Brasil, 1968:
o assalto
ao Céu,
a descida ao Inferno
Por Mário Maestri *
Os
inícios dos anos 1960 haviam sido contraditórios
para as lutas sociais no mundo. Em 1964, sob a orientação
colaboracionista do Partido Comunista, o movimento popular brasileiro
fora derrotado sem lutar. Em 1965-6, a mesma política facilitara
o massacre de um milhão e meio de comunistas e a consolidação
da ditadura na Indonésia. O assassinato do líder
marroquino socialista Ben Barka, na França, em outubro
de 1965, e a deposição de Ben Bella, por Boumedienne,
na Argélia, em junho do mesmo ano, registravam também
os limites da luta pela emancipação social, sob
a direção de classes burguesas nacionais tidas como
progressistas.
A
década iniciara-se também sob signos auspiciosos.
Nas barbas do gigante imperialista, em 1959, a partir da Sierra
Maestra, um grupo de jovens revolucionários galvanizara
a população da pequena ilha e vergara a ditadura
odiada. Dois anos mais tarde, a revolução cubana
assumia caráter claramente socialista. Em abril de 1961,
o fiasco da invasão imperialista da baía dos Porcos
aumentara a humilhação estadunidense. Sobretudo,
na Indochina, avançava incessantemente a luta armada das
forças populares vietnamitas, apesar dos ingentes recursos
militares empregados pelos USA.
A
derrota brasileira
A
derrota no Brasil pesara fortemente sobre a conjuntura mundial.
No início da década de sessenta, amplos setores
populares e médios haviam aderido às propostas de
difusas reformas de base que, prometia-se, resgatariam os marginais
das cidades e dos campos e relançariam o industrialismo
que modernizara relativamente, nas três décadas anteriores,
a anacrônica estrutura rural da nação. Em
1964, o projeto nacional-reformista fora abortado violentamente.
Em nome das classes proprietárias do país, os militares
impuseram a ditadura, reprimindo duramente o movimento popular.
A derrota fora ainda mais frustrante porque ocorrera sem qualquer
resistência, precisamente quando muitos se julgavam a um
passo da vitória.
Os
grandes líderes populistas – Jango, Brizola e Arraes
– abandonaram o país sem resistir. Brizola propusera,
inutilmente, oposição de última hora, rejeitada
terminantemente pelo presidente João Goulart, seu cunhado.
O Partido Comunista Brasileiro, a grande organização
da esquerda, de orientação pró-soviética,
mantivera até o triste fim do governo constitucional seu
atrelamento ao populismo nacionalista, emperrando a organização
autônoma dos trabalhadores. Após o golpe de 1964,
o Partidão reafirmou sem qualquer autocrítica sua
política colaboracionista.
Porém,
no Brasil, a euforia dos vencedores seria curta. Através
do mundo, a crise capitalista mundial, que se insinuaria nas principais
economias mundiais, em 1967, por primeira vez, após longos
anos de crescimento ininterrupto, exigia que trabalhadores e assalariados
apertassem os cintos, para que o grande capital tirasse suas castanhas
do fogo. Desde abril de 1964, os militares brasileiros intervieram
nos sindicatos; parlamentares populares tiveram os direitos políticos
cassados; militares democratas foram reformados; conquistas sociais
foram confiscadas; a renda da classe média e dos trabalhadores
despencou devido à violenta política recessiva ditada
pelo grande capital ao governo subserviente do ditador Castelo
Branco [1964-67].
O
desemprego aumentava. A inflação crescia. As classes
médias passavam desiludidas para a oposição,
após haverem marchado, em março de 1964, com Deus,
pela pátria e pela família, convocadas pelo imperialismo,
pela Igreja e pelos partidos de direita, preparando a intervenção
militar que salvaria o país da “ditadura sindicalista”.
Políticos anti-populares, ou que haviam apoiado o golpe,
como Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek, marginalizados do
poder, uniram-se a João Goulart em uma efêmera “Frente
Ampla”, em fins de 1966, ao compreender que os militares
pretendiam eternizar-se no poder.
Poder
Negro
A
situação internacional era tensa e dinâmica.
