MAIS QUE UMA VITÓRIA, ESTUDANTES OCUPAM ESCOLAS E NOS DÃO AULA DE CIVILIDADE E CIDADANIA


Os estudantes que ocuparam as 150 escolas da rede estadual de ensino desde o dia 16 de maio deram uma aula de cidadania e de civilidade à sociedade gaúcha. Neste período de quase um mês, estes jovens organizaram um movimento político que rompeu o acomodado silêncio da grande imprensa, dos políticos conservadores e de uma significativa parcela da sociedade, acovardada diante de um problema que é de todos.

A partir do exemplo de São Paulo, as ocupações das escolas ficarão marcadas na história política do estado e do Brasil. Estes meninos e meninas, a grande maioria adolescentes, podem bater no peito pela luta que travaram. Podem ficar orgulhosos de si pela maturidade e pela disposição de diálogo, diante da omissão e do silêncio do governador e do seu secretário de educação. Os estudantes das escolas ocupadas foram verdadeiros gigantes ao prestar solidariedade em relação às reivindicações dos professores estaduais e a batalha por melhores condições de trabalho. Estes jovens são responsáveis também por terem despertado seus pais para a conscientização e para a mobilização pela luta contra a precarização das escolas e por melhores condições de ensino.

A ocupação das escolas, de forma ordeira e responsável, demonstrou a imensa capacidade de organização destes jovens e a sua disposição para enfrentar os desafios impostos pelo seu tempo. O movimento que ocupou escolas e saiu às ruas deu visibilidade à precarização do ensino público, tema que explodiu no asfalto e no concreto armado das nossas cidades, fazendo eco para que todos pudessem ver e ouvir. Ao que tudo indica, os estudantes devem desocupar as escolas. Neste momento, os objetivos foram alcançados. A desocupação não é uma unanimidade no movimento, mas o cenário é extremamente favorável aos estudantes, que contam com o apoio da opinião pública e todos sabem que isso pode mudar de um dia para outro.

Ao colocarem suas propostas sobre a mesa do governo, os estudantes demonstram que estão conscientes da sua força e dos seus direitos. Reivindicam a criação de uma comissão de fiscalização da aplicação dos recursos, tanto da merenda quanto de infraestrutura das escolas, ampliando o valor para reformas. Os estudantes pedem ao governo um cronograma concreto, com prazos para preenchimento do quadro de professores e as devidas explicações sobre a forma como isso será feito. Também pedem um posicionamento público do governo contrário ao projeto de lei 190/2015, do programa “Escola Sem Partido”, que tramita na Assembleia Legislativa. E exigem que, caso aprovado no Legislativo, o governador assuma o compromisso de vetar a proposta.

O sucateamento, as ruínas e as mazelas do atual sistema de ensino do Rio Grande do Sul foram denunciados pelo som dos tambores, dos megafones, das vozes juvenis, unidas e retumbantes. A preocupação dos pais em relação ao fato dos estudantes terem perdido quase um mês de aula é apenas um grão de areia nesse imenso território árido, espinhoso e precarizado do ensino público. Ainda que não sejam responsáveis pelo movimento dos estudantes e pelas ocupações nas escolas, parabéns aos professores que mesmo no deserto conseguem colher frutos tão ricos, como os que estão diante dos nossos olhos.


rodapé ed.png