Dilma
assume ser mãe do PAC
e acha prematuro falar em 2010
Em
entrevista exclusiva ao jornalista Ricardo Kotscho --que já
foi Secretário de Imprensa e Divulgação da
Presidência no governo Lula-- a ministra Dilma Roussef tratou
dos principais temas que a colocaram como a ministra de maior
visibilidade do governo nas últimas semanas. Sobre ser
candidata em 2010, ela fez o que dez entre dez políticos
fariam: disse que é cedo para falar no assunto, mas não
descartou a possibilidade. Preferiu falar mais sobre os filhos:
tanto da filha Paula, que casou recentemente, como do ''filho''
PAC. Já sobre o rumoroso caso do ''dossiê'', a ministra
mostrou-se tranquila e disse que há muitos ''factóides''
no episódio. Os comentários abaixo, no longo preâmbulo
que antecede a entrevista, são do jornalista Ricardo Kotscho.
Sábado
à tarde, salão das autoridades da Base Aérea
de Cumbica, em São Paulo. Os olhinhos dela brilharam duas
vezes. Quando perguntei se gostaria de ser presidente da República
e se ficou animada a se casar de novo, depois de levar Paula,
sua filha única, ao altar, na noite de sexta-feira.
Vinda
de Porto Alegre para pegar o avião que a levaria à
Coréia do Sul, Dilma Rousseff, a toda poderosa ministra-chefe
da Casa Civil e “mãe do PAC”, encontrou uma
brecha na sua carregada agenda para falar com a reportagem do
iG. Só pediu um copo d'água e estava pronta para
a entrevista.
De
terninho preto, bolsa pendurada no ombro, acompanhada de um onipresente
assessor, o Anderson, que trabalha com ela há doze anos,
ela desceu do avião e já foi falando, direto ao
assunto, como se a gente tivesse se visto ontem.
Em
mais de uma hora de conversa, Dilma mostrou-se animadíssima
com o bom momento vivido pelo País, com o crescimento econômico
e as obras do PAC, sem dar muita bola para a chamada “crise
do dossiê”.
Claro
que ela ainda não assume oficialmente sua candidatura à
presidência da República - é muito cedo para
se falar neste assunto, alega -, mas não descartou a hipótese,
ao contrário. Sim, ela gostaria de ser, admite - “como
qualquer brasileiro ou brasileira”, ressalva.
Foi
a primeira vez que seus olhinhos brilharam. Para ela, no entanto,
ser eleita a primeira mulher para a Presidência do Brasil
talvez seja um sonho mais possível do que o outro, quando
seus olhinhos brilhariam pela segunda vez.
Ao
encontrá-la empolgada com o sucesso da festa de casamento
da filha - “os dois estavam tão felizes...”
- arrisquei-me a perguntar se ela não ficou com vontade
de se casar de novo (Dilma é descasada duas vezes).
Este
seria um sonho um pouco mais difícil de se tornar realidade,
por um motivo bem prosaico: está sem namorado, “no
desvio”, como se diz em Minas, a terra onde nasceu, fez
61 anos em dezembro. De onde vem esta senhora?
Filha
de um engenheiro búlgaro, Petar Roussev, também
poeta, que no Brasil adotou o nome de Pedro Rousseff e trabalhou
na construção da Manesmann, e da professora carioca
Dilma Jane Silva, ela começou sua militância em 1967,
na Política Operária (Polop), organização
da esquerda radical, levada pelo seu primeiro marido, Cláudio
Galeno de Magalhães Linhares.
Foi
também do Comando de Libertação Nacional
(Colina), participou da criação da VAR-Palmares,
com Carlos Lamarca e Carlos Araújo, que viria a ser seu
segundo marido, o pai de Paula, e comandou, já como “Estela”,
seu nome de guerra, o célebre seqüestro do “cofre
do Adhemar”, em 1969. Presa e torturada, romperia com Lamarca
e, dez anos depois, após a redemocratização,
entrou para o PDT de Leonel Brizola. Só em 1999 filiou-se
ao PT.
Ao
passear pela história da geração de 68, Dilma
chega a ficar emocionada quando lembra de um nosso amigo comum,
o Tom Timóteo, meu secretário adjunto quando trabalhamos
juntos no Palácio do Planalto com o presidente Lula, nos
dois primeiros anos do seu governo. Daquele tempo, entre orgulhos
e arrependimentos, um sentimento ficou gravado na memória
e no coração: a generosidade. Sente-se feliz pela
possibilidade que agora tem de colocar em prática no governo
Lula o que sonhou naquela época.