Após o fiasco dos regimes árabes conservadores,
com destaque para o Egito, a Síria e a Jordânia,
na Guerra dos Seis Dias, contra Israel, de inícios de junho
1967, a guerrilha palestina assumia a luta anti-sionista em lugar
das direções conservadoras desmoralizadas. Com a
crise econômica chegando aos USA, em boa parte devido aos
gastos de guerra, que antes haviam apenas garantido lucros ao
grande capital, o movimento pacifista estadunidense questionava
duramente a intervenção no Vietnã e os valores
do american way of life.
O
imperialismo yankee era golpeado no próprio ventre. Malcolm
X fora assassinado em fevereiro de 1965, em Nova York, mas o black
power fortalecia-se e os bairros negros ardiam sob o fogo do ódio
da população humilhada. Os hispano-estadunidenses
e as próprias populações ameríndias
levantavam também a cabeça. No Vietnã, em
30 de janeiro 1968, morreriam os sonhos de vitória militar,
com a ofensiva do Ano Tet, durante a qual os vietcongs atacaram
mais de trinta cidades sul-vietnamitas e a própria embaixada
USA, em Saigon. Entretanto, a classe operária estadunidense
mantinha-se imóvel sob a hegemonia do grande capital.
De
31 de julho a 10 de agosto de 1967, reunia-se, em Havana, Cuba,
o primeiro encontro internacional da Organização
Latino-Americana de Solidariedade [OLAS]. Após teorizar
sumária e superficialmente a experiência vivida na
ilha, a direção cubana propunha claramente a generalização
incondicional da luta guerrilheira rural – “Criar
um, dois, mil Vietnãs”. Ainda que em forma confusa
e voluntarista, a OLAS rompia o monopólio político
soviético, que defendia, na América Latina e através
do mundo, a colaboração e subordinação
do movimento popular às burguesias nacionais, apresentadas
como progressistas.
A
presença de Carlos Marighella no encontro da OLAS, noticiada
amplamente, ao ser conhecida no Brasil, levou à expulsão
do conhecido militante comunista do PCB. A captura e morte de
Guevara, em 8 de outubro de 1967, na selva boliviana, foi vista
com um duro percalço no longo caminho a ser trilhado, e
não como resultado das inconseqüências da proposta
de início da luta armada por pequenos grupos à margem
das lutas e da consciência reais dos trabalhadores.
No
Brasil, como na França, na Itália, na Alemanha Federal,
no Japão, no México e em tantas outras regiões
do mundo, 1968 surgiria sob o signo da resistência já
explícita. A crise econômica de 1967 levara a que
o movimento operário brasileiro, lutando contra o arrocho
salarial, se recuperasse, minimamente, dos golpes sofridos. Em
16 de abril, mil e duzentos operários da siderúrgica
Belgo-Mineira cruzavam os braços, em Contagem, Minas Gerais.
Logo,
dezesseis mil trabalhadores encontravam-se em greve. O movimento
encerrou-se, no início do mês seguinte, com um abono
salarial de 10%. No 1° de maio de 1968, outra importante vitória.
O governador Abreu Sodré e sua comitiva, convidados por
sindicalistas pelegos e do PCB para subir ao palanque da praça
da Sé, foram vaiados, escorraçados e obrigados a
refugiar-se na catedral paulistana. Os participantes do comício
queimaram o palanque e partiram em passeata. No mês seguinte,
eclodiram breves paralisações nas montadoras de
São Bernardo.
Paris
brûle-t-il?
Em
maio, fortíssimos ventos europeus avivavam o braseiro nacional.
A cidade de Paris e, a seguir, a França, foram convulsionadas
pelo estudantado universitário enragé. Muito logo,
o movimento operário iniciou dura e longa greve geral.
O governo De Gaulle recuou, a ordem burguesa tremeu, falou-se
em governo popular, antes que o Partido Comunista Francês
canalizasse a mobilização da rua e as ocupações
de fábrica para a luta institucional, enterrando-as sob
um estrondoso fracasso eleitoral.
O
maio francês galvanizou o mundo, colocando quase nas sombras
as lutas estudantis e operárias, igualmente muito duras
na Itália e na própria Alemanha Federal, avivada
neste último país pelo atentado ao líder
estudantil Rudi Dutschke, em 11 de abril de 1968.
