fogo”, não como a Amazônia hoje em dia, mas sim nas discussões e manifestações ecológicas e ambientais na luta por uma orla para todas pessoas contra os arranha céus, um projeto de grandes torres de edifícios na beira do lago Guaíba, a questão da rua e dos espaços públicos da cidade se tornou uma bandeira.


Foi neste ano que Porto Alegre elegeu um novo prefeito e uma Administração Popular, uma alegria tomou conta da cidade... Mas a realidade foi cruel e assumir a prefeitura nos primeiros anos não foi nada fácil, intervenção nos ônibus, dívidas a pagar, obras que haviam sido inauguradas e não concluídas. Mas iniciou a participação popular.


Em 1989 começou o orçamento participativo, pela primeira vez a população pôde opinar pelo destino da cidade e se organizar coletivamente, e nesta onda de redemocratização se consolidaram movimentos populares, um deles de teatro de rua, que pelo processo democrático levou à organização dos grupos de teatro de rua da cidade de Porto Alegre, pela necessidade dos grupos de se agruparem em um Movimento.


Em 1989 comecei a ver pessoas ensaiando os primeiros passos em pernas de pau na travessa dos Cataventos na CCMQ, por sempre estar pela Casa me aproximei e comecei uma grande relação, surgindo a Oficina Perna de Pau. Começamos a fabricar nossas próprias pernas de pau com madeira que achávamos na casa de cultura, da obra que começava em passos curtos.


Fazíamos intervenções de uma família com seus personagens em Pernas de Pau, com figurinos e maquiagens coloridas ao final de tarde na Rua da Praia, intervenções na Feira do Livro (naquela época se podia fazer isto) e quem organizava a feira adorava... outros tempos, o teatro de rua começava a tomar as ruas da cidade.


Nesta mesma época surgiram outros grupos na cidade, e se formou o Movimento dos Grupos de Teatro de Rua, o trabalho em grupo foi uma das características iniciais deste trabalho cênico.


Mas não podemos deixar de falar que em Porto Alegre desde 1987 tivemos uma Secretaria Municipal de Cultura- SMC e desde 1990 o CODEC, Conselho de Desenvolvimento Cultural passou a ser Secretaria de Estado da Cultura – SEDAC/RS, tendo assim a cultura suas devidas Secretarias de Cultura. Tivemos os defensores da valorização da cultura tendo uma pasta própria, mas por outro lado, de todas as administrações ainda foi a mais pobre de todas as Secretarias, pois se separou da Educação e não levou um orçamento digno, mas levou museus, teatros e muito mais.


Os grupos de Teatro de Rua começaram a se reunir, e um dos primeiros encontros foi na casa do estudante da Riachuelo, depois da CEU da João Pessoa, na Terreira da Tribo na José do Patrocínio e assim foi se consolidando no ano de 1990 a proposta da I Mostra de Teatro de Rua, que foi apresentada para ambas as Secretarias de Cultura,a Municipal e a Estadual.


Uma Administração Popular e o Teatro Popular, a união dos grupos de teatro de rua em um Movimento dos grupos era uma parceria que parecia dar certo muito maiscom a municipalidade.


A I Mostra de Teatro de Rua foi organizada pelos grupos e não tinha caráter de Festival, mas sim de festa. Infelizmente não teve financiamento de nenhuma das duas secretarias para o projeto piloto que foi desenvolvido em janeiro de 1991, e já projetávamos para 1992 a II Mostra de Teatro de Rua e o Encontro Nacional de Teatro de Rua.


A Coordenação de Artes Cênicas – CAC/SMC simpatizou com a ideia e propôs produzir um programa(material impresso que foi entregue posterior ao evento), e se comprometeu a projetar uma verba no orçamento para 1992. Aqui se construiu a I Mostra de Teatro de Rua organizada pelo MGTR de Porto Alegre, que foi exemplo de organização para outros estados do país.


A data da I Mostra de Teatro de Rua foi entre 7 a 12 de janeiro de 1991, na época Porto Alegre tinha uma grande circulação nestes dias iniciais de janeiro de pessoas do Interior e da Capital pelo vestibular da UFRGS, e em contraponto às ditas férias, já que a grande maioria dos trabalhadores não viajava no verão.O local para realização neste primeiro momento parecia óbvio, a Esquina Democrática, símbolo da cidade e da redemocratização do país com seus discursos pela democracia e a liberdade de expressão, eu mesmo já havia falado algumas palavras ali em 1984 pelas Diretas Já, como secundarista do Julinho.


Foi uma produção e organização coletiva que contou com a participação dos cinco grupos que atuavam na época em Porto Alegre sem receber nenhuma verba pública.Assim nasceu a I Mostra de Teatro de Rua.


A divulgação foi realizada nos meios de comunicação e com grande repercussão nos jornais da cidade, matérias de capa e de página inteira principalmente na abertura e no fechamento, mas com acompanhamento diário e comentários de jornalistas locais, o resultado foi muito forte e abrangente. O público aplaudiu muito durante o cortejo e em todas asapresentações, se respirava no ar algo que não acontecia há muito tempo...ou nunca tinha acontecido em Porto Alegre, foi a partir daí que o Teatro de Rua começou a ganhar espaço nos Festivais do Interior que já existiam como Canela e Pelotas, e no país.