No
meio da entrevista, o celular só tocou uma vez. Era Paula
querendo saber da mãe o que achou da festa do casamento,
antes de embarcar para a lua de mel no Taiti. Foi uma conversa
rápida. Deu tempo de falarmos de tudo e ela não
deixou pergunta sem resposta: candidatura presidencial, crise
do dossiê, como anda o PAC, o bom momento econômico
do País, a vida no poder, os embates políticos,
as críticas ao seu temperamento, namorado (ou a falta de...)
e os objetivos da viagem ao exterior.
Para
quem esperava encontrar uma Dilma abalada, depois de enfrentar
cercada no meio da arena um mês de tiroteio cerrado da oposição
e da imprensa, foi uma surpresa encontrá-la assim, tranqüila,
bem humorada, astral lá em cima, de bem com a vida, de
peito aberto para o que der e vier. No caso dela, como fica claro
na nossa conversa, o que vier é lucro.
Dilma
só não será candidata de Lula a presidente
em 2010 se não quiser. E ela quer. Até porque, não
sabe dizer não ao presidente, confidencia, como aconteceu
quando foi convidada a assumir a chefia da Casa Civil em meio
à maior crise do governo. Só falta, então,
ele pedir? Dilma garante que o presidente Lula ainda não
falou com ela sobre esse assunto. Vai ver, só não
falou com ela...
Está
na hora do embarque. Saímos da sala para fumar um cigarrinho
_ o último dela nas próximas 20 e tantas horas,
com duas escalas, até chegar a Seul, na Coréia do
Sul, onde começa a viagem, que a levará também
ao Japão e aos Estados Unidos.
A
seguir, a íntegra da entrevista de Dilma Rousseff a Ricardo
Kotscho.
Ministra
Dilma Rousseff durante entrevista na Base Aérea de Cumbica
Vou começar com uma pergunta bem difícil: como vai,
ministra?
Dilma
- Vou bem. Hoje, muito bem. O casamento da minha filha foi maravilhoso,
deu tudo certo, dançamos até tarde, os dois estavam
muito felizes...
A
senhora é candidata a presidente da República?
Dilma
- Kotscho, eu não sou candidata a presidente da República.
Acho que hoje esta é uma questão que não
está colocada. Temos quase três anos de governo pela
frente. Vivemos uma fase de muitas realizações,
estamos colhendo os frutos de cinco anos de trabalho. Não
devemos agora discutir sucessão presidencial.
Estamos
em um processo de prestar contas à sociedade, anunciando
o início de novas obras do PAC, ou até inaugurando
outras, depois de um ano de investimentos em todas as áreas
de infra-estrutura.
Transformamos
o País em um canteiro de obras, algo que não se
via há muitos anos. Em 2008, quem vai puxar a economia
é a construção civil pesada, em todo o território
nacional, em parceria com o setor privado. São obras de
cunho republicano porque conseguimos articular no processo prefeitos
e governadores.
E
mais adiante, será candidata?
Dilma
- O futuro a Deus pertence... Acho que especular hoje sobre isso
não é boa política para quem tem não
só o PAC, mas os territórios da Cidadania, grandes
projetos em educação e saúde, o Pronaf para
cuidar da segurança.
Com
a chamada crise do dossiê, alguns analistas logo decretaram
que sua candidatura estava natimorta. Outros, como o governador
José Serra, baseado em pesquisas do PSDB, disseram que
a crise fez sua candidatura crescer porque seu nome ficou mais
vinculado ao do presidente Lula. Com qual das duas análises
a senhora fica?
Dilma
- Eu acredito que a chamada crise do dossiê tem um grande
cunho de factóide. Por quê? Que dossiê é
esse que não revela nenhum escândalo? Diz respeito
apenas a gastos legítimos. Alguns podem dizer que a única
pessoa que viu o material do banco de dados que vazou é
um senador de oposição. Esse dossiê estranhíssimo
prejudicou só a Casa Civil, a mim e ao governo. Eu não
vi esta pesquisa do PSDB, mas respeito a análise do governador
Serra. Não acho ruim.
Nas
últimas semanas, aconteceu tudo ao mesmo tempo: o barulho
em torno da sua candidatura à sucessão do presidente
Lula, apoiada pelo presidente, e o cerrado tiroteio da oposição
e da mídia após as denúncias do chamado “dossiê”.
Qual a relação entre os dois fatos? Como a senhora
se sente hoje, no centro da arena, depois de um mês de fogo
cruzado?