No
mesmo mês era assassinado Martin Luther King, em Memphis,
Tennessee. Na França, lutara-se contra o autoritarismo,
contra a discriminação, contra os privilégios,
pelo socialismo operário e democrático. Uma geração
de líderes de vinte anos conquistava a juventude do mundo,
com seu radicalismo, inconformismo, desprendimento, coerência
– Daniel Cohn-Bendit, Alain Krivine, Jacques Sauvageot,
etc.
A
vitória cubana impusera o princípio de¬ que
a revolução iniciaria pela ação exemplar
de alguns guerrilheiros. Em 1967, o foquismo seria teorizado,
em Revolução na revolução?, pelo jovem
francês Regis Debrey, intelectual de rápida vocação
guerrilheira de pouco sucesso. Se o foco não pudesse ser
lançada no campo, seria iniciado na cidade. Desde janeiro
de 1967, o ativismo dos Guardas Vermelhas contra a restauração
capitalista, hoje plenamente vitoriosa, prestigiava o maoísmo,
sobretudo entre os jovens católicos radicalizados. A ação
das organizações trotskistas na França propagandearam
o marxismo-revolucionário, o anti-stalinismo, o anti-burocrático,
tornando, a seguir, Ernest Mandel figura pública mundial.
Fragilizado
pela derrota de 1964, o PCB explodia em uma constelação
de grupos radicalizados. Jovens chegados em boa parte da Juventude
Universitária Católica [JUC] e da Juventude Operária
Católica [JOC] aderiam à luta anti-imperialista
e anti-capitalista. Então, o Brasil conhece uma multiplicidade
de pequenas organizações revolucionárias
– ALN, PCBR, AP, POLOP, VAR-Palmares, POC, Fração
Bolchevique-Trotskista, MRT, etc. – com algumas centenas
de militantes, mais comumente de 17 a 25 anos, e abrangência
em geral regional.
A
juventude universitária e secundarista abraçava
a luta política, cultural e ideológica, com destemor,
magnanimidade e impaciência. Saia às ruas pichando
– literalmente, pois, na época, não havia
o spray – "Mais verbas e menos canhões";
"Um, dois, mil Vietnãs", “O povo unido
derruba a ditadura”, “Viva a aliança operário-estudantil”.
Conscientes que não há prática sem teoria,
os jovens militantes liam sem cessar, sobretudo história,
economia, sociologia – A revolução russa,
de Trotsky; O diário na Bolívia, de Guevara; os
três Profetas, de Isaac Deutscher; A revolução
brasileira, de Caio Prado Júnior; O livro vermelho, de
Mao; os Poemas do Cárcere, de Ho Chi Minh.
Em
1968, por primeira vez no Brasil, a Civilização
Brasileira publicava O capital, de Kark Marx. Militantes imberbes
devoravam os grossos volumes, de fio a pavio, página por
página, sem compreenderem muito. Estudavam-se e debatiam-se
os mínimos detalhes da revolução russa, chinesa
e cubana, ainda que fosse bem menor o interesse sobre a história
do Brasil, sobretudo do período anterior a 1930, durante
o qual as categorias da sociologia do capitalismo não eram
plenamente funcionais. Pelo país afora, discutia-se e polemizava-se
duramente. O futuro estava ao alcance da mão. Abraçavam-se
as nuvens, em um assalto aos céus.
A
cultura é do povo
A
explosão de criatividade invadiu as artes, sobretudo a
música, o teatro, o cinema, a produção editorial
nacionais. Uma estética radical de raízes tupiniquins
garantia momentos de glória ao cinema nacional. Nélson
Pereira dos Santos filmara o clássico Vidas Secas, em 1963,
e Anselmo Duarte conquistara Cannes, com o Pagador de Promessas,
de 1962. O quase menino Glauber Rocha dirigira Terra em Transe,
em 1967, e concluiria, em 1969, O dragão da maldade contra
o santo guerreiro. Filmaria a grande mobilização
carioca de 1968, para projeto cinematográfico jamais concretizado.
