Publicado
na Revista Época - Edição nº 508, fevereiro/2008.
09/02/2008 - 10:40 | Edição nº 508
Mário Corso
'Há um centro de valorização
da morte na internet'
O psicanalista afirma que é preciso punir aqueles que incitam
os internautas fragilizados ao suicídio
por
Eliane Brum
O psicanalista Mário Corso só aceitou dar esta entrevista
porque tem convicção de que Vinícius Gageiro
Marques, o Yonlu, foi vítima de um crime. E por que esse
crime, praticado nas "ruas escuras da internet", segue
levando adolescentes frágeis à morte. Foi uma decisão
difícil. Corso era o psicanalista do garoto de 16 anos
que se suicidou ao se trancar no banheiro com duas churrasqueiras
em chamas em julho de 2006. Seu paciente planejou a própria
morte com a ajuda de sites na internet e a transmitiu em tempo
real, incentivado por participantes de um chat. Quando Corso chegou
ao apartamento da família, em Porto Alegre, Yonlu já
estava morto.
É
terrível para qualquer pessoa falar sobre a perda de uma
vida. E é preciso muita coragem para um psicanalista submeter-se
à tremenda exposição que é falar sobre
a perda de um paciente. Depois de conversar com a mulher, a também
psicanalista Diana Corso, e as duas filhas, ele aceitou dar entrevista
a Época em nome do interesse público. Mário
Corso acredita que é preciso caçar aqueles que incitam
pessoas ao suicídio, encobertos covardemente pelo anonimato
da rede.
Ao
longo da entrevista de mais de duas horas, em seu consultório
na capital gaúcha, a dor do psicanalista era exposta. A
da família também. Sua mulher ligou três vezes
para saber se ele estava bem. Diana tinha razão para preocupar-se.
A taquicardia era perceptível, em muitos momentos ele ficava
ofegante, a voz quase sumia. Mário Corso sofria. Não
só porque doía falar sobre algo tão brutal,
mas também porque ele sente saudades de Yonlu.
QUEM É?
Psicanalista, casado, tem duas filhas e 48 anos. Nasceu em Passo
Fundo, Rio Grande do Sul. É professor e membro da Associação
Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa) O QUE PUBLICOU Monstruário
(Tomo Editorial) e Fadas no Divã (Artmed), em co-autoria
com sua mulher, a psicanalista Diana Corso
ÉPOCA
- Por que você aceitou dar essa entrevista?
Mário
Corso - Porque esses suicídios seguem acontecendo, incitados
por pessoas na internet, pessoas que não sabemos quem são
e que não são responsabilizadas pelo que fazem com
adolescentes, pelo que dizem a pessoas fragilizadas. Decidi dar
essa entrevista porque isso é um crime e precisa parar.
Temos um CVV, Centro de Valorização da Vida. E na
internet há um CVM, Centro de Valorização
da Morte. Talvez a gente nem saiba sobre outros suicídios
que aconteceram por aí, que tiveram como fator decisivo
algum tipo de CVM. Essas coisas não são tão
fáceis de saber. Mas precisamos ter com essas pessoas a
mesma preocupação que temos com outros criminosos.
Já existe uma preocupação grande com a pedofilia,
uma caça aos pedófilos na internet. Eu decidi dar
esta entrevista porque acho que a gente tem de caçar essa
gente também. Antes que eles matem mais. Eu acho que temos
de aprender a lidar com o fator mórbido da internet, que
são esses grupos de auto-ajuda que servem para não
deixar de ficar doente, para não deixar de usar drogas,
para não parar com a bulimia, com a anorexia. E temos de
aprender a lidar com essa gente covarde que diz a um adolescente
para se matar. A gente tem de criar formas de responsabilizar
quem faz esse tipo de coisa.
ÉPOCA
- Na carta que deixou aos pais, Vinícius escreveu que você
poderia ajudá-los a entender as razões do suicídio.
Por que ele se suicidou?