Dilma
- Ninguém que vai para o governo vive sem momentos de tensão.
O ano passado inteiro, enquanto a gente estava trabalhando de
uma forma pesada, sabe assim, Kotscho, de sol a sol, todos os
dias eu lia no jornal o seguinte: o PAC é um factóide,
um produto de marketing, um malabarismo e terá vida curta.
É mais uma demonstração de ineficiência,
entre aspas, do governo. Pois bem. O PAC é um esforço
gigantesco para colocar o investimento na ordem do dia. Este é
o sentido político mais forte do PAC. É dizer: olha,
tem de investir, isso é prioridade.
O
governo vai fazer disso um elemento fundamental porque nós
precisamos desse investimento para acabar com os gargalos do crescimento
do País, para garantir que o crescimento se acelere. Hoje,
é muito difícil alguém dizer que se trata
de um factóide. Então, tem que agüentar, vamos
dizer, certas crises entre aspas. O que não é possível
é perder a tranqüilidade. Enquanto tudo isso acontece,
nós temos que trabalhar.
A
senhora parece que tem o casco duro.
Dilma
- Olha, a minha geração é uma geração
com o couro um pouquinho duro. Eu diria assim... um casquinho
duro. Sabe aqueles de tartaruga? Porque eu acho que levamos uma
vantagem enorme se olharmos para trás e compararmos com
o Brasil de hoje. De qualquer forma, essa crise ou as crises,
entre aspas, a que me referi são produtos da democracia.
É um direito da oposição de se opor, mesmo
que em alguns momentos isso se dê de forma agressiva. Isso
é um valor fundamental porque vivemos hoje em um País
democrático. Porque nós dizemos: eu sou da geração
que viveu a ditadura e todas as suas mazelas. Então, na
comparação, nós vemos que saímos com
o Brasil ganhando por quilômetros de distância.
Se
a senhora pudesse recuar no tempo, o que teria feito de diferente
nesse episódio do levantamento de dados sobre despesas
do governo Fernando Henrique? Como isso começou e quando
a senhor imagina que essa crise vai terminar?
Dilma
- Olha, antes de eu chegar à Casa Civil, já tinha
uma auditoria do TCU que terminou no meu período. Era a
exigência por mais transparência. No mundo de hoje,
transparência é informatização. Informatização
é banco de dados. Colocar tudo em banco de dados é
um trabalho que nós temos que fazer. Há até
pedidos de senadores da oposição, como o Arthur
Virgílio, que solicitou dados referentes ao período
de 1995 a 2002.
De
que data é esse pedido?
Dilma
- Setembro de 2005. E nós respondemos que quando estivesse
pronto o banco de dados entregaríamos as informações
a ele. Não há do que se arrepender disso. Nós
estávamos fazendo um trabalho burocrático-administrativo.
Agora, o que é desagradável, o que é errado,
o que não é bom, é vazar estas informações.
Como
e quando a senhora imagina que isso vai terminar?
Dilma
- Eu não vou especular. Isso está sob investigação.
Espero que tudo seja solucionado, revelando toda a verdade, inclusive
quem é o agente vazador das informações.
A
senhora deve ter visto o editorial da “Economist”,
desta semana, que qualifica o Brasil como “uma nova superpotência
econômica, agora com petróleo também. Diz
ainda que “comparado com o Brasil de antes, a sensação
é de que esta é uma idade de ouro”. A que
a senhora atribui esta coincidência de uma nova crise política
em meio a boas notícias na economia, pois já tivemos
outras situações semelhantes nesse governo, chamadas
na imprensa de “tiro no pé”.
Dilma
- Eu acho que é uma situação diferente que
temos hoje no Brasil, que nunca vivemos antes. Como te disse,
desabrocha agora todo o efeito que as políticas públicas
do governo tiveram, junto com a iniciativa privada, os trabalhadores.
Há hoje no País uma consciência de que o Brasil
tem que crescer. Essa situação não é
um acaso, como muitos querem fazer crer. Ela é produto
de esforço cotidiano do governo federal, dos governos estaduais
e municipais. Nós concebemos um modelo de crescimento com
distribuição de renda, com inclusão social.
Esse é o primeiro momento em muitos anos que se começa
a ter mobilidade social. Em um País novo isso é
uma conquista inigualável. Isso significa que nós
tiramos milhões de pessoas da miséria e transformamos
em classes médias outros 20 milhões de pobres pelos
dados da pesquisa até 2007.