Bertolt
Brecht era uma constante nos teatros nacionais – Os fuzis
da senhora Carrar; Galileu Galilei; A ópera dos três
vinténs; Mãe coragem e seus filhos. A dramaturgia
nacional plantava raízes próprias com Liberdade,
liberdade e Arena conta Zumbi, de 1965, Arena conta Tiradentes,
de 1967, e com encenações explosivas como Roda-viva,
de 1968, objeto de ataques de grupos pára-militares direitistas.
Em um país de poucos leitores, com a televisão ainda
engatinhando, o combate cultural enfuriava, quando se tratava
da música popular. Apenas parcialmente inconscientes do
papel que cumpriam, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderléia
e a turma da “Jovem Guarda” pregavam a despolitização
e só pediam “que você me aqueça nesse
inverno e que tudo mais vá para o inferno”. A esquerda
dominava totalmente o campo: Caetano, Chico, Elis Regina, Jair
Rodrigues, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Vinícius
de Morais, etc. Quando dos festivais da canção,
a disputa politizada transformava-se em uma quase batalha campal.
Através
da música, debatiam-se os projetos para o futuro do país.
Em uma época sem cerimônias, iconoclasta, o público
levantava-se contra os monstros sagrados que construía,
caso ousassem sair da linha, ou do que se pensava que fosse a
linha. Em 28 de março de 1968, três dias antes do
quarto aniversário do golpe, as polícias militares
do Exército e da Aeronáutica invadem o restaurante
do Calabouço, no Rio de Janeiro, e disparam, à queima-roupa,
contra os estudantes, matando Édison Luís de Lima
Souto, de 18 anos. No dia seguinte, sexta-feira, a antiga capital
da República pára para que sessenta mil populares
acompanhem a despedida ao secundarista.
A
resposta é violenta. Por diversos dias, a cidade torna-se
campo de acirrada batalha. De um lado, estudantes e populares.
Do outro, polícia e exército. Universitários,
secundaristas e populares são mortos. Ao deslocarem-se
pelas ruas do Centro, os soldados protegem-se debaixo das marquises
dos objetos atirados desde os edifícios. Um policial militar,
a cavalo, morre ao receber na cabeça um pesado balde ainda
carregando cimento fresco, lançado desde um edifício
em construção.
Cem
mil contra a ditadura
A
agitação estudantil alastra-se pelo Brasil, com
manifestações nas principais capitais. Na quarta-feira,
26 de junho, o movimento alcança seu ápice. No Rio
de Janeiro, cem mil manifestantes concentram-se na Cinelândia
e desfilam pelo Centro, em uma demonstração permitida
pelo governo. Cinqüenta mil pessoas protestam nas ruas de
Recife. As grandes manifestações alcançam
efeito inesperado. Dias mais tarde, uma comissão da “Passeata
dos Cem Mil”, do Rio de Janeiro, é recebida, em Brasília,
pelo ditador Costa e Silva. Entre os membros da delegação
encontra-se um representante da UNE, entidade colocada na ilegalidade,
imediatamente após o golpe. Entretanto, o encontro não
tem conseqüências.
A
mobilização operária levara a oposição
sindical a planejar um amplo movimento grevista para o fim do
ano, quando da data-base de importantes categorias. A explosão
das manifestações de junho aceleraria a greve. Em
16 de julho, José Ibrahim, presidente do sindicato dos
metalúrgicos, de Osasco, de 20 anos, ligado à organização
militarista VPR, põe-se à frente de uma paralisação
da COBRASMA, com ocupação da empresa e aprisionamento
dos funcionários graduados, à qual aderem dez mil
trabalhadores, de outras indústrias. O movimento exige
reajuste de 35%, reposição salarial cada três
meses e outras reivindicações.
A
ditadura militar responde violentamente. Centenas de trabalhadores
são presos e despedidos. A COBRASMA é invadida.
José Ibrahim é, a seguir, preso e banido para o
Chile. Zequinha, dirigente operário da COBRASMA, é
preso e torturado. Após cinco dias, a greve quebrava-se.
Uma segunda paralisação, em Contagem, Minas Gerais,
em outubro, é reprimida com facilidade. A greve geral do
fim do ano jamais seria tentada.
