CIDADES EM CHAMAS - ARTIGO DE LUÍS ALBERTO DA SILVA


Após o assassinato do negro americano Georg Floyd, no dia 25/05/2020, por policiais brancos, protestos ocorreram e se alastraram, começando pela cidade de Minneapolis/Minnesota local do crime.


O mundo testemunhou protestos com resultados violentos de saques e incêndios, que ensejaram opiniões das mais variadas, bem como pronunciamentos de autoridades e personalidades.


Entre as várias opiniões sobre o assassinato de Floyd, muita gente questiona: Por que no Brasil não há reações semelhantes, como a que aconteceu nos EUA, nos casos de assassinatos de negros e negras? Será que os negros brasileiros são mais pacíficos, ou menos politizados? O aparato repressor brasileiro é de maior escala? Ou, o racismo brasileiro, na sua perversidade peculiar, consegue esconder melhor essa realidade?


Para melhor responder aos questionamentos, devemos olhar para a história, evitando generalizações que desrespeitem trajetórias distintas e específicas.


No período que marcou o fim da escravidão no Brasil, havia correntes abolicionistas que defendiam a liberdade dos escravos com medidas reparatórias. Outras correntes defendiam apenas a reparação aos senhores. Já, outro grupo pretendia acelerar o processo de libertação dos escravos, através de ações que visassem aumentar o prejuízo econômico dos senhores, rompendo com o processo de libertação gradual legislativa.


O grupo que pretendia acelerar o processo de libertação dos escravos, rompendo com o mecanismo de libertação gradual legislativa, era considerado o mais radical. Entre as ações realizadas, por este grupo, estavam os incêndios nos canaviais e residências dos senhores, arrombamentos de senzalas, sequestros...


Dos grupos radicais, um que mais se destacou foi o grupo dos “Caifazes”, inicialmente formado pelo abolicionista branco, Antônio Bento de Souza e Castro (1843-1898), de família abastada, delegado, promotor, juiz e jornalista. Este grupo optou pela ação concreta, por não acreditar nas ações pacíficas de outros abolicionistas.


Destacamos esse fato histórico, apenas para exemplificar que os lutadores sociais no Brasil não eram pacíficos e nem passivos, na sua totalidade, como muitos querem fazer crer. E, que a luta pela libertação dos escravos não pertenceu apenas aos escravos, como muitos sempre pensaram. Além daqueles que só tinham interesses econômicos, existia na luta abolicionista verdadeiros aliados na causa de libertação do povo escravizado.


Cumpre refletir também, que a cada ciclo de mudanças que alteram a ordem econômica, política e social, algumas estruturas da antiga ordem remanescem. São necessárias, outras ações, para destruir de vez com todos os resquícios da estrutura da antiga ordem.


No caso do Brasil, infelizmente, aspectos culturais, sociais e políticos fundamentais da velha ordem imperial, não foram totalmente destruídos pela nova ordem política republicana. Isto porque, houve um rearranjo das classes dominantes, sem modificar os sujeitos.


Esse atavismo conservador nos aponta as razões de não existir relações republicanas consolidadas institucionalmente. Explica a naturalização da violência racial e de classe promovidas pela classe dominante, assim como os excessos originários de quem deve preservar o respeito às leis.


Como podemos depreender, o racismo é estrutural e está na base das relações culturais, políticas, sociais e econômicas da sociedade burguesa, razão pela qual, só será eliminado, se as bases da sociedade burguesa também o forem. A nova ordem deverá ser capaz de destruir todos os resquícios da antiga. Afora isso, falar em acabar com o racismo dentro das bases da sociedade burguesa, é quimera.


Dentro da sociedade burguesa, o máximo que se conseguiu realizar, no que diz respeito ao combate ao racismo, foram políticas públicas que possibilitaram alguma melhora de padrão social de alguns poucos grupos discriminados. No Brasil, podemos exemplificar com as politicas de promoção de igualdade racial inspiradas na experiência norte americana.


A sociedade americana mostra, com muita nitidez, que mesmo melhorando as condições de vida de parte dos grupos discriminados, isso não foi suficiente para conter ou extinguir o racismo.


Na política, o povo norte americano elegeu um presidente negro pelo partido democrata que teve dois mandatos. Depois, elegeu um branco racista que representou um retrocesso brutal à democracia com repercussões internacionais. No Brasil não aconteceu diferente, porém esse retrocesso foi muito mais danoso à porque foi resultado de um golpe e de uma eleição fraudada que elegeu um racista fascista.


Possivelmente, os incêndios, decorrentes dos atos de protestos em Minneapolis/EUA e outros protestos que se espalharam pelo mundo, sejam sinais muito claros da necessidade de mais mudanças na sociedade global, assim como foram os incêndios dos canaviais no Brasil, na época da escravidão. Agora, cabe outro questionamento: A esquerda está preparada para protagonizar esse processo?

LUÍS ALBERTO DA SILVA

Secretário Estadual de Combate ao Racismo- PT/RS

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