"Che" Guevara símbolo e herói da resistência à opressão


O texto abaixo foi retirado da série de artigos sobre os 55 anos da Revolução Cubana (“50 verdades sobre Ernesto "Che" Guevara), escrito por Salim Lamrani e publicado no ano passado no site Opera Mundi.

[Fidel Castro e o Che marcham em Havana, em 1959]

Depois de uma estadia em Praga, Guevara volta secretamente a Cuba, de onde decide ir para a Bolívia, então sob o jugo da ditadura do general René Barrientos. O objetivo é lançar um movimento insurrecional que se expandiria por toda a América do Sul. No dia 7 de novembro de 1966, Guevara começa a escrever seu diário da Bolívia. Um total de 47 combatentes, entre eles 16 cubanos, compõe o Exército de Libertação Nacional da Bolívia e ocupam uma área montanhosa no sudeste do país, perto do rio Ñancahuazú.

Em março de 1967, a prisão dos dois desertores alerta o regime militar, que solicita ajuda dos Estados Unidos para capturar Guevara e seus homens. No mesmo mês, começam os combates entre a guerrilha e o Exército boliviano, o qual inflige severas baixas a tropa de rebeldes. No dia 20 de abril de 1967, o Exército prende Regis Debray e Ciro Bustos, dois membros da rede de apoio à guerrilha. Ambos são submetidos à tortura e fornecem informações que permitem ao regime localizar os revolucionários. Mario Monje, secretário-geral do Partido Comunista da Bolívia, em vez de dar à tropa a ajuda logística e humana prevista, abandona Guevara e os guerrilheiros à própria sorte. Longe de se se dar por vencido, Guevara lança sua famosa “Mensagem aos povos do mundo” e chama os revolucionários a “criarem dois, três, muitos Vietnãs”. Em agosto de 1967, o Exército aniquila a coluna n°2 e Guevara fica só com duas dezenas de combatentes a frente da coluna n°1. No dia 7 de outubro de 1967, Guevara está perto de La Higuera com 16 combatentes e escreve sua última reflexão em seu diário, depois de “onze meses” de luta.

No dia 8 de outubro de 1967, o Exército surpreende a tropa na Quebrada del Churo. Para permitir que os feridos escapem, Che decide enfrentar o Exército com os poucos homens válidos. Depois de várias horas de combate, Guevara, ferido em uma perna, é capturado pelo Exército, que o leva a uma escola em La Higuera. Somente cinco guerrilheiros sobreviveriam e conseguiriam se refugiar no Chile.

No dia 9 de outubro, o ditador Barrientos, seguindo as ordens da CIA, ordena a execução de Che. O coronel boliviano Miguel Ayoroa, que participou da captura de Che, dá seu testemunho: “Um dos homens da CIA era Félix Rodríguez, um cubano exilado que entrou na escolinha gritando “Você sabe quem eu sou?”. Che o olhou com asco e respondeu. “Sim, um traidor”, e cuspiu na cara dele.

Félix Rodríguez contaria mais tarde: “Mandei [ao sargento] Terán que efetuasse a ordem. Disse que deveria disparar sob seu pescoço já que assim poderíamos provar que tinha sido morto em combate. Terán pediu um fuzil e entrou na sala com dois soldados. Quando escutei os disparou anotei no meu caderno 1:10 pm, 9 de outubro de 1967.”

O sargento Mario Terán relataria sua experiência em 1977 à revista francesa Paris-Match: “Hesitei 40 minutos antes de executar a ordem. Fui falar com o coronel Pérez com a esperança de que ele a tivesse anulado. Mas o coronel ficou furioso. Assim é que eu fui. Esse foi o pior momento de minha vida. Quando cheguei, Che estava sentado em um banco. Ao me ver, disse: ‘O senhor veio me matar’. Eu me senti coibido e baixei a cabeça sem responder. Então, me perguntou: ‘O que os outros disseram?’. Respondi que não tinham dito nada e ele disse: ‘Eram um valentes!’. Eu não me atrevi a disparar. Nesse momento, vi Che grande, muito grande, enorme. Seus olhos brilhavam imensamente. Sentia que vinha para cima de mim e, quando me olhou fixamente, senti uma tontura. Pensei que, com um movimento rápido, Che poderia tirar a minha arma. ‘Fique tranquilo – me disse – e aponte bem! Vai matar um homem!’. Então, dei um passo para trás, até o limiar da porta, fechei os olhos e disparei a primeira rajada. Che, com as pernas destroçadas, caiu no chão, se contorceu e começou a jorrar muitíssimo sangue. Eu recuperei o ânimo e disparei a segunda rajada, que o atingiu em um braço, no ombro e no coração. Já estava morto.”


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