A
amorosa e solidária jornada
de lutas pela reforma agrária
As
iniciativas de luta social dos trabalhadores e trabalhadoras rurais
sem terra, em particular aquelas que há 12 anos são
concretizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
- MST - e que histórica e legalmente foram sintetizadas
como a Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária, ressaltaram
neste ano de 2008 duas dimensões que por vezes são
pouco distinguidas: a amorosidade e a solidariedade que se fazem
presentes nessa jornada de lutas.
Por Horacio Martins de Carvalho*, no Correio do Brasil
Ao se rememorar no 17 de abril o massacre de Eldorado de Carajás
não se busca tão somente a permanente solidariedade
às famílias dos trabalhadores e trabalhadoras sem
terra assassinados, mutilados e feridos nesse episódio
de anos atrás. Nesta data se reafirma emblematicamente
que a luta social pela reforma agrária e por justiça
social no campo continua viva e revivificada pelo desprendimento
de milhões de famílias de trabalhadores e trabalhadoras
rurais sem terra e de camponeses e camponesas com pouca terra.
Sem dúvida alguma que não bastariam os reclamos
e reivindicações formais e burocráticos desses
trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra perante os governos,
iniciativas essas que se fazem no cotidiano. Também já
se tornou lugar comum que a classe dominante brasileira e, nela
o agronegócio, é absolutamente reacionária
com relação aos interesses e desejos populares,
mais ainda aqueles que enfatizam a necessidade de mudanças
democráticas e sociais na estrutura fundiária do
país.
Os interesses do capital e, portanto, da sua reprodução
na busca incessante do lucro, não são critérios
capazes de balizar a necessidade de reforma agrária no
país. Menos ainda o são os interesses e desejos
dos grandes e reacionários empresários que constroem
a hegemonia dessa classe social. A herança da 'grande fazenda'
e a mentalidade (que se renova) discriminatória social,
étnica e de gênero desses empresários travestidos
de modernos apenas ressaltam as manchas éticas que neles
permaneceu da cultura e economia escravagista onde o outro, seja
o índio, o negro, o branco ou o mulato, foi e ainda permanece
um objeto, por vezes elevado à categoria de mercadoria,
passível de ser disposto conforme os interesses de seus
donos.
As ocupações de terras improdutivas ou daquelas
que não cumprem a função social disposta
em lei; a ocupação de prédios públicos
e privados que se tornam referência exemplar da omissão
dos governos e da indiferença das empresas privadas perante
a desigualdade econômica e social; a ocupação
de ferrovias, de postos de pedágio e de agências
bancárias; enfim, essas ocupações sempre
episódicas e temporárias, são portadoras
de uma mensagem sutil, mas vigorosa: o povo pobre e desprovido
de possibilidades econômicas efetivas de garantia da reprodução
de suas vidas pessoais e familiares, não se deixará
morrer à mingua e na subserviência como faz supor
grande parte das políticas públicas e a maior parte
das práticas econômicas do empresariado.
A luta pela garantia da vida e da sua reprodução
com dignidade é antes de tudo um gesto de amor. As práticas
das lutas sociais, ainda que endurecidas pelos desaforos daqueles
que deveriam as compreender melhor, é a expressão
extremada da amorosidade pelo viver, por essa paixão que
a esperança alimenta e que a solidariedade reafirma a cada
gesto social.
As famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais sem
terra que se expõem aos riscos pessoais e familiares que
as ocupações podem proporcionar, ainda que não
seja essa a intenção dessas iniciativas, estão
lutando não apenas pela sobrevivência com dignidade,
mas, sobretudo, pela justiça social e a possibilidade de
se tornarem sujeitos da sua história que uma reforma agrária
ampla, massiva e imediata poderia proporcionar. Nessa ação
de risco de vida está entrelaçada, de uma certa
maneira, a solidariedade na ação entre as pessoas
e as famílias, seja no compromisso com o seu futuro pessoal
e com o dos seus descendentes, seja no respeito aos feitos das
lutas sociais das pessoas e famílias que os fizeram acontecer
num passado que se faz presente, com uma amorosidade sem limite
que somente o desprendimento possível de suas vidas em
luta pelas vidas de uma imensa massa de trabalhadores e trabalhadoras
poderia consagrar.
Quando empresas privadas como a Vale, a Syngenta, a Monsanto,
a Cargill, a Aracruz, a Votorantin, a HSBC, a Itaú, a Bradesco,
a Rede Globo, entre tantas outras que se fazem emblemáticas
do comportamento que defende a manutenção da desigualdade
social, o atraso cultural das massas, a discriminação
étnica e de gênero e a depredação do
meio ambiente, quando essas empresas ensaiam criminalizar as ocupações,
e reproduzem a ideologia de que esses trabalhadores e trabalhadoras
rurais sem terra são terroristas, o que estão acentuando
nas suas práticas empresariais e nos discursos políticos
que querem fazer passar aos olhos da opinião pública
como lições éticas - supostas no fundo de
todas as razões que as iluminam, é que os interesses
das classes populares são antagônicos aos interesses
de classe da burguesia.
Quando as massas populares desejam melhores condições
de vida e de trabalho, e os trabalhadores e trabalhadoras rurais
sem terra lutam pela reforma agrária e por seus interesses
imediatos setoriais, o que o empresariado vislumbra, e a ideologia
reacionária que os move já o fazem sentir no bolso,
é que esses pobres do campo e da cidade estão querendo
fazer é distribuição social da renda e da
riqueza, renda e riqueza que se encontra concentrada nas mãos
dos próprios capitalistas.
Ora, isso é aviltante para o empresariado. Contraria a
ordem capitalista neoliberal das coisas. Ao povo o salário,
a bolsa-família ou a misericórdia. Aos ricos, aos
empresários capitalistas, o lucro, os juros, a renda da
terra, a apropriação privada do patrimônio
público, a liberdade de degradação ambiental,
o usufruto privado e comercial da natureza, o controle do saber
científico e tecnológico, as patentes, a globalização
da circulação das mercadorias e dos capitais. Enfim,
o aumento continuado da renda e da riqueza nas mãos de
poucas e grandes empresas e a manutenção da desigualdade
social, então compreendida pela ideologia dominante como
uma determinante histórica.
Que bom seria se não fossem necessárias as iniciativas
das lutas sociais populares, a Jornada Nacional de Lutas por Reforma
Agrária, as ocupações, os confrontos sociais
e os desencontros. Que bom seria se vivenciássemos uma
sociedade socialmente igualitária e mais justa. Que bom
seria se a solidariedade e a fraternidade fossem as práticas
do nosso cotidiano. Mas, não diria eu que essa seria uma
vã utopia, porque quimera. Muito ao contrário, é
um mundo que se faz necessário.
Quem bom seria se o MST se esvaecesse no ar, porque já
não mais seria socialmente necessário. Mas, enquanto
isso não sucede desejo longa vida ao MST, e que a Jornada
Nacional de Lutas por Reforma Agrária não deixe
de salientar as dimensões da amorosidade e da solidariedade
que lhe tingem a vida de vermelho por pulsar em demasia o coração.
* Horacio Martins de Carvalho integra o Movimento dos Trabalhadores
Sem Terra