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Desafio da Uergs é
conseguir sobreviver


Reportagem Raquel Casiraghi - Agência Chasque

Passados sete anos da sua criação, a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) ainda não foi totalmente implementada. Falta de professores e baixo orçamento são apontados como os principais empecilhos. Movimento Pró-Uergs reclama de má vontade dos governos e defende revitalização do projeto inicial.

Porto Alegre (RS) – Passados sete anos de sua criação, a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) ainda não foi totalmente implementada. Entre as pendências, está a falta de uma Comissão de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE). O reitor ainda é um cargo definido pelo governo, sendo que o estatuto original prevê as eleições diretas.

Para piorar a situação, não aconteceu vestibular em 2007 em nenhum curso da universidade e a falta de concurso público para professores nos anos anteriores fez com que o quadro funcional fosse ocupado quase totalmente por temporários.

No ano passado, o Ministério Público determinou que a Uergs regularizasse a situação dos profissionais temporários por meio da contratação. No entanto, sem concurso público, praticamente todos os 278 professores foram demitidos. O pró-reitor de Ensino, Eloy Julius Garcia, relata que a Uergs iniciou 2008 com 78 professores que puderam ser contratados na virada do ano. Atualmente, esse número subiu para 123, mas ainda não chega nem à metade dos 300 necessários.

Para Eloy, os principais empecilhos para o desenvolvimento da Uergs é a liberação do governo para realizar concurso público e o baixo orçamento da universidade, hoje calculado entre R$ 25 e R$ 30 mi por ano. “O que preocupa realmente é a autorização para realizar concursos e para admitir o pessoal. E por outro lado, o orçamento da Uergs, que é muito exíguo. Estamos em uma posição muito paradoxal em relação ao Conselho Estadual de Educação, que exige que a Uergs faça uma série de adaptações em seus prédios, instalações, bibliotecas, e sabendo ao mesmo tempo que a Uergs dispõe de um orçamento que não contempla recursos para investimento. Isso sim poderá inviabilizar a universidade”, afirma.

Depois de 2007 sem realizar vestibular em nenhuma unidade, a Uergs abriu vagas para 9 sedes em Janeiro e agora para mais 8 unidades no período de Inverno. Eloy afirma que não é o ideal, mas atende a boa parte do Estado. Além dos recursos escassos, o pró-reitor também considera que a estrutura descentralizada da universidade é uma dificuldade, já que aumentam os custos para formar centros de ensino e pesquisa de excelência. “Tem que saber o que são necessidades locais. A universidade foi criada para promover o desenvolvimento regional. Regional só pode se entender o Estado do RS. Não podemos fracionar o RS em regiões para começar a pensar no desenvolvimento de cada região em particular”, diz.

A secretária de Educação durante o governo Olívio Dutra, a educadora Lucia Camini, acompanhou todo o processo de criação da Uergs e lamenta a situação atual da universidade. Ela conta que no primeiro vestibular da instituição, foram abertas 1070 vagas. Entre os anos de 2003 a 2006 foram abertas mais 4,2 mil, uma média de 1050 vagas por ano. No entanto, com a não-realização do vestibular em 2007, muitos cursos tiveram sua estrutura pedagógica comprometida.

No entanto, Lucia aponta que o problema da Uergs é a influência direta dos governos. Além de não assumir a instituição financeiramente, desde 2003 alguns cursos tiveram suas características alteradas, tornando-se mais técnicos e menos voltados para o desenvolvimento local.

“Fortalecer os sistemas locais de produção, garantindo que a pesquisa e o ensino fortaleçam essas especialidades, justamente para evitarmos toda essa concentração de mão-de-obra nos grandes centros urbanos, esvaziando essas regiões e levando ao empobrecendo, porque onde os jovens não permanecem e onde não se faz novas pesquisas para potencializar o desenvolvimento regional, nós acabamos perdendo essa condição”, afirma.

Lucia apóia o Movimento Pró-Uergs e defende a revitalização do projeto original da universidade. Ela afirma que é necessário regularizar o vestibular e o concurso público para professores e funcionários. Também considera fundamental a eleição direta para reitor, pois assim desvincula a direção política da universidade dos governos do Estado.

No Estado vizinho, Paraná, a universidade pública estadual é vista como política de governo. Atualmente, seis universidades e sete faculdades com cursos de graduação e pós são mantidas pelo Estado. Somente de graduação, são 300 cursos. A rede toda abriga 85 mil estudantes.

Apesar do alto custo que tem a educação superior, o diretor geral da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI), Jairo Pacheco, afirma que os resultados são positivos, já que contribuem para a redução nas desigualdades regionais no Estado. As instituições estaduais são todas no interior, já que a universidade federal (UFPR) se concentra na Capital, Curitiba.

A população também ganha, pois juntamente com as universidades vão os hospitais universitários e demais serviços gratuitos nas áreas médicas, jurídicas e sociais. “Isso tem impacto no desenvolvimento regional, nas cidades em que se instalam. As cidades ganham um dinamismo devido à presença das instituições. Até mesmo na questão dos negócios, empresas, que buscam mão-de-obra qualificada”, argumenta.