No
país, decresce a mobilização. Em 12 de outubro,
o movimento estudantil, espinha dorsal da oposição,
recebe forte golpe. Subestimando a repressão, a direção
da UNE reúne, para seu 30° Congresso, em um sítio
em Ibiúna, cidadezinha do interior de São Paulo,
milhares de delegados, de todo o país. A prisão
dos participantes permite a detenção das direções
e o mapeamento das lideranças estudantis do norte ao sul
do país. No mesmo dia em que caía o congresso de
Ibiúna, era varado pelas balas de um comando militar da
VPR, diante de sua residência, em São Paulo, o capitão
estadunidense Charles Chandler, funcionário da CIA, estudando
sociologia no Brasil.
Os
dois acontecimentos ilustravam a orientação que
a resistência adotaria nos anos seguintes. Ações
armadas de grupos de corajosos jovens militantes, isolados socialmente,
pretendendo substituir-se ao movimento de massas em refluxo. Em
2 de outubro, na capital mexicana, na Praça das Três
Culturas, de duzentos a trezentos estudantes e populares foram
massacrados pelo exército e policiais, durante concentração,
dez dias antes do início dos Jogos Olímpicos, que
se realizaram sem quaisquer pruridos morais.
Sobretudo
de 1969 a 1973, organizações de esquerda militaristas,
inspiradas no foquismo guevarista, lançariam ações
espetaculares – assaltos a bancos; seqüestros de embaixadores
e de aviões; execuções de torturadores; guerrilhas
rurais etc. – sem que os trabalhadores urbanos e rurais
aderissem à proposta de luta armada imediata, milhões
de anos-luz longe de suas consciências, necessidades e capacidade
de organização, na época.
Isoladas,
as organizações seriam dizimadas, uma após
a outra, pela repressão, que se estenderia igualmente aos
militantes voltados para a organização dos trabalhadores
e classes populares. Por esses anos, automóveis da nova
classe média ascendente invadiam as ruas portando o autocolante
“Brasil: ame-o ou deixe-o”, distribuído pela
repressão, simples tradução da consigna direitista
estadunidense America love it or leave it.
Sem
lenço nem documento
Em
28 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção,
da Globo, em São Paulo, acompanhado pelos Mutantes, Caetano
Veloso apresenta a música É proibido, proibir, vestido
de roupas de plástico colorido, com colares exóticos
no pescoço, enquanto um jovem estadunidense, ainda mais
psicodélico, salta e berra no palco, como parte da coreografia.
Da competição participava a canção
finalista “Caminhando” [Para Não Dizer que
Não Falei das Flores], de Geraldo Vandré, que se
tornaria uma espécie de hino da resistência. “Vem,
vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe
faz a hora/ Não espera acontecer.”
As
históricas vaias que recebe Caetano Veloso certamente interpretavam
a consciência do público, formado quase exclusivamente
por jovens, do distanciamento cada vez maior de parte da intelectualidade
da resistência em refluxo. Em 1972, Elis Regina cantaria
querer apenas “uma casa no campo, do tamanho ideal…”
A defecção de seu parceiro Jair Rodrigues –
“O morro não tem vez/ e o que ele fez já foi
demais/ Mas olhem bem vocês/ Quando derem vez ao morro/
Toda a cidade vai cantar./” – seria ainda mais bucólica.
Nos
anos seguintes, apenas alguns artistas continuariam segurando
a peteca e cutucando a onça com vara curta. Entre eles,
sobretudo Chico Buarque, atacando nem que fosse com um despretensioso
roquezinho, no estilo “Você não gosta de mim,
mas sua filha gosta”, ou com composições clássicas
e duras como Fado tropical, com Ruy Guerra, de 1972-3, ou Cálice,
de 1975, com Gilberto Gil. Seu Apesar de você, de 1970,
tornaria-se o hino da luta final contra a ditadura e da esperança
de uma reparação dos crimes por ela cometidos que
até hoje não se concretizou – “Hoje
você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não
tem discussão”; “Você vai pagar e é
dobrado/ Cada lágrima rolada/ Nesse meu penar”.
