Onde foram parar os nossos sonhos de paz e de felicidade?


Estamos vivendo tempos difíceis. O mundo está em erupção, como lançasse um mar de lavas incandescentes, carregadas de dor e tristezas, sobre tudo e contra todos. O nosso instinto bélico não poupa nem mesmo as crianças. É preciso muita frieza mesmo para explicar as razões de termos tanto futuro interrompido, de milhares e milhares de inocentes que agonizam nos escombros das guerras. Guerras que se alastram e dizimam povos. Vivemos a geografia da destruição e, sem perceber, nossos dias são a mais pura tradução do inferno. A crueldade da pólvora, das armas químicas e atômicas, é a mesma que silenciosamente banaliza a subnutrição.

O mundo contemporâneo nos faz viver sem pensar e nos torna incapazes de sentir compaixão ou solidariedade com quem quer que seja. Nossos dias não são nada mais nada menos do que noites disfarçadas neste mísero feixe de luz que ainda nos permite ver a imagem horrenda do que nos tornamos. Nós, humanidade como um todo, habitantes de um mundo hostil, minuciosamente dividido por fronteiras e pela exploração da vida e da morte. É difícil olhar no espelho, enxergar a imagem dos nossos próprios olhos, e permanecer insensível à dor estampada no rosto dos muitos que sofrem, enquanto a boca covardemente cala e silencia.

Passivamente, assistimos verdadeiros banquetes de fome e de miséria em pontos distintos do planeta. Esse é o retrato da tristeza que se espalha mundo a fora, por cada centímetro de terra e que a cada dia mata um pedaço de nós. São refugiados de diferentes continentes, moradores de rua de muitas cidades, sem terra, sem teto, desempregados, famintos de olhos esbugalhados, retirantes e invasores do mundo civilizado.

São eles a nossa própria tradução?

Será este um prenúncio da barbárie e do nosso próprio fim?

Quanta dor invisível tem sido celebrada nas missas brancas, enquanto corpos se contorcem nos terreiros de umbanda à espera do preto velho salvador. Os tambores que nos fazem sonhar os sonhos de uma vida melhor, como se fosse a dança da chuva que se desmancha em pingos grossos de esperanças. Assim é o mundo pardo que resiste ao preconceito e a intolerância, exibindo as feridas e a alma digna dos que nunca deixaram de amar. Rezamos ao som dos sinos em grandes templos de fé na tentativa de compreender porque estamos cada vez mais humanamente desumanos, separados de nós mesmos por ideias, crenças, gênero e cores.

Escrever é uma forma de resistir, de denunciar e de acreditar que as palavras, ainda que melancólicas, terão um efeito mágico capaz de interromper ou amenizar nossas culpas frente à impotência dos questionamentos inevitáveis.

Fica a reflexão: Onde foram parar os nossos sonhos de paz e de felicidade?


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