ERA COMO SE OS VIDROS CHORASSEM A DOR DOS TEMPOS TRISTES DE UM OUTRO GOLPE


Era pra ser apenas uma visita corriqueira em uma manhã chuvosa deste interminável e sofrível agosto de 2016. Mas, por vezes, o destino é mesmo implacável e nos reserva momentos que certamente serão eternos. Quando toquei a campainha, não imaginava que encontraria meus pais tão tristes, em função da situação política do nosso país. O velho Bruno de guerra estava com os olhos mareados e a voz empolada, em um misto de raiva e emoção, orgulho e dor. Eunice, minha mãe, que está com 82 anos, e normalmente é uma tagarela incorrigível, estava serena e pensativa. Apenas sussurrou: “outro golpe”... E começou a recordar os dias mais duros da sua vida, lá no início dos anos 70, quando da prisão do meu pai, na DOPS e depois na OBAN, em São Paulo. Lembrou que a Dilma e o Carlos estavam no Tiradentes e que a dona Marieta lhe orientava nos procedimentos para que pudesse visitar o meu pai. Depois de várias sessões de tortura, o Bruno teve convulsões e quase se foi. Em seguida, minha mãe me entregou um bilhete, escrito com uma esferográfica vermelha, em um pedacinho de papel. De um lado, com a sua letra, ela dizia para o meu pai não ficar triste, e que ela voltaria para vê-lo. Do outro lado, com a letra do meu pai, ele pedia para que quando voltasse de Porto Alegre, me trouxesse junto, para que pudesse me ver. Eu tinha três anos. Meu pai sobreviveu às torturas, ao pau de arara, aos choques e às bofetadas. Depois minha mãe contou como os pais do Carlos foram importantes na sua estada em São Paulo e nas suas tentativas de encontrar meu pai. E como se falasse consigo mesma, repetiu algumas vezes... “como o tempo passa rápido, parece que foi ontem.... lembro que quando o doutor Afrânio morreu, a Marieta me chamou...e fiquei com ela até os familiares chegarem...” Minha mãe caminhou até a janela, embaçada de tanta chuva, como se os vidros chorassem a dor daqueles tempos tristes de um outro golpe...


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