Corso
- Esse menino estava numa crise prolongada de angústia.
Não foi a primeira tentativa de suicídio dele. Ele
já havia tido crises anteriores que conseguiu contornar.
Uma vez ele se sentou na beira da cobertura e me ligou. A gente
ficou falando um bocado de tempo sobre se valia a pena pular ou
não. E ele não pulou. Ele precisava ouvir a voz
de alguém que o lembrasse da sua ligação
com a vida, dos laços que tinha com os que o rodeavam.
Não havia uma outra voz dizendo para ele pular. E acredito
que isso fez toda a diferença.
ÉPOCA
- A internet parece tê-lo auxiliado no suicídio em
dois momentos: nos sites que ensinavam métodos de tirar
a própria vida e nos chats em que ele discutia seu desejo
de se suicidar. Na hora do suicídio ele escreveu no chat
que estava se suicidando e pediu ajuda porque não suportava
o calor das chamas. Neste momento, o que essa voz na internet
representou?
Corso
- O que a internet faz é dar suporte a uma idéia.
Namorar a idéia do suicídio é uma coisa que
muita gente faz, é fantasia comum na adolescência
e visitante freqüente dos desesperados. Chegar à beira
de se matar também é algo que ocorre muito mais
do que se admite publicamente, mesmo com pessoas que estão
bem acompanhadas na vida, que possuem vínculos sólidos.
Mas poucos chegam a se matar. Na hora, falta uma energia extra.
Há uma força vital que nos segura no último
momento. Essa força que nos prende ao grupo, às
outras pessoas, ao quanto os outros gostam da gente e ao quanto
nós gostamos dos outros. Isso tece uma rede, uma teia que
nos suporta na vida. Muitas vezes, quando o sangue aparece nos
pulsos cortados, as pessoas acordam do seu transe mortífero
e pedem ajuda. Para dar esse último passo, se suicidar,
é preciso de um desespero, de uma desesperança muito
forte ou de alguém que te puxe para baixo.
ÉPOCA
- A polícia entendeu que não existem provas de incitamento
ao suicídio, portanto não houve crime. O que você
acha?
Corso
- Eu acredito que para o Vinícius foi absolutamente decisivo
o fato de alguém cortar essa teia que o prendia à
vida. Ele brincava com a idéia de morrer como uma saída
para as crises de angústia e desespero. Mas tinha laços
fortes com a vida que podiam resgatá-lo. Sem aquele último
estímulo ele não teria tido coragem para se matar,
como não teve das outras vezes. Talvez a polícia
tenha se sentido impotente frente ao tamanho da tarefa a fazer.
Porque realmente seria muito difícil encontrar e responsabilizar
essa gente. Sentiram-se impotentes e chegaram a essa conclusão
brilhante. Que o culpado era o suicida.
ÉPOCA - Por que ele se suicidou de uma forma "assistida"?
Ele chegou inclusive a botar uma foto das churrasqueiras com fogo
na internet. O que significou esse suicídio ao vivo pela
internet?
Corso
- Ele é de uma geração que se criou dentro
da internet. Essa é a questão que foi subestimada
por mim - e eu não posso falar por eles, mas talvez tenha
sido subestimada pelos pais também. Com 11 anos ele freqüentava
grupos de discussão onde se apresentava tendo 26. E ele
passava por 26 anos. Esse menino era superdotado, extraordinariamente
inteligente, e cresceu numa família muito estimuladora,
intelectualmente rica, com um pai e uma mãe muito cultos.
Ele sugou essa cultura rapidamente. O Vinícius herdou do
pai a profundidade política, social, e da mãe a
perspicácia emocional. Tinha o que poderíamos chamar
de excesso de lucidez. Mas sem condições de suportar
essa carga por causa da pouca idade. Era um menino que tinha uma
capacidade de compreender profundamente o mundo, mas não
tinha a consistência emocional para dar conta do que via,
do que decodificava. Reduzido a si mesmo, via-se deformado, feio,
pequeno. Ele tinha uma hipersensibilidade ao mundo que lhe fazia
bastante mal. Como se ele vivesse um pouco o noticiário,
o mundo como ele acontece. Era uma caixa de ressonância
do mundo.
