INDICAÇÃO DE "DEMOCRACIA EM VERTIGEM" AO OSCAR GERA POLÊMICA E GUERRA IDEOLÓGICA NAS REDES


Após a indicação de “Democracia em Vertigem” ao Oscar de melhor documentário, o que era polêmica transformou-se em uma verdadeira guerra ideológica. O filme da cineasta Petra Costa narra os bastidores do golpe que levou a ex-presidenta Dilma Rousseff ao impeachment, a prisão de Lula e a ascensão de Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. Lançado mundialmente no dia 19 de junho de 2019, o documentário emocionou diversos espectadores e gerou a ira de bolsonaristas, que atacaram a Netflix, onde o filme está hospedado.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) criticou a indicação do filme que concorre ao Oscar 2020 na categoria Melhor Documentário. “Para quem gosta do que urubu come é um bom filme”, disse o presidente, na manhã desta terça-feira (14/1). Ele afirmou não ter assistido ao longa dirigido pela cineasta Petra Costa, que trata dos bastidores da política durante as articulações para o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Eu vou perder tempo com uma porcaria dessas?”, afirmou Bolsonaro.

Diversos artistas e políticos usaram o Twitter para parabenizar a cineasta mineira Petra Costa pela indicação ao Oscar 2020. Em sua página oficial, o ex-presidente Lula, um dos personagens centrais da narrativa, cumprimentou a cineasta: “Parabéns, Petra Costa, pela seriedade com que narrou esse importante período de nossa história. Viva o cinema nacional! A verdade vencerá”.

Caetano Veloso também postou mensagem no Twitter, no início da noite desta segunda-feira (13), o artista resgatou uma entrevista em que exalta o filme da cineasta Petra Costa e o impacto que o filme ainda pode causar. “O cinema ainda pode ser uma arma. O filme de Petra Costa é uma prova disso. Este filme está a causar um grande impacto! É forte, capaz de ensinar o Brasil aos brasileiros e a quem não é brasileiro. Quem não está por dentro do problema atual que veja este filme”, publicou o cantor.

O cantor ainda disse na ocasião que o cinema brasileiro estava “reagindo muito bem” ao período complicado que o país está passando. “Democracia em Vertigem já bastaria, mas a Petra não é a única cineasta a fazer este tipo de cinema. Diria que Democracia em Vertigem é quase um complemento a ‘O Processo’, de Maria Augusta Ramos, embora o da Petra seja um processo mais íntimo e detalhado”, declarou.

Ao comentar sobre a indicação, Costa reafirmou a importância da obra para o momento político atual. “Numa época em que a extrema direita está se espalhando como uma epidemia, esperamos que esse filme possa nos ajudar a entender como é crucial proteger nossas democracias”, declarou. “Está se tornando cada vez mais evidente o quanto o pessoal é político para tantos ao redor do mundo, e acredito que é por meio de histórias, linguagem e documentários que as civilizações começam a se curar”, completou.

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por Eduarda Souza

O Brasil caminha hoje, a passos largos, para um grande colapso político-social. Talvez muitos pensem que o real colapso ocorreu logo quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente, outros pensem que não passa de um mero praguejamento contra o atual governo, mas fato é, que cada vez mais, vamos vendo os indícios de uma bomba que está prestes a explodir.

Nossa nação demorou muito tempo para erguer uma forma de governo que pelo menos aparentasse democrática. Após longos anos de ditadura, fruto de um golpe militar ordinário, a democracia de faz de conta, que se mostrava até então sólida e em pleno funcionamento, começou a ruir tal como a ponte de Tacoma Narrows: o que começou com uma pequena amplitude se transformou em abalos gigantescos, culminando na ruína.

Muitos de nós, que ainda conservam alguma sanidade em meio ao caos político-social que estamos vivendo, aliviam sua perplexidade através de memes, piadas e sátiras. Parece ser a nossa morfina para aguentar esses dias dolorosos. Porém, quando nos deparamos com um documentário como Democracia em Vertigem, que trata de um recorte histórico muito verdadeiro e fiel de todo este período supostamente democrático que vivemos no país, fica difícil conter as lágrimas e disfarçar a indignação.

Petra Costa, a idealizadora, produtora e diretora do longa, já era destaque pelo tocante Elena, mas nem sua já conhecida voz doce e calma e seu suave sotaque mineiro conseguem nos alentar, conforme vai narrando os acontecimentos que nos levaram até este momento. Em todo tempo percebemos que ela tenta se distanciar de todo o cenário, porém, hora ou outra acaba imprimindo uma opinião, seja em sua narração, seja através de arquivos de vídeos pessoais, abusando de uma trilha sonora mais comovente e/ou arrebatadora (o que por vezes soa como uma pitada de apelo emocional).

A relação de Petra com a democracia é de certa forma íntima: seus pais foram torturados e presos durante a ditadura militar e é de parte de sua família uma das construtoras mais antigas do Brasil e também envolvida na operação Lava-Jato; assim, não poderíamos ter alguém melhor para falar do assunto, com tamanha propriedade.

Vale lembrar que, o que muitos já sabiam há tempos e agora se confirma através de mensagens vazadas pelo site The Intercept Brasil, também figura no documentário de Petra: a grande jogada do judiciário para orientar o processo político tal como era de interesse e objetivo dos poderosos. O problema, contudo, foi que ao cutucarem a onça com vara curta, não somente despertaram uma onça brava com sentimento de ter sido traída, mas uma racista, homofóbica, machista, xenófoba, amante da violência e sem qualquer senso crítico.

Dessa forma, traçar todo o caminho que levou ao marco de nossa ruína torna-se não somente um trabalho necessário, mas ainda um lembrete da força de um povo. O mesmo povo que colocou Lula no poder, acreditando que suas vidas melhorariam, mesmo que com acesso somente às migalhas (parafraseando um depoimento do próprio documentário), esse mesmo povo se viu traído e tal como a mídia e a oposição afirmavam categoricamente, a prisão parecia algo muito óbvio para o ex-presidente. De lambuja, a sucessora Dilma Rousseff, que teve que aguentar o horror de uma ditadura militar, para depois ter que se submeter à politicagem barata que a tal democracia exigia, teve seu impeachment decretado, atendendo principalmente aos anseios da população manobrada.

Um escritor grego disse que a democracia só funciona quando os ricos se sentem ameaçados. Caso contrário, a oligarquia toma o poder. [...]Somos uma república de famílias. Umas controlam a mídia, outras, os bancos. Elas possuem a areia, o cimento, a pedra e o ferro. E, de vez em quando, acontece delas se cansarem da democracia, do Estado de Direito. Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?

Petra não nos dá a resposta. Talvez, é porque não haja uma mesmo. Contudo, se utilizar de uma plataforma como a Netflix para mostrar ao mundo esse recorte da história brasileira, mesmo com alguma inclinação política, cria uma acessibilidade facilitada ao conteúdo, uma vez que grande parte das pessoas possui o serviço de streaming. Daí, pode-se iluminar certos pensamentos ao terem contato com o material, desde que se tenha certo senso crítico... Só o tempo dirá.


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