Em
2008, serão mais tantos milhões. Temos um mercado
de massa no Brasil. Significa que nossa maior riqueza, que é
nossa população, nossos quase 200 milhões
de brasileiros passaram a ser responsáveis pelo crescimento
do consumo, com o fato de comprarem casa própria, carros.
Mesmo os da Bolsa Família têm acesso a alguns eletrodomésticos.
Nós somos aqueles que puxam a economia do Brasil, sem perder
de vista as exportações. O que cresce é o
mercado interno.
Somos
também um dos poucos países emergentes, para não
dizer o único, porque eu não tenho certeza, que
cresce com distribuição de renda. Os outros crescem
concentrando renda. Então, nossos 5% têm uma qualidade
diferente dos outros percentuais. Vou te dizer uma coisa: acho
que tudo o que querem é que nós atiremos no próprio
pé. Mas não estamos atirando no pé. Estamos
é conseguindo superar dificuldades e atirando nas grandes
mazelas do Brasil. Uma delas era essa: ou cresce ou distribui
renda. Nós estamos crescendo e distribuindo. Outra é
aquela: ou mercado interno ou mercado externo. Nós estamos
crescendo nos dois. E por aí vai.
O
fato de ter sido chamada de “mãe do PAC” ajuda
ou atrapalha a sua atuação daqui para frente? A
senhora deseja continuar viajando com o presidente para anunciar
e inaugurar obras. As obras caminham na velocidade desejada pelo
governo?
Dilma
- Eu acho que ajuda muito. Porque, quando o presidente fala “mãe
do PAC”, ele destaca uma coisa que é uma característica
ótima do PAC. É bom para o País saber quem
é responsável pela gestão e que as coisas
não caem do céu. Falar mãe significa o trabalho
de criar um filho, de cuidar dele, principalmente quando ele tem
um problema.
A
capacidade do presidente de criar imagens é um instrumento
utilíssimo porque são imagens de fácil compreensão.
Ele fala: olha, se a obra não estiver andando, geralmente
mostra a pessoa, o coordenador local, e ela depois fala comigo.
E todo mundo fica de olho e avisa para a mãe do PAC. Esse
é um elemento muito importante de gestão.
As
obras estão na velocidade que a senhora esperava?
Dilma
- Nós nunca estamos contentes. Queremos sempre acelerar
mais. Por um motivo simples: o País parou de crescer durante
20, 30, 40 anos. Nós ainda estamos correndo atrás
da marca. Começamos a fazer as obras que ficaram acumuladas
nesses 40 anos, combinando com obras que são necessárias
para o futuro. Tudo isso faz de nós pessoas exigentíssimas
no prazo. Temos uma idéia de prazo, rapidez, vamos resolver,
resultado.
Ao
ser convidada para assumir o Ministério da Energia, no
primeiro governo Lula, a senhora poderia imaginar que seria a
candidata preferida dele para disputar a sucessão?
Dilma
- Pergunta capciosa... Eu não podia imaginar nem que seria
ministra-chefe da Casa Civil. Vou parar por aqui. Quando fui ser
ministra de Minas e Energia, eu me julguei uma pessoa realizada
que ganhou uma grande oportunidade. Fiquei assim... embasbacada.
É uma área de que eu gosto muito e ainda mais por
ele ter dito para mim que eu era uma das escolhas pessoais dele.
Foi uma coisa pra mim muito forte, emocionalmente forte. Aquilo
já era o máximo para mim. Quando fui chamada para
a Casa Civil, no meio da crise, achei que não podia dizer
não ao presidente em hipótese alguma. Dentro de
mim mesma eu nunca falei não pra ele e nunca vou falar
na vida. Eu tenho é que me superar, me virar e ir lá
fazer.
E
se da próxima vez ele falar: “Dilma você vai
ser minha candidata à Presidência”?
Dilma
- Ele nunca me falou isso.
Nem
insinuou?
Dilma
- Não.
Certa
vez, durante uma viagem ao exterior em 2004, o presidente Lula
me fez uma pergunta que vou te repetir agora: Você gostaria
de ser presidente da República?
Dilma
- Sim, todos gostariam. Todos os brasileiros e brasileiras gostariam.
Agora isso é, como vou dizer?... Outro dia vi um menino
pequenininho no colo da mãe e ela pediu ao presidente para
tirar uma foto. “Tira uma foto com meu menino porque ele
também quer ser presidente da República”.
O presidente pegou e abraçou a mãe e o menino.
Em
algum momento desta crise a senhora pensou em sair de cena e se
recolher à administração do PAC na Casa Civil.