ÉPOCA
- Isso significa que ele era mais afetado pelas grandes tragédias
do mundo ou pelas pequenas misérias ao seu redor?
Corso
- Ele sofria com a brutalidade do mundo. Este era um tema caro
para ele: sofria vendo as pessoas sendo humilhadas, sofria com
a hierarquia. Ele tinha uma compreensão hiperbólica
do mundo. Era como se para ele a escravidão não
tivesse acabado no Brasil. Ele ficava imaginando como era a vida
da empregada, do porteiro. Ele fica tentando imaginar como essa
vida era e como eles cabiam nessa vida que ele achava pequena
e estreita. E como sofriam por isso.
ÉPOCA
- Ao mesmo tempo, ele é descrito por algumas pessoas do
colégio como alguém que não se relacionava
muito com os outros, alguém que se dava bem com todo mundo
e ao mesmo tempo com ninguém, que vivia numa espécie
de mundo próprio.
Corso
- Houve várias fases dele. Ele teve dois tratamentos comigo.
O primeiro foi iniciado quando ele tinha 11 anos. Ele me procurou
por uma certa fragilidade que tinha. Já tinha esse desencaixe,
essa precocidade extraordinária. É difícil
viver numa sala de aula quando você entende muito o que
está acontecendo. Imagina se você fosse adulta e
tivesse de voltar para o primeiro ano. Aqueles empurrões
e cotoveladas, aquelas maldadezinhas. Ele estava sempre um pouco
à frente do seu tempo e isso fazia diferença para
os colegas dele. Ele ficou comigo dos 11 aos 13 anos na primeira
vez. Fez progressos muito importantes e saiu bem. Nessa época
ele se aproximou muito do pai e ficou mais extrovertido. Melhorou
também na sala de aula, ficou mais popular, ganhou até
um apelido, Pipoca. Eu tinha notícias esparsas dele e ele
estava bem. Em 2004 foi um período ótimo, em 2005
não foi tão bom e ele retornou.
ÉPOCA
- Desde quando você sabia que havia risco de suicídio
e que tipo de providência foi tomada?
Corso
- Eu soube desde o começo. Ele disse na primeira vez que
me procurou que havia pensado em se matar. Isso no segundo tratamento.
Eu mantive isso comigo até sentir que a situação
poderia escapar das minhas mãos. Então eu comuniquei
aos pais. E nós combinamos que ele ficaria em internação
domiciliar. Nesses casos sempre há alguém com o
paciente, ele não fica sozinho em momento algum. Os pais
já tinham desconfiança sobre isso, entenderam logo
e passaram a não desgrudar dele. Mas enquanto a gente cuidava
dele, tinha alguém que puxava ele para baixo. Aí
entrou o fator extra, que nós desconhecíamos. Não
sabíamos que ele tinha alguém que o incentivava
a achar que a vida não vale a pena. Ele havia me dito que
entrava na internet para ver formas de suicídio, a gente
discutiu muito sobre os suicídios que estavam ocorrendo
no Japão. Mas eu não sabia que ele discutia abertamente
o valor da sua própria vida na internet.
ÉPOCA
- Ele era depressivo? Usava algum tipo de medicação?
Corso
- Não usava. E eu não vejo razão para classificações
aqui. Isso não é relevante para essa discussão
ou para o público que está lendo a revista.
ÉPOCA
- Por que ele dizia que queria se matar?
Corso
- Ele não falava que queria se matar. Ele falava que era
impossível viver, que não se sentia com forças
para viver, o que é um pouco diferente de ter vontade de
morrer. Ele tinha uma vontade de desaparecer, de que algo cessasse
a dor constante que ele sentia.
