A data da reportagem do Caderno Brasília, do jornal Hoje
em Dia, é 27 de dezembo de 2007, mas a publicação
já estava na praça no Natal, trazendo a guerra na
PF
Os
intestinos do Brasil.
O
relato a seguir começa pelo antes para só depois
chegar ao depois.
A
inversão é necessária para que se entenda
melhor a batalha que engolfa e divide a Polícia Federal
e que se desdobrou em incidentes antes, durante e depois da operação
que levou Daniel Dantas & Cia ao entra-e-sai na cadeia.
Graves
incidentes.
»
Opine aqui sobre o caso Daniel Dantas
Para
relatá-los, os incidentes de antes, do durante e do depois,
Terra Magazine ouviu, durante uma semana, envolvidos de parte
a parte.
Além
do que acompanhou, e conhece, já há anos.
Segunda-feira,
7 de julho. Véspera da Satiagraha.
Como
representante da Divisão de Combate ao Crime Organizado,
e do diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, o delegado Paulo
Tarso Teixeira está na capital paulista.
Meio
da tarde. Tarso e o superintendente da PF em São Paulo,
Leandro Daiello, querem saber dos detalhes da Operação;
nomes dos que seriam presos, onde se dariam as buscas... Ter acesso
à decisão judicial.
Troca
de telefonemas duros até que é dada a ordem. Protógenes
Queiroz deve seguir para a Superintendência, onde chega
à noite.
Reunião.
Queiroz, acompanhado por três dos seus. Paulo Tarso e Daiello
querem acesso à decisão do juiz Fausto De Sanctis.
Protógenes nega.
Argumento.
Se houver vazamento, alguém naquela sala terá que
ser responsabilizado, e preso. Um inquérito junto ao Ministério
Público sobre vazamentos na operação, já
"rico", ganharia um novo e extraordinário capítulo,
se tanto se desse.
À
frase, delegados ligados a Protógenes se levantam e deixam
a sala.
O
superintendente Daiello e o delegado Paulo Tarso insistem. Querem
uma cópia da decisão judicial.
Protógenes
se recusa. Argumenta com o sigilo, diz que poderá dar ciência
de alguns dados uma hora antes do início da operação,
não antes.
O
delegado teme o prontuário, a vida pregressa, a capivara
da operação.
Um,
dois... vários delegados a deixaram pelo caminho. Outros...
Protógenes
Queiroz teme o vazamento. Receia que as informações
cheguem a Daniel Dantas e os seus, como chegaram a 26 de abril,
quando a Folha de S.Paulo anunciou estar a caminho uma operação
para prender o banqueiro e outras duas dezenas.
Mais:
o delegado tem na memória tudo que cercou os 4 anos de
investigações, primeiro na operação
Chacal, depois em seus desdobramentos até a Satiagraha,
ainda que nela só tenha embarcado há um ano.
Protógenes
Queiroz e os seus sabem, até porque tinham Daniel Dantas
et caterva sob escuta telefônica e telemática, da
capacidade do banqueiro de se infiltrar.
Sabem
como, e até mesmo quanto. Este repórter desconhece
se sabem quem.
O
delegado não cede. Paulo Tarso ameaça. Se fosse
ele o Superintendente, a operação não aconteceria
em São Paulo.
Quatro
da madrugada do dia 8. Protógenes está na sede da
superintendência, por ordem dos dois superiores.
Nova
determinação: de acordo com normas internas Protógenes
Queiroz deve ficar na sede coordenando, não deve sair às
ruas para participar da operação.
A
equipe o comunica sobre um incidente e Protógenes vai à
rua. Volta às 6h15 da manhã. Paulo Tarso explode.
Mentiroso. Não cumpre ordens superiores. Tá de sacanagem,
e por aí afora.
Ordem
peremptória: Ficar no 6° andar até o final da
operação.
Protógenes
Queiroz, o delegado que coordenou a execução da
Satiagraha, não pode deixar o prédio da PF. Desceu
para a entrevista coletiva, às quatro da tarde, e só.
Só
às duas da madrugada do dia 9 o delegado pode deixar a
PF.
Protógenes
Queiroz passou quase tanto tempo na sede da PF quanto o homem
a quem prendeu, Daniel Dantas.
Mais
uma ordem. O diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, o queria
em Brasília, para explicações, no dia seguinte.
Até o meio-dia. E mais.
Ele
seria submetido a duas punições. Uma, disciplinar,
em Brasília, e outra, um inquérito para apurar incidentes
durante a Satiagraha, em São Paulo.
E mais.
A
logística se vai. Esvaziamento. Para examinar as toneladas
de papel e os bytes apreendidos com Dantas e os seus, restam três
delegados e dois peritos.
Day
after. A Operação é um sucesso de público
e mídia. Paulo Tarso comunica: o diretor cancelou a ida
a Brasília.
