ELEIÇÃO É SEMPRE IMPREVISÍVEL, MESMO DIANTE DE UM CENÁRIO DE CARTAS MARCADAS


A campanha de 2016 para prefeito e vereadores nos municípios brasileiros será completamente diferente do que estávamos acostumados a vivenciar. Em função da conjuntura nacional, do golpe travestido de impeachment, e do possível e provável afastamento de Dilma Rousseff, eleita democraticamente por mais de 54 milhões de votos, teremos uma eleição marcada, basicamente, pelos que defendem a presidenta e os que tentam incriminá-la.

O momento político brasileiro me faz lembrar o livro 1968: o ano que não terminou, do Zuenir Ventura. E, em seguida, me vem uma analogia à obra. Ou seja, 2016: o ano que não começou. E realmente este ano o Brasil viveu momentos que ficarão marcados na história. Nada andou. A economia permanece paralisada, o desemprego cresce, a inflação cresce gradativamente... Isso sem contar o retrocesso em relação às diversidades e aos direitos humanos. O Brasil mostrou seu lado mais cruel, com o traço fascista que impera na nossa classe média, que de média não tem nada. É medíocre mesmo.

Em 2016 vivemos o triste espetáculo da votação na Câmara dos Deputados que culminou com o afastamento temporário da presidenta e todas aquelas frases... em nome dos meus filhos, em nome disso e daquilo.... O ataque à democracia se deu por todos os lados, mas principalmente pelos meios de comunicação e seu poder de formar opinião. Nada pode ter sido pior do que ter assistido Eduardo Cunha e suas artimanhas para roubar e se manter no poder. Nada foi tão esclarecedor quanto o vazamento de gravações demonstrando que o impeachment não passa de uma artimanha do crime do colarinho branco.

Mas a maior de todas as dores foi a confirmação de que PT foi engolido pela sua própria banda podre. Aqueles que não compactuaram com os ditos “mal feitos” e que não se encaixaram no formato cafajeste de fazer política, estes se tornaram reféns daqueles que têm as mãos mais leves e língua solta. E foi daí que nasceu o golpe. Sim, o primeiro golpe, bem mais duro que este em curso, foi dado pelos donos do poder. Mas as contas serão acertadas ao longo do tempo.

Dito isso, o certo é que essa eleição com “ares” de campanha pobre terá aspectos interessantes. A esquerda dividida e a direita também. Mas como sempre, a esquerda incapaz de aglutinar, enquanto a direita estará como sempre entrincheirada para uma guerra. Sim, a guerra de classe, a mesma que está por detrás do golpe travestido de impeachment.

Mas há também um novo ambiente de campanha, principalmente nas redes sociais e a partir de um rigor em relação às regras e as propagandas. O que mais me chama a atenção é a concentração de energia humana em torno do mundo virtual. Para os candidatos que imaginam que a eleição será decidida no facebook, twitter, instagram e o diabo a quatro, sinto muito... Na minha opinião, dar ênfase às redes sociais é um dos mais graves erros estratégicos ou de interpretação do cenário que os candidatos podem incorrer.

Mais do que nunca, há uma linguagem, um conhecimento específico, regras de uso e milhares de phds e doutores em rede social, substituindo os que antes eram “cabos eleitorais”. E este conhecimento que abastece guetos cria uma falsa impressão de mobilização e capacidade de trabalho e luta. A eleição de 2016 certamente derrubará candidatos virtuais e abençoará aqueles que forem a onde o povo está.

É preciso ficar atento para não ser traído pelo mundo virtual e acabar sendo surpreendido ao ver seus cabos eleitorais presos à rede. A política é e sempre será imprevisível, mesmo diante de um cenário de cartas marcadas.


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