Mas como se tratava de Teatro de Rua não faltou cartaz de rua, típicos dos anos 80 e 90, produzido pelos próprios grupos, e panfletos que foram distribuídos com a programação que mostrou que a rua fazia formação de público, pois as apresentações eram no final de tarde 18h nos dias de semana e sábado 12h,no horário da saída do trabalho, e muitas pessoas voltavam no dia posterior e na semana todaparaacompanhar todos os espetáculos.


A programação contou com uma abertura coletiva no dia 07/01 às 18h com um cortejo com pernas de pau, figurinos coloridos, muita maquiagem e instrumentos musicais,pelas principais ruas do Centro de Porto Alegre.


Apresentações:

8/01 – 18h: Tribo da Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz – “A Dança da Conquista”

9/01 – 18h: Oficina Perna-de-Pau – “A Donzela, O Marinheiro e o Estudante”

10/01 – 18h: Alcatéia – “O Espantoso Espetáculo Espacial de Stuart & Sherman”

11/01 – 18h: Cia Teatral D’Rua – “Prometeu-Fogo aos Seres Sem Luz”

12/01 – 12h: Rapazes do Pé-de-Palco – “Faltou Dinheiro na Praça”


No improviso do dia 13/01 no Brique da Redenção, aconteceu o encerramento da I Mostra de Teatro de Rua, ainda maisuma Manifestação de encerramento, quando os integrantes fizeram uma passeata contra a Guerra do Golfo Pérsico, que estava em seu início.


Nascia há 30 anosa primeira grande manifestação popular de artes cênicas de grande repercussão e organizada pelo Movimento dos Grupos de Teatro de Rua de Porto Alegre.


“(...) O Teatro de Rua não busca a complacência dos inimigos da arte, busca sim o afeto e o respaldo das pessoas que não têm acesso aos supermercados culturais. O teatro que nasce e cresce ao ar livre está ligado às necessidades mais fundamentais dos que perderam a sua identidade como indivíduos e como um povo no naufrágio de fumaça, ruídos e concreto armado das grandes metrópoles, que delatam a barbárie de nossos tempos.

O teatro de rua é algo assim como uma fonte pródiga e coletiva de aridez traçada por semáforos, imposições, esquinas e solidões. E um espetáculo é como uma zona franca, onde persistem as cores, a música, os corpos, as palavras, as cumplicidades e a esperança...”


(Parte do texto do panfleto de divulgação da I Mostra de Teatro de Rua de Porto Alegre -1991, Extraído do Manifesto do Encontro Internacional de Teatro de Rua, em Bogotá)


Assim foi a I Mostra de Teatro de Rua. A SMC comprometida com sua política de descentralização cultural, entendeu que o acesso às diversas formas de expressão artística é uma questão de cidadania.


Foi assim consolidada a I Mostra de Teatro de Rua organizada através da participação de todos os grupos do MGTR de Porto Alegre com o modesto apoio da Administração Popular, mas com a promessa de uma grande continuidade em 1992.


“Depois deste evento, em que se pretendia consolidar como parte do calendário cultural da cidade, virão outros, com o objetivo de expandir ainda mais o seu alcance e procurando trazer para cá grupos de outras cidades e países. A Rua como Palco e o povo não apenas como plateia, mas como um ator que intervém para ajudar a contar uma história, que pode ser a sua própria história. Um espaço artístico essencialmente democrático. O público, na sua dimensão mais ampla, em contato com a manifestação artística. Assim é o Teatro de Rua.” (texto da Coordenação de Artes Cênicas –SMC no programa impresso da I Mostra - 1991).


E veio 1992 e o Encontro Nacional de Grupos de Teatro de Rua com quatro grupos nacionais Galpão (MG), Tá na Rua (RJ), Fora do Sério(SP), Imbuaça (SE) e Gigantes e Palhaços(Argentina), além dos grupos locais.A II Mostra e o I Encontro Nacional seria bianual, e foi transferida de janeiro para a Semana de Porto Alegre e ocorreuem março de 1992, porque assim teria uma verba específica todos os anos pelo orçamento da cidade, mas isso é assunto para outro texto e os anos posteriores nos mostraram que a política cultural pode ser ...mais política, que cultural.


Em 2021 estamos em tempo de pandemia, fomos os primeiros a parar e seremos os últimos a voltar. Pensamos em reeditar a Mostra de Teatro de Rua em um ano tão simbólico, 30 anos se passaram, mas o momento é de exigirmos vacina para todas as pessoas e auxílio emergencial. Esperamos que em 2022 possamos comemorar e que tenhamos uma linda Mostra de Teatro de Rua e quem sabe o II Encontro Nacional de Teatro de Rua, 30 anos depois com políticas de estado para o teatro de rua.


(*) Hamilton Leite – Artista na função de ator, diretor, dramaturgo, produtor e oficineiro. Foi integrante do grupo Oficina Perna de Pau(1989-1997); Participou da organização e produção de 10 das 11 Mostras de Teatro de Rua de Porto Alegre; Criou a 1ª Escola de Circo de Rua Itinerante em 1997 em Porto Alegre; Formado em Licenciatura pelo DAD-IA-UFRGS/97; Em 1998 fez intercâmbio e trabalhou com o grupo Teatro de Los Andes – Sucre/Yotala – Bolívia; Fundou em 1999 a Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, que integra até hoje.