A CADEIRA DO DRAGÃO (O interrogatório inesquecível)


As notícias de 15 de outubro fizeram-me recordar o episódio que resolvi contar a vocês. Acreditem que não é uma boa recordação. Ela se faz presente nos meus sonhos e nos momentos mais insólitos. Porém é importante que todos saibam e se convençam de que a consigna “tortura nunca mais” seja um imperativo categórico, moral e universal.

​Quando me colocaram naquele avião da FAB, algemado ao Raul Carrion, preparei-me para o pior. Confesso que pensei que não haveria retorno. O que vou contar, que foi a pior parte, é o que aconteceu no final de um período de 30 dias. Muitas sessões anteriores com pau de arara e choques já haviam sido feitas. Imaginem o cenário. Uma grande cadeira de ferro e na frente dela o anjo do mal. Ao lado da cadeira, fingindo ser um enfermeiro, um outro anjo do mal de menor hierarquia, vestido de jaleco branco. Em suas mãos uma seringa de 20 ml, cheia de um líquido branco amarelado. O anjo do mal pergunta-me: sabe o é que isso? Respondo que o líquido deve ser um barbitúrico e alerto o torturador de que é altamente arriscado o seu uso, pois uma dose um pouco mais elevada pode determinar a morte do torturado.

O anjo auxiliar insiste em receber a ordem para usar o produto, mas ele não é injetado e serve como uma ameaça sinistra. Seguem-se choques de diferentes intensidades, acompanhados de perguntas destinadas a obter confissões. A face do anjo do mal vai se tornando mais contraída, suas feições se tornam ainda mais duras. O objetivo não é atingido. Ele e seu auxiliar ficam frustrados e irritados. Segue-se, então, um choque de grande intensidade. O anjo desaparece de minha frente. Tudo fica preto como carvão. Aos poucos ouço a voz do anjo, os gritos histéricos do auxiliar para um choque de intensidade maior, e mal recobro a consciência, vem o segundo choque, tão forte como o primeiro. Senti que o tempo para voltar à vida pareceu-me um pouco maior. Mas, pensei, estou vivo e vou continuar sem dar nenhuma informação.

Veio a ordem do anjo do mal para desfazer as correias que me amarravam à cadeira. Voltei para a cela. Uma segunda sessão foi feita dois dias depois. O cenário e as perguntas foram quase iguais. De novo o produto não foi usado. Muitos companheiros passaram por esta experiência e em quantos o produto foi usado? E a cadeira medieval onde estará? Ustra, o “herói da ditadura”, não existe mais. Tortura não tem prescrição, é um crime de Estado. Fatos como estes não devem ser esquecidos, nem perdoados. Pena que ele não tenha sido julgado. Mas, a vergonha e a desmoralização, que destruíram sua carreira de soldado, vão sobreviver ao sepultamento.

Bruno é Mestre e Doutor em Psiquiatria pela UFRJ e esteve preso na OBAN em 1971.


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