2020 O ANO QUE NÃO COMEÇOU E NÃO TERMINOU

por Nora Prado *

O ano de 2020 já entrou para a história sob os mais diversos motivos, além do principal deles: a pandemia de conavírus que matou milhares de pessoas no mundo inteiro e alterou a rotina, indelevelmente, nos confinando dentro de casa e impondo o distanciamento social por mais de dez meses consecutivos. Só por isso o ano já foi sui gêneris, para dizer o mínimo. Mas justamente por ter alterado a rotina, como nunca antes, temos a incômoda sensação de que o ano não começou de fato, assim como, inexplicavelmente, também não terminou.

imagem: reprodução / facebook


Essa estranha impressão de hiato, de estarmos presos num imenso parêntese suspenso no tempo é dada pela sensação de incompletude que a supressão da rotina causou. Evidente que houve uma nova rotina e tempo transcorrido também. Mas não da forma como estávamos acostumados. As aulas não iniciaram, propriamente, pois foram suspensas ainda em março, e mesmo que algumas escolas tenham voltado, presencialmente e com os protocolos de proteção, não foi suficiente para dar a sensação de início, meio e fim. Claro que isso aconteceu de forma remota, através de cansativas aulas via internet pelo computador, e justamente por isso, porque o comércio e centenas de serviços também pararam ou foram alterados, drasticamente, ainda sentimos esse estranhamento de quem não viveu realmente o ano como deveria.


É possível que para os russos, ingleses e europeus que estão recebendo a vacina agora, com grande alívio e esperança, a sensação de encerramento de um ciclo tenebroso seja palpável e, simbolicamente, haja razões para comemorarem o Natal e o Ano Novo mas, especialmente, para nós brasileiros atordoados semanalmente por alguma barbaridade feita pelo presidente, isso é impossível.


No balanço geral que esta época evoca em cada um de nós, percebo com apreensão e revolta os estragos feitos pelo presidente e seus ministros, igualmente toscos e despreparados, que atravancam a vida nacional e envergonham a nação, diariamente, nacional e internacionalmente. A última delas, feitas pelo ministro da Saúde foi dizer que só consideraria a vacinação em massa caso houvesse demanda. Oi???!!! Como se mais de 200 mil mortos pela doença, as UTIS do país lotadas, o nível de contágio com as bandeiras vermelhas ou pretas, os testes inutilizados apodrecendo e as toneladas de hidroxicloroquina sem função, não fossem motivo ou demanda suficiente para a logística da vacinação ser o principal assunto em pauto no governo e essa operação ter iniciado há meses?


Em meio desse genocídio percebemos o sadismo do presidente ao declarar, em êxtase, a isenção de taxas para a importação de armas de fogo enquanto taxa os livros, instrumentos musicais e minimiza a pandemia tratando por “gripezinha”, provocando aglomerações, dispensando o uso da máscara e dando péssimo exemplo aos seus fanáticos seguidores que imitam o comportamento deplorável do presidente. Sua declaração infeliz de que a vacina não deveria ser obrigatória surtiu efeito em seus apoiadores, mais boçais e estúpidos, que agora se negam a tomar vacina, espalham boatos absurdos e, ainda por cima, fazem protesto contra a vacinação em massa em São Paulo. Por mim poderiam morrer todos abraçados, mas infelizmente esse gado bandido pode infectar muita gente ao seu redor e por isso é necessário a vacinação geral e irrestrita. De todo modo enquanto até os EUA já começam a vacinar a população, no Brasil não há um plano sério para essa questão, apenas uma missa em homenagem às vítimas, simplesmente patético!


Não bastasse isso, os incêndios no Pantanal, devastação da Amazônia, ameaças às áreas de preservação, negação do aquecimento global, são alguns dos motivos para que o Brasil de Bolsonaro tenha ficado de fora da Cúpula do Clima que gira em torno do Acordo de Paris.Com as políticas de “passar a boiada” de Ricardo Salles nossa Amazônia com os maiores índices de desmatamento está prestes a deixar de ser uma floresta tropical e se transformar numa savana. Ou seja, um inferno sem volta.


Embora muitos eleitores do mito tenham se arrependido publicamente, inclusive na área política, o seu índice de aprovação continua alto para meu espanto e contrariedade. Com provas robustas de crime em família no esquema das “rachadinhas” do filho Flávio Bolsonaro na ALERJ, o escândalo dos depósitos até na conta da primeira-dama e o aparelhamento da ABIN para apagar o incêndio, interferindo a favor do criminoso, são provas de que o presidente governa em benefício próprio e da família e está se lixando para o país. O tribunal de Haia está analisando as denúncias contra ele nos incêndios e desmatamentos criminosos na Amazônia e este rosário de infrações, num país sério, já seriam suficientes para o seu impeachment sumário.


Mas o “almofadinha”, Rodrigo Maia, que é quem deveria fazer o pedido está atrelado aos próprios interesses e prefere morrer amarrado ao seu bandido de estimação.


As críticas, sem noção, do outro filho alucinado, Eduardo Bolsonaro, contra a China quase fez ruir as relações diplomáticas de décadas com o principal parceiro comercial do Brasil. Desemprego em massa, inflação galopante, baixíssimo crescimento e agora a queda no índice de desenvolvimento humano (IDH) em cinco pontos nos coloca abaixo do Peru e Colômbia.


Enfim, no âmbito político, econômico e social a coisa está tenebrosa, e ainda estamos nos recobrando da última eleição para as prefeituras. Embora a maioria dos candidatos apoiados pelo Bolsonaro tenham naufragado, as candidaturas da esquerda não emplacaram. Mas temos que reconhecer que deram bastante trabalho, especialmente Guilherme Boulos em São Paulo e Manuela d`Ávila em Porto Alegre. Espero que as suas lideranças tenham aprendido a lição e se unam numa frente ampla em 2022.


Na vida pessoal, apesar do distanciamento social, pude trabalhar como atriz em quatro projetos maravilhosos. Dois deles com o Coletivo Entrada de Emergência nas minisséries “O Tráfico das Virgens Mudas” e “Suíte Armário Dourado”, com Deborah Finocchiaro e sua Cia. de Solos e Bem Acompanhados ao lado de Luis Alberto Cassol, encarnei uma das personagens de “CONFESSIONÁRIO - Relatos de Casa”, sobre abuso e violência doméstica e, finalmente, gravamos “Lendas da Amazônia”, narrativas do meu solo com histórias infanto juvenis. Também escrevi bastante crônicas, mas, principalmente, poesia. Finalizo o ano selecionando os poemas para o meu próximo livro a ser lançado no primeiro semestre de 2021.


Como presente de fim de ano minha filha, Valentina, passou em primeiro lugar no curso Escrita Criativa na PUC e fui convidada pelo Alexandre Costa para escrever nesta Coluna integrando um time pra lá de talentoso. Sigamos unindo forças e contribuindo para a cultura local como respiro e fonte de inspiração para um mundo melhor.


Porto alegre, 16 de dezembro de 2020.


* Nora Prado é atriz, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.