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COM APOIO DA GRANDE IMPRENSA, MORO E ALIADOS APRESENTAM VERSÃO PARA CRIMINALIZAR GLEEN GREENWALD


Enquanto o The Intercept Brasil publicava a 12ª parte da série de reportagens sobre "as mensagens secretas da Lava Jato", a grande imprensa dava suporte à operação montada pela Polícia Federal para criminalizar o jornalista Gleen Greenwald. A lógica apresentada pelos telejornais da imprensa tradicional aponta para o caminho armado pelo ministro Sérgio Moro. Ou seja, ao invés da imprensa buscar informações sobre o maior escândalo político da história do Brasil, envolvendo políticos, juízes e procuradores da República, preferiu cumprir o papel de “chapa branca”, direcionando suas forças para a operação da PF que investiga a invasão de celulares.

Evidentemente, a linha adotada pela imprensa foi arquitetada para retirar Moro do olho do furacão, pois a versão dá ênfase ao crime de invasão dos celulares, como sendo algo extremamente grave, pois atinge personalidades como ministros procuradores, políticos e o próprio presidente da República.

Assim sendo, o jornalista Glenn Greenwald passou a ser visto como cúmplice de Walter Delgatti no hackeamento dos celulares. A estratégia é criminalizar Gleen, que pode ser deportado em função de uma portaria expedida às pressas pelo ministro Sérgio Moro, por ter recebido o material dos supostos hackers e por ter vendido-o na forma de conteúdo jornalístico.

A estratégia é exatamente essa: ignorar os direitos de Greenwald, que como jornalista pode proteger a sua fonte, com o anonimato; e de apresentá-lo como um associado aos criminosos, inclusive tendo lucros a partir do material obtivo de forma criminosa.

O fato do hacker ter citado Manuela D’Ávila (PCdoB) como a pessoa que teria passado o contato de Gleen a ele, o que foi confirmado pela ex-candidata a vice na chapa de Fernando Haddad (PT), serviu como uma luva para a versão apresentada nos telejornais.

Cabe lembrar que a PF entrou no caso para desvendar o hackeamento dos celulares e não para investigar supostas irregularidades cometidas pelo então juiz Sérgio Moro e pelos procuradores da Lava Jato.

Desta forma, algo me leva a crer que existe uma armação sendo gerada envolvendo os quatro hackers presos. Arrisco dizer que estão preparando uma notícia bombástica que provavelmente está sendo alinhavada pela imprensa tradicional a pedido da força tarefa encarregada de salvar Moro. Não há de se duvidar que tudo já esteja armado a partir do bloqueio dos valores de bitcoin dos quatro hackers presos na Operação Spoofing. Pode ser algo que faça o público acreditar que houve pagamento aos hackers pelo material obtido ou relacionado a suposições e evidências sobre a procedência das criptomoedas.

Para fechar a trama que inocenta o ex-juiz e sua quadrilha, nesta sexta-feira (26/7) o deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) protocolou na Procuradoria Geral da República (PGR) pedido de prisão temporária de Glenn Greenwald para "melhor apuração dos fatos".

Diante do roteiro montado para salvar Moro, o Brasil se vê frente a uma triste constatação. A imprensa se omite diante de fatos extremamente graves e sucumbe aos interesses de grupos políticos ultraconservadores. Nesta lógica, vulgar e grosseira, deixa de cumprir seu papel na sociedade, evitando, de forma covarde, aprofundar os fatos publicados pela série de reportagens do Intercept. É a imprensa que dá suporte à versão frágil e inconsistente do ex-juiz e dos inescrupulosos procurados.

Por outro lado, a notícia sobre o hackeamento de celulares tem sido dimensionada de forma, no mínimo, equivocada pela grande imprensa. O fato que pode ser considerado uma bomba como notícia está no conteúdo publicado pelo Intercept e não no vazamento e seus responsáveis. Do ponto de vista do jornalismo, é evidente que o conteúdo dos vazamentos tem maior impacto e do que a fragilidade e a vulnerabilidade do sistema de comunicação das autoridades que tiveram violada a sua privacidade.

Neste sentido, voltamos à 12ª reportagem publicada pelo Intercept, mais exatamente para a matéria assinada por Amanda Audi, Leandro Demori, Rafael Moro Martins, e que revela mais um crime cometido pelo procurador Deltan Dallagnol. Ele recebeu R$ 33 mil para dar uma palestra, em março de 2018, contratado pela Neoway, uma empresa investigada por corrupção pela Lava Jato. A Neoway é uma companhia de tecnologia e, pelo que foi apurado pela equipe do Intercept, não pagou apenas pela palestra. Deltan também aproximou a Neoway de outros procuradores com a intenção de comprar produtos para uso da Lava Jato. Ele chegou a gravar um vídeo para a empresa, enaltecendo o uso de produtos de tecnologia em investigações, pois a Neoway vende softwares de análise de dados.

Cabe à própria imprensa refletir sobre o seu papel vergonhoso neste triste período da história do Brasil.


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