E
mais.
O
diretor quer saber qual a necessidade de pessoal, de logística.
Mas,
sob uma condição.
Tudo
terá que ser especificado. Cada documento importante, cada
nome encontrado, terá que ser relatado ao comando da PF.
Protógenes
Queiroz, que preside o inquérito, não pretende abrir
tudo, passo a passo, documento a documento, salvo na hora legalmente
devida. Teme vazamentos.
Mas
tergiversa, e pergunta sobre como enfrentar as duas punições
anunciadas. É tranqüilizado.
É
informado que a bronca em São Paulo não irá
adiante e que, em Brasilia, Paulo Tarso cuidará da condução
das coisas.
A
promessa não seduz. Protógenes comunica que, por
seu lado, informará ao Ministério Público
os vazamentos na operação.
Daniel
Dantas é solto. Por ordem do juiz De Sanctis, Protógenes
Queiroz prende Dantas novamente. Desta vez, pessoalmente, até
o algemar no Instituto Médico Legal.
Gilmar
Mendes, o Supremo, manda soltar Dantas. Não sem razões
jurídicas, dizem muitos; dos que são e dos que não
são do ramo.
Razões
em seu favor à parte, Gilmar Mendes parece não se
dar conta do rumo dos ventos; quiçá o isolamento,
os palácios em Brasília. Desfila todo seu supremo
poder. Açula, sem o perceber, a mídia e a massa.
Reprodução do Caderno Brasília que, em dezembro
de 2007, já trazia a posição do diretor-geral,
Luiz Fernando Corrêa
Polícia
Federal. A crise ferve em fogo brando.
A
mídia se divide, e em largas porções se distrai;
nada é por acaso. É desatada a caça ao erros,
caça mais voraz, pertinaz, do que à essência,
à imensa, gigantesca gatunagem.
Para
quem nunca quis, é preciso desintegrar o delegado, primeiro
passo para paralisar o processo. A receita é antiga.
Fim
de semana. Prossegue o bombardeio midiático, a caça
aos erros, o desconhecimento, o desprezo pelo que possa estar
em mais de 6 mil e 400 páginas do inquérito-mãe.
Segunda-feira,
quase uma semana depois da Satiagraha. 14 de julho. Os franceses
comemoram a queda da Bastilha. A Polícia do Brasil se engalfinha
por conta da queda de Daniel Dantas e assemelhados.
Estimados
120 gigabytes em informações apreendidos há
mais de uma semana continuam intocados, à espera de uma
equipe de analistas e peritos que não chega.
A
Polícia Federal vive perturbadores capítulos, novos,
na sua dilacerante batalha interna.
Na
terça-feira, 15, a própria PF vaza o afastamento
- "para fazer um curso" - do delegado que coordenou
as investigações, Protógenes Queiroz, e de
outros dois delegados que o auxiliaram, Karina Murakami Souza
e Carlos Eduardo Pellegrini.
A
decisão foi do delegado ante os fatos e o andamento da
reunião na superintendência da PF em São Paulo,
na terça-feira, mas o vazamento se deu na sede, em Brasília.
Na
mesma noite, o distinto público é informado: o diretor
geral da corporação, Luiz Fernando Corrêa,
entrara em "férias de 15 dias".
Nada
mais natural, tendo em vista a tranqüilidade reinante.
É
o desfecho, ou entreato, mais do que previsível. E não
apenas por conta do que se passou na tensa e ruidosa reunião
dessa mesma terça-feira 15 no edifício sede da PF
em São Paulo.
A
divisão vem de muito antes, e se aprofundou ainda mais
durante a investigação, secretíssima, das
ações de Daniel Dantas & Cia. A propósito,
leia aqui texto publicado por este Terra Magazine no dia seguinte
à operação.
Hoje,
aqui, depois de ouvir vários dos envolvidos e/ou seus próximos,
Terra Magazine relata também, a seguir, alguns dos momentos
do embate da terça 15.
Presentes
à reunião 10 policiais federais, três deles
da cúpula: o superintendente em São Paulo, Leandro
Daiello Coimbra, o diretor de Combate ao Crime Organizado, Roberto
Troncon, e o diretor de Combate a Crimes Financeiros, delegado
Paulo Tarso Teixeira.
Além
dos cardeais, o delegado Protógenes e outros três
de sua equipe: Carlos Eduardo Pellegrini, Karina Murakami Souza
e Vitor Hugo Rodrigues Alves, e mais o delegado Menin, entre outros.
Reunião
tensa, com momentos de altercação e o que, na linguagem
dos presentes, se define como "baixo calão".
Bem baixo.
Em
um desses momentos, dos mais duros, o diretor de Combate ao Crime
Organizado, Paulo Tarso Teixeira, relata os incidentes do dia
da operação. O delegado Protógenes cobra.