Época
- Há quanto tempo ele estava nessa internação
domiciliar?
Corso
- Começou dois meses antes do suicídio.
ÉPOCA
- Vocês sabiam que havia risco de suicídio, você
e a família estavam cuidando dele, mas ao mesmo tempo havia
um outro enredo se desenrolando a partir da internet, dentro de
um mundo virtual. Como é isso?
Corso - Este foi o erro, o engano. Subestimar o papel da internet.
Eu uso a internet, mas eu não a habito, eu não moro
dentro da internet. Tem gente que mora.
ÉPOCA
- Ele morava dentro da internet?
Corso - Ele habitava nela. Não vamos achar que a internet
é uma coisa ruim a priori. Ele construiu a obra dele na
internet, a troca de músicas que resultou no disco interessante
que ele fez foi graças à internet. A internet pode
ser extraordinariamente interessante, ela possibilita encontros
que não estavam colocados antes. É o paraíso
dos solitários, das pessoas tímidas. Tem proporcionado
a construção de laços entre pessoas distantes.
Agora, por outro lado, a internet possibilita também o
contato de outro tipo de coisa que nunca aconteceria sem ela.
A internet não criou nenhum tipo de doença mental,
todas elas pré-existiam. Mas ela possibilita o incremento
de certas morbidades por uma possibilidade de compartilhar e,
a partir disso, criar uma identidade. Um exemplo é o que
acontece com a anorexia, uma doença gravíssima,
muitas meninas morrem disso. Antes da internet, uma não
encontrava a outra. Com a internet o que elas conseguem? Trocam
idéias sobre a anorexia não no sentido da auto-ajuda,
mas da manutenção da patologia. E da glamourização
dela. Encontram alguém que as apóia em permanecer
nessa atitude doentia, a construir uma identidade a partir dela.
Outro exemplo: imagina um sujeito pedófilo numa cidadezinha
no interior onde provavelmente ele era o único pedófilo.
Antes ele era uma aberração aos olhos da comunidade
e dele mesmo. Na medida em que ele consegue compartilhar isso
com outras pessoas na internet e descobre que há um monte
de gente como ele, isso faz com que tenha coragem de se pensar
enquanto grupo. Não como doente, mas como um estilo. A
internet possibilita uma série de coisas extraordinárias,
mas também uma série de coisas doentias.
ÉPOCA
- E como isso funciona no caso do suicídio?
Corso
- A internet tem de tudo, mas ela ainda é muito fraca e
medíocre no seu conteúdo. Com exceções,
ela é muito tola, não tem profundidade para quase
nada. Ela é o livro de areia que o (Jorge Luis) Borges
imaginou, mas sem profundidade, onde uma página não
tem nada a ver com a outra. Vale lembrar que, no conto, ele ficou
horrorizado e abandonou o livro. É isso que não
devemos fazer. Um dos problemas da internet é também
que a nossa geração não está lá
da mesma maneira, não tem uma geração anterior
a que está na internet. Ainda não há uma
tradição ali dentro, a internet é raramente
habitada por pessoas com um pouco mais de maturidade. Os jovens
estão muito sós nesse mundo virtual, meio entregues
à própria sorte. Então, além de empobrecedor,
o ambiente é também mais frágil e mais perigoso
pela falta de adultos.
ÉPOCA
- E o que podemos fazer? Nós vivemos numa espécie
de esquina histórica. Os pais de hoje pertencem à
geração que só conheceu a internet depois
de adultos. Seus filhos habitam a internet desde a infância.
Os pais vêem os filhos dentro do quarto, sentados, sozinhos,
digitando no computador, e ficam tranqüilos porque não
poderiam estar mais seguros: dentro de casa e sozinhos. Mas naquele
momento os filhos estão no mundo, sujeito a pedófilos
e perversos de todo o tipo, e sem pai nem mãe. Mesmo os
pais que conhecem os riscos estão impotentes porque não
dominam os códigos desse mundo virtual. Provavelmente quando
essas crianças e adolescentes forem pais, esse gap geracional,
pelo menos no sentido da internet, não vai mais existir.