Ou, ao contrário, teve mais vontade de partir para a disputa
política?
Dilma
- A Casa Civil, necessariamente, é um órgão
que faz a coordenação de governo. Esta é
minha função e não posso me descuidar dela.
A disputa política é intrínseca à
situação de cada momento. Quando diziam, olha, o
PAC é um factóide, um malabarismo, uma pirotecnia,
a gente tinha que disputar para dizer que não era isso.
A Casa Civil tem a função de defesa do governo nas
questões fundamentais que são os programas de governo.
Principalmente, quando são programas que qualquer pessoa
que tem compromisso com o País tem orgulho de participar.
Eu nunca pensei em me recolher a nada e estou fazendo o que deve
ser feito.
Como
a senhora recebe as críticas cada vez mais constantes da
imprensa, em especial das tuas amigas colunistas, que a acusam
de ser autoritária com subordinados e até com outros
ministros, sem jogo de cintura para a política, intransigente.
Como é a verdadeira Dilma Rousseff, segundo ela mesma?
Dilma
- É difícil eu responder a isso. É muito
difícil para uma mulher assumir funções de
coordenação, controle e fiscalização
de projetos, obras e ações, sem um preconceito em
relação às características mais tradicionais
da mulher. O que acho muito estranho é ser apontada como
única pessoa dura, autoritária, em um mundo de homens
meigos e que ninguém seja tachado de intolerante, a não
ser eu.
Algumas
coisas são intrínsecas da função,
alguém tem que cumprir prazos, cobrar prazos. Nada do que
eu exijo dos outros não é também exigido
de mim. Não se tem notícia de que eu tenha deixado
de ajudar qualquer ministro. Acho que trabalho igual a todo mundo.
Lá
no Sul se diz que todo mundo é “chinelão”,
no sentido de comum, banal, igual. Ninguém é o bom,
o máximo que pensa que é. A arte da vida é
saber disso, saber que você não pode tudo, ter muita
auto-ironia para se enxergar, divertir-se com os próprios
erros. Se achar que nunca vai errar, está roubado.
Nós
dois somos da geração 68, que chegou ao poder. Tudo
valeu a pena? Do que mais tem orgulho e do que se arrepende nesta
longa trajetória?
Dilma
- Eu tenho mais orgulho sabe do quê? Tudo tem que valer
a pena. Você não pode dizer hoje isso aqui não
pode, aquilo não pode. Você não escolhe. Você
vive um todo e arca com as conseqüências. Eu acho que
tudo valeu a pena. Não posso olhar com o olhar de hoje.
Não tinha na época a vivência e a experiência
que tenho hoje. Acho que tem uma característica nossa,
que vivemos 1968, que é exemplar: é a generosidade.
Em tudo o que nós fizemos. Ninguém pode dizer que
nós fizemos por razões subalternas. A gente realmente
acreditava que tinha que fazer um mundo melhor. Essa ponte nós
estamos fazendo aqui no governo Lula. Tem essa ponte direta porque
a gente queria isso.
Uma
vez li um texto do Jung que falava dos rituais de uma população
indígena. Eles acreditavam que o sol nascia e o sol se
punha por causa dos rituais. Isso constituía a centralidade
do homem. Por que estamos no mundo, afinal de contas? Por que
você está aqui? A nossa geração teve
isso muito forte.
Qual
o sentimento da mãe Dilma no dia seguinte ao casamento
de sua única filha? Deu vontade de casar de novo?
Dilma
- Até que deu, olha, foi muito bonito. Fiquei lá
olhando para ela e pesando: tomara que ela tenha vontade de superar
todas as mazelas da vida porque não é fácil.
Viver a dois tem que ter muita misericórdia um pelo outro.
E tomara que ela continue gostando dele tão forte como
gosta hoje. Me deu um sentimento de nostalgia, assim meio de melancolia.
Eles te um olhar de descobrir o mundo, um olhar diferente de nós.
Mas a gente tem outras vantagens, não pode jogar pedra
no passado.
Qual
o principal objetivo desta viagem de 11 dias ao exterior?
Dilma
- O objetivo imediato é o trem de alta velocidade. Vamos
discutir com coreanos e japoneses a ligação ferroviária
São Paulo-Rio. O segundo objetivo é a dragagem de
portos. Vamos fazer licitação internacional para
sete grandes blocos e os coreanos e japoneses têm as maiores
empresas de dragagem do mundo. E tem o lado de representação
do governo na comemoração dos 100 anos de imigração
japonesa para o Brasil.