Caso Daniel Dantas fortalece suspeita
de privatização ilegal da CRT
Reportagem: Raquel Casiraghi
A investigação da Polícia Federal sobre o
banqueiro Daniel Dantas e o banco Opportunity fortalece as suspeitas
de ilegalidade na privatização da Companhia Riograndense
de Telecomunicações (CRT). Na época, sindicato
dos telefônicos entrou na Justiça para anular os
leilões.
Porto Alegre (RS) – A investigação da Polícia
Federal sobre o proprietário do Banco Opportunity, Daniel
Dantas, fortalece novamente as suspeitas de irregularidade na
privatização da Companhia Riograndense de Telecomunicações
(CRT). A venda em duas fases, uma em 1996 e depois em 1998, contou
com intensa participação do banqueiro.
O presidente do Sindicato dos Telefônicos no Rio Grande
do Sul (Sinttel/RS), Flavio Leonardo Rodrigues, avalia que o processo
foi marcado por acontecimentos, no mínimo, estranhos. Na
primeira fase, em 1996, em que foram vendidas 35% das ações
ordinárias, três consórcios participaram do
leilão: a France Telecom, com o banco Opportunity e os
Fundos de Pensão, gerenciados pelo governo federal; o grupo
da Itália Telecom e o da espanhola Telefônica, que
havia se associado com a empresa de comunicação
RBS.
Flavio
relata que um dia antes dos consórcios entregarem suas
propostas, o grupo da France Telecom, onde estava o banco de Daniel
Dantas, desistiu sem dar explicações. “Estranhamente
na véspera de formularem as propostas, às cartas
fechadas, o grupo da France Telecom implodiu. O Opportunity, que
tinha que viabilizar o negócio, não conseguiu com
que os Fundos de Pensão nacional, administrados pelo governo
Fernando Henrique, cobrissem uma proposta que viesse a ganhar
o leilão. Então o Opportunity trabalhou em um consórcio
e fracassou. Pode ter trabalhado junto com os Fundos de Pensão
para inviabilizar o próprio consórcio”, diz.
O grupo da Telefônica ganhou da Itália Telecom com
uma margem mínima. Em 1998, quando foi leiloado o restante
da CRT, dos três consórcios apenas a Telefônica
concorreu. Nesse episódio, conta Flavio, o banco Opportunity
também se inscreveu para concorrer sozinho com o consórcio
e, inevitavelmente perdeu. O que, para o sindicalista, comprova
que Daniel Dantas somente entrou no leilão para garantir
que houvesse algum tipo de concorrência. No ano 2000, a
empresa de Dantas, a Brasil Telecom, acabou comprando as ações
da Telefônica e assim ficando com a ex-CRT.
No entanto, Flavio ressalta que as “coincidências”
também envolvem membros do governador Antônio Britto,
como o ex-secretário de Minas e Energia, Assis Roberto
Souza. “E não ficou só aí as suspeitas
de coisas estranhas acontecerem. Porque o próprio representante
do Estado que coordenou todo esse processo, o secretário
Assis Roberto Souza, logo depois que se concretizou todo o processo
de venda da telefonia pública, a gente constatou que ele
virou dono de diversas empreiteiras que até pouco tempo
ainda estavam operando para a Telemar e a Brasil Telecom. Casualmente,
a partir do momento em que o Daniel Dantas perdeu o poder e o
controle da Brasil Telecom, Assis Roberto Souza e suas empreiteiras
foram perdendo as licitações”, avalia.
Durante o processo de privatização, o Sinttel encaminhou
uma série de denúncias de irregularidades para a
Assembléia Legislativa e Ministério Público,
mas não foi atendido. Flavio conta que o sindicato entrou
com ações na Justiça para tentar anular os
leilões, mas também não conseguiu. As prometidas
auditorias da privatização da CRT durante o governo
Olívio Dutra não ocorreram.
Até hoje, não se sabe o que foi feito com o dinheiro
da privatização da CRT. O governador Antônio
Britto pretendia colocar parte dos recursos em um fundo previdenciário
para os servidores públicos que nunca existiu. “O
sistema de telecomunicação melhorou realmente porque
houve um salto tecnológico, não tem nada a ver com
a privatização. Era uma mudança de tecnologia,
principalmente a celular que recém começava no Brasil,
onde havia uma demanda reprimida. Havia possibilidade de ter um
retorno, mesmo com a estatal, mas o capital privado queria ter
esse lucro. Isso é comum na História. O setor público
vem e investe quando o capital não quer investir. E quando
está pronto