Mas hoje, agora, o que podemos fazer?
Corso
- Eu resolvi dar essa entrevista para que se comece uma discussão
sobre isso. Não acredito em controle, acho que a internet
é incontrolável. É algo como tentar proibir
o papel. É inócuo, inútil, estúpido.
Mas ela está aí e a gente vai ter de inventar formas
para lidar com isso. Acho que o único jeito é a
velha teoria de sempre. Se você quer cuidar de seus filhos,
fique perto deles, tenha consciência do abismo que separa
as gerações na forma de se relacionar com esse meio
de comunicação. Procure dialogar com eles sobre
o que ocorre também em seu mundo virtual. Para a nossa
geração não está ocorrendo nada sério
ali, mas para os mais jovens amores, destinos e até a vida
e a morte podem estar sendo decididos na internet. Essa diferenciação
entre o real e o virtual não é tão radical
para eles. Há um portal em que eles transitam, lá
onde nós somente vemos uma linha divisória, uma
parede. É como a TV. A TV pode ser muito nefasta se ela
for a única via de acesso ao conhecimento de uma criança.
Mas se ela ficar diluída com a escola, com os pais, ela
é um estímulo a mais. Quem vai ficar mais exposto
à internet é quem tem menos laços reais com
o mundo, quem constrói laços prioritariamente virtuais.
O Vinícius estava num momento de muita fragilização
com o mundo. Então ele se voltou para a internet. Embora
ele também sofresse na internet, nos grupos de discussão.
Não era uma vida fácil nem no mundo virtual. Mas
a internet é um bom mundo para quem tem problemas com o
corpo. O corpo não está ali, ali é só
a palavra. Para quem é só corpo a internet não
funciona.
ÉPOCA
- Por que você acha que alguém faz um site de suicídio,
com métodos para tirar a própria vida? É
possível construir um perfil desse tipo de pessoa?
Corso
- É gente doente que exerce sua morbidez, seu sadismo.
Eu acredito que deve ter algum grau de sinceridade nessa negatividade
do mundo. O problema é que eles não sabem com quem
estão falando. Não têm consciência da
fragilidade das pessoas. Esse é o drama da internet. Acho
que nenhum adulto conseguiria chegar para um adolescente e dizer,
cara a cara: a vida não vale a pena, te mata. A internet
tem um valor moderno importante que é a abolição
das diferenças. Todo mundo tem o mesmo peso lá dentro.
Então as opiniões mórbidas, idiotas, têm
um peso muito grande também. Não há uma hierarquia
de informação, vale tudo. Acho que estamos num período
inicial da internet, que talvez seja o período mais pobre,
onde você pode encontrar uma opinião séria
ao lado de grandes besteiras. Para certos medíocres é
um paraíso, porque lá é o único lugar
em que sua voz é ouvida. Por exemplo, para cada site careta,
mal escrito, falando que drogas trazem problemas, você encontra
uma centena de depoimentos glamourizando as drogas. Ou seja: você
perde de goleada. Talvez a questão seja entrar na internet
para dizer o que achamos sobre algumas questões, com uma
linguagem e um conteúdo consistente. Precisamos aprender
a usar a internet, habitá-la. Talvez a gente tenha de andar
nessas ruas escuras. Talvez este seja um movimento necessário.
Talvez não dê para esperar pela geração
seguinte. Talvez tenhamos de entrar para ajudar quem está
lá. A nossa falta de saber técnico de entrar não
desqualifica toda a outra sabedoria que a vida nos deu para sair
destas ciladas mais banais que a internet coloca. Na verdade os
discursos sobre estas coisas são muito bobos, são
filosoficamente muito pobres. Você não encontra um
(Albert) Camus falando sobre suicídio. Só encontra
idiotas falando sobre suicídio. Aliás, a gente poderia
perguntar para esses sujeitos: "já que a morte é
tudo de bom, por que você não se mata antes?"