O
ano, que nascera sob o signo da vontade popular, concluía-se
sob o tacão militar. A resistência iniciava sua descida
aos infernos. Em 29 de agosto de 1968, tropas policiais e militares,
poderosamente armadas, invadiam a Universidade de Brasília.
As cenas registradas pela imprensa lembravam a ação
das tropas de ocupação nazistas. Estudantes são
obrigados a marchar com as mãos à cabeça
e a deitar-se, sob as miras das armas.
O
golpe seria desferido dias mais tarde. Um anódino pronunciamento
do deputado Márcio Moreira Alves, em 2 e 3 de setembro,
pedindo o boicote da população ao desfile de Sete
de Setembro, serve para que os militares apresentem o pedido de
levantamento da imunidade do parlamentar, a fim de instaurarem
o processo que desagravaria o pundonor castrense arranhado.
Em
12 de dezembro, o Congresso Nacional rechaça o pedido aviltante.
No dia seguinte, 13 de dezembro de 1968, o governo liquida o que
restava de liberdade democrática. O caso Márcio
Moreira Alves era uma justificativa. No início do ano,
em abril, o brigadeiro João Paulo Burnier propusera ao
Parasar, serviço de salvamento da Aeronáutica, uma
ampla campanha terrorista, com execuções individuais
e atentados de massa, para fechar de todo o regime.
O
plano fora frustrado devido à oposição do
capitão-aviador Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho,
castigado e reformado pelo seu destemor. O Ato Institucional nº
5 cerrou o Congresso, as Assembléias Legislativas, suspende
o habeas-corpus, fortaleceu a censura, preparou o caminho para
a repressão, para o aprisionamento, para a tortura, para
a eliminação dos opositores.
O
refluxo da mobilização popular tinha raízes
muito mais profundas do que a repressão. Elas haviam passado
despercebidas a uma oposição formada, em sua grande
maioria, por jovens que apenas despertavam para a vida política.
Desde inícios de 1968, após anos de recessão,
a economia nacional expandia-se. A super-exploração
dos trabalhadores, o ingresso de capitais internacionais, a reorientação
da produção para a exportação, a abertura
de novos mercados, etc. relançavam a produção
interna. O desemprego caía, a acumulação
de capitais crescia, o empresariado nacional apegava-se ao regime
que permitia aumentar fortemente seus ganhos.
Agora,
para os empresários, falar em democracia e direitos sindicais
era uma indecência. Ao contrário, eles pediam, com
insistência, mais repressão, chegando a financiar
e participar diretamente da tortura, junto a policiais e militares.
Nas décadas seguintes, a população nacional
pagaria pateticamente a conta social e econômica do Milagre.
Em meados de 1968, a expansão econômica e a repressão
policial ganhavam vastos setores sociais, sobretudo das classes
médias, para uma posição de apatia, se não
de apoio inicialmente tíbio, a um regime militar que lhes
prometia realizar os mais queridos desejos.
A
queda da inflação, financiamentos habitacionais
acessíveis, empréstimos a baixo custo permitiam
que importantes setores das classes médias conquistassem
o sonho da casa própria, do primeiro automóvel,
da primeira viagem à Europa. Nos anos seguintes, ao visitar
o Velho Mundo, os filhos do Milagre manteriam-se distantes dos
apestados banidos e exilados que, eventualmente, encontravam.
Em
1969, em Pequeno burguês, Martinho da Vila, criticava o
movimento estudantil, festejando a possibilidade de formar-se
nas universidades pagas, incentivadas pela ditadura: “Dizem
que sou burguês/ Muito privilegiado /Mas burgueses são
vocês/.” Também explícitos eram Dom
e Ravel, em 1970, com “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/.
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil./
Ninguém segura a juventude do Brasil.” O claro sucesso
de público dessas músicas registrava os novos ventos.
Em
um cenário de progressão social, as classes médias
fechavam comumente os olhos para a super-exploração
das classes operárias e para a repressão da oposição.
Os militantes que haviam nadado como peixe na água, por
entre uma população alçada contra o regime
militar, sentiam-se agora como lambaris na frigideira. Nas Universidades,
eram apontados com o dedo; antigos companheiros trocavam de calçada,
para não serem vistos ou falarem com o famigerado subversivo.