Ele
quer a repetição das palavras chulas ditas a ele
na manhã da operação. Pede a Tarso para ser
homem e repeti-las.
Paulo
Tarso não repete.
Em
tempo: segundo vários dos presentes a reunião foi
gravada. Do jeito que anda a maionese, a se conferir, certamente,
em breve.
O
encontro em São Paulo foi convocado, supostamente, para
que se retomasse dali por diante os trâmites da operação
e a análise da tonelada de documentos apreendidos.
Bola
rolando. Protógenes e os seus sob fogo cerrado.
Ele
personificou a operação, outros três de sua
equipe presentes estão demasiadamente envolvidos, é
a acusação.
Seria
o caso da delegada Karina, emocionalmente envolvida na operação,
segundo a versão da cúpula. Já Pellegrini
estaria todo "alterado" e Vitor Hugo não poderia
ter participado por ter sido a isca para atrair Dantas ao suborno
de US$ 1 milhão.
Portanto,
todos afastados.
Contra-ataque,
conduzido por Protógenes.
Diante
do exposto ele relataria o inquérito até domingo,
antes de seguir para o curso Superior de Polícia.
Não,
não seria possível. Ele deve concluir o relatório
até a sexta-feira, 18, é a determinação.
Contra-resposta.
Ele relata até a sexta-feira, segue para o curso e volta
para a Operação Satiagraha, mas não para
presidi-la e sim nas funções de inteligência
e análise, suas atribuições na diretoria
de Inteligência.
Paulo
Tarso recorda os problemas operacionais da Satiagraha. Protógenes
devolve. Foi humilhado, insultado na véspera e dia da operação.
Como se não bastasse o antes e o depois, ressalta.
Antes,
nos meses que antecederam o desfecho da Satiagraha, como já
relatado por Terra Magazine (leia aqui), o esvaziamento, a negação
de logística por parte do comando. E, por outro lado, a
criação de uma rede secreta, subterrânea,
para enfrentar as condições adversas.
Rede
com peritos do Banco Central, Receita Federal, aqui e ali ajuda
da Abin, além dos solidários na PF.
A
decisão foi tomada. O delegado Menin, indignado, chama
a atenção da cúpula: lembra que não
podem agir daquela forma; todos terão que explicar não
só para a sociedade, mas também para a mídia:
-
Por que os delegados estão fora da investigação?
Paulo
Tarso Teixeira e Troncon cobram: não gostaram de não
ter tido acesso à cópia da decisão judicial
antes da operação, "um absurdo".
Protógenes
reage. Ele presidia a investigação, por dever de
ofício e por ordem expressa do juiz De Sanctis não
podia vazar informações.
O
delegado é novamente informado do já comunicado
há uma semana: por conta de vazamentos no dia da Satiagraha,
tais como a filmagem da prisão de Celso Pitta, foi instaurado
um inquérito.
Um
segundo procedimento, este disciplinar, correrá em Brasilia.
Protógenes
diz que responderá ao inquérito, sem problema algum.
Mas avança: os fatos quanto a vazamentos remontam a 26
de abril, data da reportagem passada à Folha de S.Paulo.
O
delegado esquenta ainda mais a reunião: informa que tal
vazamento será representado junto ao Ministério
Público, já instruído e de posse dos dados.
Exigência
da cúpula: dois relatórios sobre a operação
e incidentes devem ser feitos por dois delegados da equipe de
Protógenes.
O
delegado se diz acostumado. E cobra: o DPF deveria fazer como
fez o Judiciário; apoiou De Sanctis ante uma queixa contra
ele, considerou correta sua ação.
Fim
da reunião. Consolidada a fratura na Polícia Federal.
E não apenas.
Associações
sindicais da PF, distantes do comando nos primeiros quatro anos
do atual governo, se posicionam. Alguns miram Protógenes
e a Satiagraha, mas o objetivo é outro. O poder.
Permanecer
no poder cristalizado em torno do diretor-geral, Luiz Fernando
Corrêa.
O
rastilho está aceso.
Quarta-feira,
16 de julho...
O
presidente Lula cobra a volta de Protógenes, mas faz críticas
ao delegado.
O
presidente, entendem muitos dos que participam da Satiagraha,
talvez não conheça todos os detalhes da secretíssima
e explosiva operação.
Quinta-feira,
17 de julho...
Qual
será o próximo capítulo?
PS:
12h20, 17 de julho. Uma informação percorre Brasília.
A Polícia Federal convocou a imprensa. Ao que se diz, vai
exibir o acalorado debate da terça, 15. Ainda não
se sabe se o todo, ou partes do embate.
PS2:
Convidados, jornalistas não ouviram o áudio nem
tiveram acesso à íntegra. Escutaram, e puderam anotar,
trechos do acalorado encontro da terça-feira 15.