Acho que essa pessoa faria bem menos falta ao mundo do que o Vinícius.
ÉPOCA
- Você diz que subestimou o papel da internet. Mas sabendo
o que sabe hoje, se tivesse um paciente exatamente igual ao Vinícius,
o que você poderia fazer?
Corso
- Eu acho que um psicanalista, às vezes, tem de andar de
mão com o paciente no inferno. Só que eu não
sabia da totalidade desse inferno. Acho que se eu soubesse eu
teria ido lá junto. Teria vivido nessa comunidade. Era
preciso ter entrado, ou eu ou a família dele, nesses sites,
nesses chats. Era preciso ter ido atrás dele. Nós
achávamos que ele estava bem cuidado. Que naquele momento
de crise mais aguda ele estava sob a nossa influência. Mas
tinha um inimigo na trincheira que a gente não enxergou.
ÉPOCA
- Esse tipo de pessoa manipula que tipo de sentimento num adolescente?
Corso
- De uma forma simplificada, banal e rasteira, a idéia
de suicídio é uma idéia de negação
do mundo. É fácil, portanto, tentar vender a idéia
de aliar o suicídio a uma recusa radical do mundo. E essa
recusa radical do mundo é em si um pouco simpática.
Desse mundo que está aí fora, que não fui
eu que fiz, eu não quero saber. Ele está todo errado.
Eu recuso ele em bloco, eu vou-me embora. Dessa idéia inicial,
que tem um aspecto até um pouco contestatório, interessante,
para um passo mórbido, não há muita distância.
É isso que começa a fascinar alguns jovens. E acontece
num momento da vida em que para crescer é preciso sair
do olhar dos pais. Além disso, não vivemos um bom
momento civilizatório. Há uma geração
que está se criando sem utopia e sem religiões.
É complicado. As religiões dão razões
para estar no mundo, critérios do modo correto de fazê-lo,
embora o preço seja uma alienação muito grande.
As utopias também. Mas a ausência delas pode ser
bastante dura para um adolescente. Um adolescente se dá
conta da sordidez e da dureza do mundo e praticamente não
encontra muitas razões para entrar na arena. Uma psicanalista
francesa, Françoise Dolto, falava da adolescência
como "complexo da lagosta", porque estes animais soltam
a carapaça para poder crescer e secretar uma nova carapaça.
Enquanto isso ocorre eles estão vulneráveis, desprotegidos.
O adolescente é mais ou menos assim. Há um momento
da vida que para poder crescer a gente perde as defesas momentaneamente
até constituir novas. E é nesse momento de enorme
vulnerabilidade que este "por que não se mata"
é escutado como uma grande sugestão. O que é
dito nesses sites é que vale a pena morrer. E o que nos
mantêm vivos às vezes é mais tênue do
que a gente imagina. O que nos mantêm vivos é uma
rede de pessoas que dependem de nós e que a gente depende
delas. Uma rede amorosa, afetiva, de compromisso. Essa rede de
suicídio é uma outra rede, que diz que não
precisa estar aqui. Ela faz um contraponto a este coletivo que
diz "viva". É um coletivo que diz "morra".
O Vinícius precisou de ajuda para se suicidar. E essa voz
foi muito sedutora.
ÉPOCA
- Você acha que ele gostaria desse CD lançado no
mundo real?
Corso
- Eu tenho certeza. Ele tinha toda uma dinâmica de busca
de reconhecimento e é isso que o CD significa. Postumamente
ele conseguiu o lugar no mundo real pelo qual tanto brigava.
ÉPOCA
- Ele deixou o CD como legado?