A
expansão econômica neutralizaria importantes setores
operários. Os baixos salários e os altos ritmos
de produção foram vistos como uma quase libertação,
por trabalhadores recém-chegados do campo. Jornadas de
doze e mais horas de trabalho permitiam a aquisição
de produtos de consumo durável, antes fora do alcance do
orçamento popular – televisor, refrigerador, etc.
Sobretudo a expansão da indústria metal-mecânica
criaria uma jovem aristocracia operária, bem paga relativamente.
Ela se confrontaria, poderosamente, com o regime, mais tarde,
em fins dos anos 70, quando o retorno da inflação
corroeria os salários.
Ousar
lutar, ousar vencer
A
modernização conservadora do país originaria
um funcionalismo público federal bem remunerado, empregado
nas grandes estatais, em expansão. O crescimento selvagem
do ensino privado superior diminuía a pressão social
devido à falta de vagas nas universidades públicas.
As universidades federais foram reorganizadas, segundo padrões
estadunidenses. Por primeira vez, criava-se uma burocracia acadêmica,
bem paga e bem financiada, que mergulharia, em grande parte, por
mais de uma década, em um calmo e cômodo apoliticismo
travestido de neutra cientificidade.
Isolados
socialmente, insensíveis ao novo contexto nacional, as
organizações armadas travaram, a partir de 1969,
o combate nas trevas a que se refere Jacob Gorender, em seu livro
homônimo, pequeno clássico sobre aqueles duros anos.
Presos entre o confronto dos grupos armados e a repressão,
as organizações que não haviam se deixado
arrastar pela aventura militarista, tiveram suas possibilidades
de intervenção duramente diminuídas, no contexto
do confronto armado que se vivia no país.
Incapaz
de apresentar um projeto político que interpretasse as
necessidades das amplas massas e apresentasse formas de luta e
de organização adaptadas à época,
crescentemente isolada, a militância de esquerda caiu combatendo,
foi aprisionada, tomou o caminho do exílio ou procurou
sobreviver, na dura situação de ditadura. Nos mais
duros momentos, agoniados pelo peso da derrota, centenas de militantes
permaneceram no país, organizando a resistência como
podiam.
A
ditadura do capital, que parecia vacilar, em 1968, manteria-se
ainda por longos anos, até 1985, quando a mobilização
operária e popular conquistaria, finalmente, a redemocratização
sem, porém, obter, no momento da transição,
o direito às eleições diretas, conhecendo
uma nova derrota, ao substituir-se ao regime militar governo que
manteve no essencial as modificações institucionais
empreendidas nos vinte anos de ditadura, em desfavor das classes
subalternas, em favor dos privilegiados. De certo modo, simplesmente,
“se mudava tudo, para que tudo ficasse igual”.
Aprofundada
pela vitória da ofensiva neoliberal internacional de fins
dos anos 1980, quarenta anos mais tarde, neste 2008, a derrota
de 1968 pesa ainda poderosamente sobre a vida nacional. Aquelas
jornadas memoráveis são cada vez mais lembradas
para, ainda com nostalgia condescendente, assinalar os muitos
erros, os inúmeros enganos, para sugerir que jamais se
devia ter combatido, que a batalha fora perdida, de antemão
– como é o caso de Zuenir Ventura, em seu best-seller
1968: o ano que não terminou.
Nesse
2008, permanece singularmente pertinente a concepção
que sem “ousar lutar”, não é possível
vencer e que não há pior derrota que a sofrida sem
combate. As jornadas de 1968, no Brasil e no mundo, não
constituem simples sucessos históricos a serem narrados.
Passados quarenta anos, 1968 permanece como esfinge enigmática,
exigindo que sejam desvelados seus complexos sentidos. Como poderoso
farol, segue ainda indicando, mesmo muito longe, no horizonte,
o caminho seguro a ser seguido.
publicado
no site Via Política
*
Mário Maestri, 59 anos, é doutor em História
pela UCL, Bélgica. É professor do Curso e do Programa
de Pós-Graduação em História da UPF.
Esteve preso, em 1968, quando estudante, e viveu, como refugiado,
no Chile e na Bélgica, de 1971 a 1977. E-mail: maestri@via-rs.net
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