Corso
- Creio que esse mérito é dos pais dele. O CD não
estava organizado. Eu mesmo tinha algumas músicas no meu
computador. Foi o pai que organizou o CD e o fez com a ajuda de
alguns amigos. Este CD é um re-encontro do pai dele com
ele e acho bem corajoso o que ele está fazendo. A resposta
mais comum nesses casos é a depressão e o apagamento,
o esquecimento do filho. Eu vi tantos casos em que os filhos são
cortados das fotos, como se nunca tivessem existido, como se estes
pais nunca tivessem passado por isso. Acho que é uma atitude
digna, corajosa, bem-vinda para o Vinícius, para os pais,
para a música, para todo mundo.
ÉPOCA
- Perder um paciente deve ser terrível. É uma sensação
de fracasso?
Corso
- É uma sensação completa de fracasso, que
coloca em xeque tudo o que a gente pensou e estudou. A gente segue
falhando, mais do que gostaria, mais do que aprende a admitir.
Então é mais uma derrota. Mas nem todas as derrotas
são tão catastróficas como essa. E quando
isso acontece a missão não terminou, porque temos
que cuidar de quem ficou. A gente está arrasado, mas o
jogo não acabou.
ÉPOCA
- Como foi viver essa situação?
Corso
- Foi pior depois. Eu tenho um ar-condicionado no cérebro
para questões de emergência. Depois é que
vem o rebote. Eu tinha de suportar, eu tinha de ajudar os pais.
Se eu estava arrasado, imagina como eles estavam. Eles também
estavam destruídos, mas numa outra potência. Eu tenho
uma filha da idade do Vinícius e consigo me colocar no
lugar deles, consigo imaginar o tamanho do rombo que essa morte
deve ter feito. E há um grau de responsabilidade nisso.
Era eu que estava ali. E eu falhei.
ÉPOCA
- Mas há um limite...
Corso
- Sim, há um limite, há uma onipotência. A
gente não pode ganhar todas, curar todos. Mas era eu que
estava lá quando a coisa não funcionou. E isso é
duro. Se os pacientes não são um número,
isso é muito duro. O Vinícius era um paciente diferente.
Como ele era extraordinariamente inteligente, ele dizia coisas
desconcertantes, que nem todas as pessoas conseguem nos dizer.
Então fazia uma marca. Era um desafio analisar o Vinícius.
Como é que você consegue passar o valor da vida para
um sujeito muito inteligente, sem ser piegas? Eram discussões
praticamente filosóficas sobre o valor da vida. Eu tenho
saudades dele. Durante meses eu pensava no Vinícius todos
os dias. Em algum momento do dia me vinha algo que ele tinha falado.
ÉPOCA
- Em algum momento deu vontade de desistir de ser analista?
Corso
- Sim. E não só por causa dele. Um analista é
um sujeito que tem de ter uma dose extra de resistência
à frustração para suportar sua própria
impotência. É muito difícil mudar as pessoas.
Mesmo quando elas precisam desesperadamente disso.
ÉPOCA
- E por que você nunca desistiu?
Corso
- Por que ainda não senti que inventaram algo melhor que
a psicanálise. Tem aquela frase do (Winston) Churchill
que eu gosto muito, em que ele diz que a democracia é a
pior forma de governo excetuando todas as outras. Pois a psicanálise
é a pior forma de terapia excetuando todas as outras. Se
os nossos resultados são parcos, eles ainda são
melhores que todos os outros, são mais humanos. A verdade
é que a gente vive num estágio curioso da civilização.
A gente tem conquistas tecnológicas extraordinárias,
avanços, mas as ciências que cuidam do homem são
muito precárias nas suas ferramentas de análise,
de resolução de problemas no âmbito pessoal.
ÉPOCA
- Mudou seu jeito de lidar com a internet?
Corso
- Mudou. Eu tenho tentado aprender com as minhas filhas e com
meu genro a entrar mais, saber como é esse mundo e como
ele funciona. Mudou muita coisa. Eu tenho de conviver com um buraco
dentro de mim, como com qualquer perda que a gente tem. Os psicanalistas
apanham bastante. E algumas cicatrizes são para sempre.